Ignorados pelo Governo, povos indígenas no Amazonas e Roraima contam com solidariedade para enfrentar covid-19

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As doações mobilizadas pelo Cimi Regional Norte I somam mais de 120 mil reais em ações de enfretamento à covid-19 junto aos indígenas nos dois estados

Por Adi Spezia e J. Rosha, da Assessoria de Comunicação do Cimi

O primeiro caso de covid-19 entre os povos indígenas no Brasil foi o de uma jovem do povo Kokama, da aldeia São José, no município de Santo Antônio do Içá (AM) – a 879 quilômetros da capital Manaus. O registro foi confirmado no dia 31 de março pela secretaria de Saúde do governo do Amazonas, apenas duas semanas após a primeira notificação na cidade de Manaus em um paciente não indígena.

Sem nenhum Plano Emergencial para barrar o avanço da covid-19 por parte do Estado, em poucos dias o vírus se alastrou. Nos municípios do Alto Solimões, mais de 30 indígenas foram contaminados já nas primeiras semanas, entre eles lideranças históricas que perderam a batalhar para a covid-19 no período mais crítico, entre abril e maio. O líder geral dos Kokama, Edney Samias, perdeu vários familiares, inclusive seu pai.

“Sem nenhum Plano Emergencial para barrar o avanço da covid-19 por parte do Estado, em poucos dias o vírus se alastrou”

Em Tabatinga, na fronteira com a Colômbia, a concentração dos casos positivos e óbitos, segundo as lideranças, deu-se pela proximidade das aldeias com os centros urbanos e pelo deslocamento à sede municipal em busca do auxílio emergencial e mantimentos. Somou-se a falta de assistência por parte da Fundação Nacional do Índio (Funai) e da Sesai, o que motivou vária denúncias acerca da falta de ação efetivas dos órgãos do Estado e o despreparo dos profissionais que atendiam no Hospital de Guarnição da cidade de Tabatinga.

Por diversas vezes, as lideranças Kokama denunciaram o registro de indígenas como pardos e, por essa razão, seu sepultamento junto com não-indígenas. Essa prática é bastante grave, visto que os povos têm seus rituais próprios de passagem. Por esse motivo e com muita insistência, os indígenas conseguiram junto à Prefeitura de Tabatinga um espaço diferenciado no cemitério local para sepultamento das suas vítimas da covid-19.

“Por diversas vezes, as lideranças Kokama denunciaram o registro de indígenas como pardos”

Parte da equipe do Cimi em Tefé. Foto: Cimi Regional Norte I

Em Manaus e nos municípios da Região Metropolitana, o período mais crítico foi do início de abril até a segunda quinzena de junho, quando as famílias indígenas que vivem no contexto urbano passaram por momentos de extrema dificuldade. Muitas não puderam fazer o velório dos familiares e a prefeitura de Manaus destinou uma vala comum para sepultamento daqueles cujos familiares não podiam comprar caixões.

O relaxamento das medidas de proteção e dos órgãos governamentais resultou no crescimento rápido dos casos de covid-19. Em seu primeiro pronunciamento sobre o caso, o governador do Amazonas, Wilson Lima (PSC), garantiu que o Estado, em todas as suas instâncias, estava preparado para enfrentar a pandemia. Os números, poucos dias depois, desmentiriam o governador.

“Nas estradas e rios que dão acesso às aldeias, foram montadas barreiras sanitárias sob vigilância dos indígenas”

Nas aldeias o impacto foi imediato. Por iniciativa própria as organizações indígenas e lideranças nas aldeias decidiram seguir a orientação de manter o isolamento social. Em muitos lugares, estradas e rios que dão acesso às aldeias, foram montadas barreiras sanitárias sob vigilância dos indígenas. Com passagem restrita, os moradores só podem sair por extrema necessidade, como adquirir alimentos.

Apesar da tentativa de controle do fluxo de pessoas, a covid-19 acabou entrando, por vezes levada pelos profissionais da saúde. Foi assim, por exemplo, na Terra Indígena Raposa Serra do Sol (RR) e no Vale do Javari (AM). No município de Tefé, na região do Médio Solimões, indígenas da aldeia Barreira da Missão emitiram um pedido de socorro diante da ameaça de contágio da população de aproximadamente 800 pessoas que ali vivem. A reclamação dos indígenas aponta a entrada de servidores da saúde sem equipamentos de proteção e o não fornecimento de equipamentos e materiais de higiene.

