Insistem na estupidez

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Por Manoel Ramires
Terra Sem Males

Raras vezes a vida nos dá a chance de nos tornamos diferentes. Na realidade, a oportunidade ocorre todos os dias, mas com sinais quase imperceptíveis. No nosso aniversário ou de um familiar, no Natal, em uma demissão, em um novo emprego, em uma discussão. São muitos os momentos para agir de outra forma. Todos esses instantes, porém, dependem muito de uma percepção individual sobre o mundo. Por outro lado, as chances coletivas ocorrem em ocasiões de grande amor ou de grande dor. Esse é o caso da tragédia que acometeu o voo da Chapecoense. Além da mágoa, ela ofereceu a oportunidade de muita gente mudar o comportamento, ela ofereceu uma onda de tolerância, amor, solidariedade e humildade diante da leveza que é a vida.

Essa chance piscou forte, como uma luz de Natal, como uma chama de respeito e gratidão, na homenagem que o povo colombiano prestou aos falecidos nessa semana. Quem conhece Medellín, tem a noção de quanto essa cidade e a província de Antioquia tem em sua rotina a convivência com a dor, com a tragédia, com a banalização da vida. Medellín é terra de Pablo Escobar e conviveu por década com chacinas de ambos os lados, carros bombas, explosões e a queda de um avião em atentado terrorista. Na homenagem às vítimas trágicas do voo da Chape, o prefeito da cidade colombiana brevemente passou por esse histórico de “falta de esperança”. Mas desilusão foi tudo o que não se viu na homenagem prestada no estádio do Atlético Nacional. Pelo contrário, a força e a energia que mandaram aos familiares das vítimas brasileiras, bolivianas e paraguaias comoveram o mundo. A começar pelo próprio clube que realizou diversas ações – muito além do marketing, mas calcado na solidariedade – para marcar positivamente a dor a ponto de abrir mão do título. As atitudes do Atlético Nacional concretizam a frase de que “futebol não é apenas um jogo”.

No entanto, os idiotas de plantão têm dificuldade de entender o sentido dessa sentença. Para eles, o jogo só vale a pena se de alguma forma eles obterem uma vitória ou alguma vantagem. Esse é o caso dos diretores do Internacional, do presidente Michel Temer e do presidente da CBF, Marco Polo Del Nero. Esses fazem uso de uma outra frase, bem associada ao capitalismo e ao individualismo de nossa era. Para esses, “é na crise que se obtém os maiores lucros”. São asnos letrados.

2016, definitivamente, foi um ano em que muitos idiotas se revelaram quando defenderam impedimento sem crime, intervenção militar, bandido de estimação, entre outros. Muita gente se esforçou para passar vergonha em público ou nas redes sociais. Mas ninguém supera os dirigentes do Internacional na capacidade de ser non sense. Desde a primeira declaração do vice-presidente Fernando Carvalho, comparando tragédias, passando pela ação no STJD tentando tomar os pontos do Vitória e concluindo com a sugestão de cancelar a última rodada com a possibilidade de um super tapetão, o clube gaúcho se esforçou para ser o time mais detestado no Brasil. As redes sociais pontuaram muito bem ao dizer que a Chapecoense conquistou a América, o Atlético, o mundo, e o Inter,  a Série B antecipada. Daqui pra frente muito pouco do que seja dito será capaz de remediar tantas declarações mal empregadas. A melhor posição é ficar em silêncio, de luto, até o final do ano.

Outro personagem que mostrou sua pequenez de caráter é o presidente golpista Michel Temer. A cada dia que passa, a afirmação de que ele era um vice decorativo ganha mais veracidade. Realmente, o melhor que podia acontecer é ele ficar encostado no canto, como um abajur desligado, para que ninguém o percebesse. Mas não, ele insiste em querer brilhar com sua luz negra. Temer mostrou mais uma vez quanto é covarde quando decidiu não ir à Arena Condá para prestigiar os falecidos sob medo de ser vaiado. Preferiu que os familiares e os corpos fossem até ele no aeroporto, onde, cercado de falsa pomba, ele pudesse ganhar algumas linhas nessa história. Mas o livro da vida é onipresente. E o parágrafo que define sua postura foi escrito por um pai de um jogador quando cobrou humildade de vossa excelência e de que ele, Temer,  deveria ser coadjuvante nesse momento. Uma dura lição em personagem secundário na história do Brasil.

Para concluir o pódio dos idiotas, figura o presidente da CBF, Marco Polo Del Nero, aquele que não viaja. Nem na pior tragédia do futebol mundial ele se dispôs a ir ao local do ocorrido e, como autoridade, representar o Brasil e o futebol nacional. Del Nero, pequeno, sabe que se sair do país, deve ser preso pela Interpol. Para evitar a imagem do uniforme listrado, não aparece na foto em homenagens à aqueles vestidos de ataúde. Como se não bastasse essa ausência, Del Nero quer impor que a Chapecoense dispute a última partida do Brasileirão, mesmo que o adversário, Atlético Mineiro, não queira, que a Rede Globo não cobre a multa por WO, mesmo que os clubes desejem ceder um jogador por time, mesmo que defendam anistia de três anos a Chape. Del Nero se diferencia pela estupidez. Ele quer uma partida festiva em cima do luto do povo. Para essa postura, o ex-jogador Zé Elias propôs que o jogo ocorra nos EUA, de onde, após o ponta pé inicial de embuste dirigente, o mesmo seja levado para trás das grades. De sua sapiência, Del Nero não deixará saudades.

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