LP Crônicas Musicais | O coveiro

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Capítulo II – O início de uma jornada em direção ao fim

Por Regis Luís Cardoso
Terra Sem Males

“É delegado… já era… você e sua dona… que a terra não rejeite vossas carnes podres” – e jogou o corpo de ambos… um em cada cova.

Também matou a autoridade jurídica da cidade. Quando chegou a residência do juiz, ele se entregava fervorosamente a gordas linhas de cocaína, em parceria com o presidente da Câmara de Vereadores do município.

Depois de matá-los, jogou os dois corpos no mesmo buraco.

O coveiro entrava na casa das pessoas e sem qualquer sentimento de culpa passava a faca na garganta das vítimas. Era cirúrgico nos golpes. Aprendeu a usar suas facas com seu padrasto.

Quando jovem, ele e seu criador treinavam golpes nos corpos que esperavam pra ser enterrados. Com o tempo tornou-se um especialista.

Após enterrar todos os corpos, o coveiro sumiu sem deixar rastro. Ninguém soube seu paradeiro.

Já andei em todos os lugares

Já cruzei os sete mares

Espalhando o ódio e o horror

Caminhando e matando

Tudo o que for encontrando

Mato tudo e mato todos onde eu vou

Agora o coveiro está em Curitiba. A cidade de clima sombrio o deixa mais em casa. Num canto do Parolin ele mora disfarçado. Como escondeu vários documentos de amigos que enterrou, tem diversos RG´s. Também dinheiro suficiente pra se manter por um bom tempo, já que na pequena cidade não tinha onde gastar e com o tempo acumulou alguns vinténs.

O coveiro passa a conhecer a capital paranaense. Também vai ao litoral e a Região Metropolitana, mas seu principal objetivo é analisar o que acontece no Centro Cívico.

Sua ‘meta’ é semear cadáveres no seu cemitério ideal.

Ontem, pela manhã, ele decidiu passar pelo Centro Cívico. Estava esperançoso. “Esses estudantes me orgulham. Que ocupem tudo! Ocupar e resistir!”, pensava enquanto aguardava um táxi.

Analisar o antro onde caminham seus futuros alvos pode ser considerado muito rico – culturalmente falando.

Já no táxi, o coveiro olhava pro motorista: “esse cara não para de reclamar”.

“Essa porra de cidade, tá cheio de comunista baderneiro. Esses estudantes de merda, bando de vagabundo. Tudo bandido. E bandido bom é bandido morto”, disse o taxista, que buzinava, gesticulava e berrava no trânsito.

No engarrafamento, ele continuou:

– Tá tudo uma bosta. Tudo culpa do PT. Do Lula, da Dilma.  Mas pelo menos nesta eleição que passou eu consegui tirar um dim dim. Lá no meu bairro sempre tiro ‘algum’ dos magnata. Chega político lá é diz uma coisa, aí eu digo que vou defender ele, mas aí chega outro e me dá mais dinheiro… aí eu fico negociando. Como eu conheço todo mundo no meu bairro, tenho influência. Conheço pastor, conheço líder comunitário, conheço padre. Aí vou negociando. Quanto mais político chegar, melhor… é mais grana que entra. Graças a deus eu vou me virando. Nós, cristãos, pagamos impostos pra sustentar preso, sustentar bolsa família, então temos que tirar proveito de algumas forma, né?

“Que porco escroto” – pensava o Coveiro. Logo tendo seu pensamento interrompido por mais rajadas de ignorância.

– Não tem político que presta. Não tem. Já rolou uma vez de pegar uns trocado que era pro combustível da campanha, pra rodar no bairro… mas aí a gente vai na casa das querida gastar né… fazer umas festinha… ninguém é de ferro… ainda mais quando o dinheiro não é meu… HAHAHA…

“Além de tudo acha bonito fazer isso” – olha pro taxista ‘admirado’ com tamanha cara de pau.

– Olha aí ó… trancou tudo de novo! A porra toda fica parada. Que merda. Que bosta. Olha lá ó… tem que ser mulher! – e apontou pra um carro – Olha lá… tá trancando a porra toda! “Sua puta!” (tirou a cabeça pra fora da janela e gritou). Eu grito mesmo… esse táxi é meu… a placa é minha… grito mesmo…

Depois de uma pausa. Ele continuou:

– Essa vadia aí acha que é dona do trânsito? “Comprou a carteira na zona sua vaca” (tirou a cabeça da janela e gritou novamente).

O Coveiro quase explodiu de raiva, por isso pediu pra descer ao invés de continuar a corrida.

Ele ainda não estava nas redondezas do Palácio Iguaçu, preferiu parar no Centro Cívico, na Rua Mateus Lemes, perto do Shopping Muller.

Eu assino a marca dos três noves invertidos

A cada novo corpo destruído

A violência nunca faz sentido

Mas eu tenho que cumprir o meu destino

 

Eu sou um anjo exterminador

Prego a purificação através da dor

Eu liberto almas atormentadas

Que em corpos frágeis são aprisionadas

 

Não, não cruze comigo

Não, não cruze o meu caminho

Porque eu assino

A marca dos 3 noves invertidos

Após almoçar, foi pra rua e passou por uma manifestação na Avenida Cândido de Abreu, sentido Palácio Iguaçu.

Só pra analisar a situação, ele se juntou à multidão. Percebeu que eram grupos de trabalhadores que se manifestavam contra o descaso do governo paranaense diante da situação dos professores e dos estudantes do estado.

Depois de algum tempo, resolveu voltar ao Parolin. Mudou de direção e foi procurar um tubo pra pegar o busão. Enquanto caminhava pela calçada, ainda na Avenida Cândido de Abreu, entrou numa farmácia pra comprar um remédio pra dor de cabeça.

Pegou o item e foi pra pequena fila.

– Você é uma vagabunda. Paga minha corrida agora, porra. Você acha que vim aqui de graça?

Pra surpresa do Coveiro, o mesmo taxista que antes esbravejada agora estava na farmácia. Ele xingava a mulher do caixa e logo na sequência entrou na farmácia e foi em direção a prateleira. Pegou uns itens e começou a discutir com o gerente do estabelecimento.

O Coveiro foi rapidamente em direção a mulher do caixa e perguntou:

– O que houve?

– Ah, é sempre a mesma coisa. Esse cara aí, ele é complicado. Ele fica num ponto aqui perto. Nós sempre o chamamos. Mas o cliente que queria um táxi também mandou mensagem pra outro aplicativo. A concorrência chegou primeiro. Não é nossa culpa.

Enquanto o taxista discutia com o gerente, o Coveiro pagou seu remédio, foi até os dois e disse:

– Ei, por favor… peguei um táxi com o senhor hoje… está lembrado? Coincidentemente estou precisando de outra corrida…

A conversa com o gerente da farmácia acabou ali. O taxista largou os itens e levou o coveiro pro seu táxi.

O Coveiro pensou: “Serei o último passageiro desse cara. Os vermes ficarão satisfeitos. Será um bom treino”.

O Taxista pensou: “Otário filha da puta. Esse cara me largou na metade da corrida. Agora vou cobrar é o dobro desse idiota”.

A Vingança é o estimulo mais antigo

É o que faz querer o sangue do inimigo

É o ódio no olhar e a vontade de matar

É uma dívida que se tem que cobrar

 

É um tormento que consome a mente

É um lugar onde ninguém é inocente

É quando o sangue ferve e a alma fica doente

É olho por olho e dente por dente.

 

Acesse aqui O Coveiro: Capítulo I – Eis que inauguro meu cemitério ideal

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