Distante dali, na região do rio Madeira, na aldeia Murutinga (AM), por volta da segunda semana de maio, foi confirmado o primeiro caso de infecção por covid-19. A aldeia tem mais de três mil indígenas dividindo um espaço bastante limitado, com graves problemas de infraestrutura e poucas áreas para plantação dos roçados e desenvolvimento de outras atividades, além do artesanato – que tem sido a ocupação principal de grande parte da aldeia.

“Apesar da tentativa de controle do fluxo de pessoas, a covid-19 acabou entrando, por vezes levada pelos profissionais da saúde”

Barreira montada no rio Sissaíma e sob vigilância dos Mura da aldeia Sissaíma. Foto: Cimi Regional Norte I

A força da medicina tradicional

O conhecimento das populações indígenas sobre as ervas tem sido muito utilizado no combate à febre alta, tosse, falta de ar, dores pelo corpo e outros sintomas muito semelhantes aos da covid-19. A experiência é relatada pelos indígenas Mura, dos municípios de Autazes e Careiro da Várzea. Com a ocorrência dos sintomas e a dificuldade do diagnóstico, os remédios tradicionais foram fundamentais. Da aldeia Taquara, o tuxaua Francisco Oliveira da Silva conta que a maioria dos indígenas apresentavam os sintomas da covid-19. Os servidores da saúde realizaram 16 testes e todos confirmaram resultado positivo para o vírus.

Em meados de junho, a equipe do Conselho Indigenistas Missionário (Cimi) Regional Norte I que atua junto aos Mura enviou às aldeias uma quantidade considerável de medicamento homeopático para ajudar no combate ao vírus. Sem qualquer outro tipo de medicação, além dos remédios tradicionais e da homeopatia, sem o devido apoio da Funai e do Distrito Sanitário Especial Indígena (Dsei) Manaus, responsável pelo atendimento às aldeias, os Mura que adoeceram no período da pandemia apresentaram boa resistência. As barreiras sanitárias organizadas pelos indígenas também evitaram o alastramento do contágio e a ocorrência de altos índices de óbitos. De acordo com as lideranças, “os poucos que não resistiram ao vírus apresentavam um quadro de forte debilidade física”.

“Com a ocorrência dos sintomas e a dificuldade do diagnóstico, os remédios tradicionais foram fundamentais”

Os povos indígenas criaram suas próprias medidas para barrar à covid-19 nos territórios. Foto: Cimi Regional Norte I

Equipes do Cimi e sua atuação durante a pandemia 

O Cimi Regional Norte I abrange os estados do Amazonas e Roraima, onde vivem 72 povos indígenas conhecidos e um grande número de povos sem contato. Ao todo, são 17 equipes atuantes junto à população que, segundos dados da Sesai em 2017, é de 298.479 indígenas. Em meados de março, quando a pandemia do novo coronavírus avançou sobre os dois estados, as equipes do Cimi redimensionaram suas atividades para apoiar as iniciativas dos povos e organizações indígenas buscando barrar o avanço da pandemia nas aldeias. Até agosto, 252 indígenas haviam perdido a batalha para a covid-19 nos dois estados, sendo 184 no Amazonas e 68 em Roraima.

Com assistência precária por parte dos órgãos governamentais as equipes do Regional passaram a organizar campanhas para aquisição de alimentos, equipamentos de proteção e produtos de higiene, começando pelo Vale do Javari.

“Com assistência precária por parte dos órgãos governamentais as equipes do Regional passaram a organizar campanhas”

“No início, a campanha contou com apoio da Repam [Rede Eclesial Pan Amazônica] e de membros do Cimi. Depois outras instituições se somaram. O Cimi colaborou, dentre outras coisas, com 15 mil reais para aquisição e distribuição de alimentos. A equipe [do Vale do Javari] também mobilizou itens de higiene. Com os Médicos Sem Fronteiras nós conseguimos algumas doações, inclusive um cilindro de oxigênio”, conta Cristina Alejandra, da equipe do Cimi no Vale do Javari.

