Jornalismo Resiste | Um protagonismo que não deveria existir

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Por Paula Zarth Padilha

Encerramos o ano de 2019 com um protagonismo do jornalismo que nem deveria existir: a necessidade de reafirmar a defesa da profissão, do trabalhador jornalista e da razão de ser do jornalismo, a produção de notícias. E a necessidade de defesa da imprensa é reforçada pela representação de quem ataca a todos nós: o presidente Jair Bolsonaro, que reivindica para si a disputa da verdade, acusando o jornalismo de mentiroso, omisso, falso.

Os desafios para o movimento sindical, de uma maneira geral, são enormes em toda a classe trabalhadora. Para a categoria dos jornalistas eles tornam-se cruel. Não foi de um dia para o outro, mas sim em um processo narrativo construído deliberadamente que, dia após dia, o Presidente da República decidiu seu alvo a atacar: o trabalho jornalístico, desde a garantia ao sigilo de fonte, passando pelo critério da checagem da informação, até chegar à confusão entre conduta editorial de veículos de imprensa e a própria existência deles, e o trabalhador.

Nessa gama de possibilidades de se atacar o jornalismo, o presidente parte para a barbárie. E as consequências são muitas: desde xingamentos e tentativas de descredibilização virtuais até ataques verbais presenciais em eventos criados pelo Planalto, os cercadinhos que jornalistas acompanham como pauta diária na tentativa de ouvir a palavra do governo federal para os diversos assuntos que ele é responsável no país.

O que era uma percepção sobre o primeiro ano de governo virou estatística. Em monitoramento da postura presidencial contra o jornalismo, a Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ) identificou, de janeiro a dezembro do ano passado, 116 ocorrências em que Jair Bolsonaro atacou jornalistas ou tentou descredibilizar a imprensa. Os dados foram coletados em fontes oficiais, como entrevistas e discursos transcritos no site do Planalto e postagens na conta pessoal do twitter de Bolsonaro. Os ataques representam o maior número de outro levantamento divulgado pela FENAJ: o Relatório de Violência contra Jornalistas referente ao ano de 2019.

Essas ações estão, ainda, num contexto de criminalização de jornalistas e questionamento sobre acesso a fontes ou produção de reportagens num contexto político específico, nos desdobramentos da chamada Vaza Jato, pelo site The Intercept Brasil, e na pessoa de Glenn Greenwald, fato que gerou diversas mobilizações e enfrentamentos em defesa da profissão. As acusações contra Gleen procuraram, inclusive, retirar do jornalismo a garantia do sigilo de fonte.

A luta dos jornalistas ainda tem que ter fôlego, para além do exercício do trabalho, para a resistência e o embate político também em defesa da continuidade da própria existência da profissão. Desde novembro as entidades sindicais de jornalistas se articulam, em todo o país, junto a parlamentares e a trabalhadores, para lutar pela volta do registro profissional, regulamentação que foi extinta pela Medida Provisória 905.

Nesta primeira quinzena de fevereiro, a mobilização das entidades sindicais contra a MP foi intensificada, com a retomada dos trabalhos no Congresso Nacional. A luta tem foco: é pela derrubada da medida provisória, que está em vigor.

O Jornalismo Resiste todos os dias. Para continuar existindo enquanto atividade profissional. Para defender sua legitimação na apuração, checagem e divulgação de informações. Para se reinventar nesse protagonismo conjuntural e se recolocar na posição que é produzir, e não ser, protagonista da notícia.

Paula Zarth Padilha é jornalista em Curitiba, diretora da Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ) e do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Paraná (SindijorPR). Atuou como editora, repórter e cronista para o Terra Sem Males de 2015 a 2018 e escreve a coluna Jornalismo Resiste quinzenalmente, especial para o Terra Sem Males.

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