No início de maio, representantes de universidades, institutos de pesquisa, associações indígenas do Alto Solimões e entidades de apoio aos povos indígenas divulgaram uma carta pedindo aos órgãos públicos maior atenção os povos sem contato e que assegurassem a identificação dos indígenas vítimas do novo coronavírus, reforçando a solicitação dos Kokama.

Além do apoio com alimentos, materiais e equipamentos solicitados pelos indígenas, o Cimi Regional Norte I tem atuado na esfera jurídica, colaborando com a elaboração de um pedido apresentado ao Conselho Nacional de Justiça (CNJ) para que a regulamentação dos sepultamentos de indígenas vítimas da covid-19 seja uniformizada. A iniciativa se deu no contexto da polêmica em torno do enterro – não informado aos respectivos parentes – de indígenas Yanomami e Waiwai em cemitérios urbanos de Boa Vista.

“Além do apoio com alimentos, materiais e equipamentos, o Cimi Regional Norte I tem atuado na esfera jurídica”

Doações sendo entregues aos indígenas. Foto: Cimi Regional Norte I

Em conjunto, advogados do Cimi, do Instituto Sociambiental (ISA), da Associação Yanomami Hutukara e do Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH) contribuíram na elaboração de um pedido de medidas cautelares proposto pela Hutukara à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), para que o governo brasileiro adotasse medidas urgentes de retirada dos invasores e protegesse o território dos Yanomami. No pedido, as organizações destacam a disseminação do vírus pelos invasores e denunciam o desrespeito às práticas culturais relacionadas aos sepultamentos de indígenas. A CIDH atendeu parcialmente o pedido por meio da Resolução 35/2020, emitida no dia 17 de julho.

Outra contribuição da Assessoria Jurídica do Cimi foi na elaboração do Relatório sobre Violações de Direitos Indígenas no contexto da covid-19 apresentado ao relator da Organização das Nações Unidas (ONU).

Parceria, solidariedade e uma nova chance de viver

O primeiro pedido de ajuda ao Regional Norte 1 do Cimi veio da Zona Norte de Manaus, comunidade Tikuna Wotchimaucu, onde vivem 45 famílias, já no período de isolamento social, num momento em que a maioria dos moradores se encontrava doente, sem quaisquer recursos e sem nenhum apoio financeiro por parte dos órgãos de Estado.

Por iniciativa do Regional, a mobilização para aquisição de alimentos e material de higiene rendeu cerca de R$ 5 mil para a comunidade Tikuna Wotchimaucu. As famílias indígenas também receberam medicamentos homeopáticos para ajudar no tratamento das doenças e prevenção da covid-19. Está doação foi possível com o apoio das congregações Missionárias Servas do Espírito Santo, Irmãs de Jesus Crucificado, Associação Brasileira de Homeopatia Popular (ABHP), Conselho de Missão entre Povos Indígenas (Comin) e Congregação das Missionárias da Imaculada, além de contribuições individuais de missionárias e missionários do Regional.

“A pedido dos indígenas, foram distribuídas mais de 800 mudas de árvores e sementes de diversas de frutas e legumes da região”

Distribuição de mudas aos indígenas da aldeia Sissaíma. Foto: Cimi Regional Norte I

Distribuição de mudas aos indígenas da aldeia Sissaíma. Foto: Cimi Regional Norte I

Junto à Aldeia Murutinga e outras quatro aldeias de Autazes e Careiro da Várzea, além da distribuição de alimentos, kits limpeza e higiene pessoal, a pedido dos indígenas, foram distribuídas mais de 800 mudas de árvores e sementes de diversas de frutas e legumes da região. “Apoiamos as barreiras sanitárias, mas também as aldeias que têm dificuldade de conseguir os alimentos, pela terra não ser demarcada ou porque tiveram seus plantios destruídos por búfalos”, explica Edina Pitarelli, missionária do Cimi.

Em 1º de julho, o governo do estado do Amazonas revogou o decreto que instituía o isolamento social e suspendia o transporte rodoviário e fluvial entre os municípios. Mesmo assim, várias terras indígenas mantiveram as barreiras sanitárias com o apoio do Regional. A exemplo das aldeias São Felix, Moiray, Guapenu e Ponta das Pedras (AM). Da mesma forma, nas aldeias mais distantes onde o acesso é feito por via fluvial e há muita pressão de fazendeiros e posseiros.

“Apoiamos as barreiras sanitárias, mas também as aldeias que têm dificuldade de conseguir os alimentos, pela terra não ser demarcada”

A entrega de cestas de alimentos, máscara de proteção individual, kits de higiene e limpeza fazem parte das ações organizadas pelo Regional. Foto: Cimi Regional Norte I

Na Prelazia de Tefé, na região do Médio Solimões, está em curso uma campanha com participação do Cimi, Cáritas e Associação dos Geógrafos do Brasil (AGB) para aquisição de alimentos. “Em agosto fizemos doação de cestas básicas para moradores da aldeia Boará de Cima, do povo Kokama”, explica Fábio Pereira, da equipe local do Cimi. Além dos alimentos, as doações contam com kits de higiene e limpeza, também recursos financeiros para construção da Associação e incidência das lideranças que reivindicam atenção para seus povos não reconhecidos pela Sesai como indígenas.

Já na região do rio Purus (AM), onde a covid-19 segue avançando sobre as aldeias mais afastadas, estão sendo organizadas cestas de alimentos, produtos de higiene e utensílios de pesca, somando um valor aproximado de R$ 100 mil reais. Integrante de uma das equipes do Cimi Purus, Hoadson Leonardo, explica que as doações serão entregues em outubro nas aldeias dos povos Madiha Deni, Katukina, Banawá e Apurinã do Alto Purus. “Estas ações estão sendo realizadas para evitar ao máximo o deslocamento dos indígenas das aldeias para a cidade e para que não tenham contato com a covid-19”, esclarece ele.

Ercília Vieira da Silva, da Associação das Mulheres Indígenas do Médio Solimões e Afluentes (AMIMSA), conta que o importante dessa luta, na busca de melhores condições para atender a demanda dos povos, foi a parceira. “O Cimi tem sido nosso parceiro principal dentro das comunidades, no resgate da alimentação, do direito indígena. Desde o início da pandemia o Cimi e a AMIMSA têm atuado dentro das comunidades, respeitando a diversidade cultural de cada um”, afirma a liderança do povo Ticuna.

“O Cimi tem sido nosso parceiro principal dentro das comunidades, no resgate da alimentação, do direito indígena”


A entrega de mudas e sementes foi um apedido dos indígenas. O objetivo é fortalecer o cultivo dos roçados nas aldeias. Foto: Cimi Regional Norte I

As doações têm sido fundamentais, elas precisam continuar

As ações de solidariedade organizadas pelos Cimi Regional Norte I têm sido fundamentais para a permanência dos povos de Roraima e Amazonas nas aldeias, visto que esta ainda é a forma mais eficiente de assegurar a vida de todos, indígenas e não-indígenas.

Com a necessidade do isolamento social, o modo de vida nas aldeias foi extremamente afetado, da mesma forma a economia dos povos que, em grande parte, têm na venda do artesanato e no trabalho fora das aldeias suas principais fontes de renda. Sem seus territórios demarcados, com o avanço de invasores e da fome, as equipes do Cimi em todo país têm realizado ações de enfrentamento à covid-19 com o apoio de organizações parceiras, pessoas físicas e agências de cooperação nacionais e internacionais.

“As doações são muito importantes, chegaram num momento de vulnerabilidade, em que os parentes estão passando por muita necessidade por causa da pandemia”

Da aldeia Boará de Cima, a professora e vice-cacique do povo Kokama, Valcidheice Alves Pereira, conta que as doações chegaram em boa hora aos parentes. “Foi de grande importância para nosso povo, pois chegou num momento de muita vulnerabilidade, em que os parentes estão passando por muita necessidade por causa da pandemia, já que não podemos sair, trabalhar fora e com esses alimentos, kits de higiene podemos permanecer nas aldeias, nos protegendo do vírus”.

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