LP crônicas musicais | A bola do tempo

Compartilhe esta notícia.

Confesso que nunca achei tão necessário como agora entrar numa bolha do tempo. É verdade! Eu sei que as vezes eu entro numas “bolas do tempo”, mas “A BOLHA do tempo”… essa… desconheço.

Seria ela a “felicidade eterna”?

Vai saber…

É por isso que eu valorizo as “bolas do tempo”. Aquelas ondas que nos levam temporariamente ao lugar que quisermos. E pra fazer essa “passagem”, uma ferramenta extremamente eficaz chama-se música.

Esses dias mesmo, um amigo me mandou um ‘whats’ perguntando:

– Cara, você ainda curte ter CD?

“CD!” – pensei.

Essa pergunta desencadeou todo um cenário muito doido. Fui longe! Fui lá no tempo em que ouvia escondido os discos de vinil do meu irmão. Depois lia todas as revistas de música dele e imaginava como soavam aquelas bandas que eu via nas fotos.

Quando veio a época do CD, quem não tinha os discos ia nas locadoras e pedia pra passar as músicas pro k7. Era legal.

Depois de um tempo, ainda na época do CD, conheci duas bandas que atualmente acabam de lançar seus novos trabalhos.

Lá atrás, lia sobre o Public Enemy e suas ideias e queria conhecer o som. Também sobre o Rancid,  nas mesmas revistas, e ficava curioso. Foi numa dessas leituras que vi que eles eram um “Green Day com excesso de maconha”. Isso me animou bastante.

Era virada de 95 pra 96, eu era um moleque, estava com minha tia, em Lajeado, Rio Grande do Sul. Ela me levou ao shopping da cidade e eu fui direto procurar as lojas de CD’s.

Até hoje elas, as lojas, ou os sebos… são como “bolas do tempo” pra mim.

Voltando a Lajeado, foi lá que eu achei a loja certa. Sabe aquele lance de você entrar no lugar e encontrar coisas que só se via em revistas? “Oh!”….

É que em Palotina (PR), onde eu morava, não tinha variedade musical…

Entre as bandas que encontrei na loja, Public Enemy e Rancid. Aí foi aquela coisa. Pegar o CD, colocar no aparelho, com uns ‘puta’ fone de ouvido e curtir uns trechos das músicas…

Naquele dia escutei muita coisa. Minha tia aguardou pacientemente eu saciar a curiosidade. Depois fomos embora. Saí de Lajeado com dois CD’s que ganhei: And Out Come the Wolves (Rancid) e Muse Sick-n-Hour Mess Age (Public Enemy).

E você lembra da pergunta do meu amigo?

Pois então, esses dias, quando meu amigo perguntou sobre CD, ele falava de um disco do Rancid. Uma coletânea chamada “B’sides and C’sides”.

“Olha como são as coisas?”…

Após todo aquele filme nostálgico que passou pela minha cabeça, a realidade é a seguinte: meu amigo importou o vinil do novo álbum do Rancid, “Trouble Maker” (2017), e ganhou a coletânea em CD. Tanto ele quanto eu também tivemos acesso ao disco recém lançado via web. A banda até “tocou” as músicas novas na íntegra, filmou tudo, fez uma edição aqui e ali e disponibilizou tudo nas suas mídias (site, face, etc, etc e tals…).

Já o Public Enemy foi mais direto, como sempre. Disponibilizou o álbum completo, de surpresa, pra download. “Nothing Is Quick In The Desert” chegou sem muito alarde no início desse mês. É mais um grande trabalho de Chuck D, Flavor Flav, Khari Wynn, DJ Lord e Professor Griff.

O melhor disso tudo é saber que a música, a arte, entra numa “bolha do tempo”. As bandas e os músicos também. O Public Enemy continua seu ativismo por igualdade racial, seu combate contra a violência e o racismo da polícia.

O Rancid  também mantém suas referencias. Inclusive, nesse último álbum, na música “Telegraph Avenue”, Tim Armstrong recorda Mario Savio, um ativista norte-americano, membro do movimento “Free Speech Movement”, de Berkeley, Califórnia. Pensador da classe operária:

“There’s a time when the operation of the machine becomes so odious — makes you so sick at heart — that you can’t take part. You can’t even passively take part. And you’ve got to put your bodies upon the gears and upon the wheels, upon the levers, upon all the apparatus, and you’ve got to make it stop. And you’ve got to indicate to the people who run it, to the people who own it that unless you’re free, the machine will be prevented from working at all”

— Mario Savio

É bom ver e ouvir artistas não esquecendo das urgências de permanentemente dialogar com os trabalhadores através da música, que é uma linguagem universal.

No Brasil, por exemplo, em nosso momento histórico turbulento, é sempre bom ver Chico, Caetano, Mano Brown, Criolo, Karol Conká, Pitty, Tulipa Ruiz, Chico Cézar, e muitos outros artistas espalhados por todas as cidades brasileiras, unindo arte e política nas manifestações contra o atual governo Temer.

Voltando aos CD’s…

Mas quando meu amigo me perguntou aquilo, eu respondi que não me interessava mais por CD’s. Mesmo tendo uma caixa com vários em casa!

“Ah! Então você não quer ganhar um CD do Rancid?” – ele continuou a conversa.

Não sei exatamente a razão, mas me mantive na defensiva… inclusive disse que não queria o “B’sides e C’sides”…

Aí depois de ter lembrado de tudo aquilo… do Public Enemy, do Rancid, da mudança nos hábitos de se ouvir música, do momento em que vivemos, das coincidências da vida… resolvi retomar as “negociações”:

– Cara, e o CD do Rancid?  – perguntei ao meu amigo.

Eu já esperava ele começar toda uma enrolação, conheço meu camarada, mas no final concordamos com o seguinte: “você se arrependeu de ter me oferecido o CD e eu me arrependi de recusar”, expliquei.

No fim das contas, fizemos o tão esperado acordo. Não há contrato, mas estou no aguardo de mais um presente. O engraçado é que toda vez que eu escutar o CD vou lembrar dessa história.

E é nesse momento que a coisa acontece,  que entramos momentaneamente numa bolha do tempo. Isso é o que eu chamo de “bola do tempo”. A felicidade momentânea.

É meus amigos e amigas, ainda bem que ainda temos a música.

 

Por Regis Luís Cardoso
LP – crônicas musicais
Terra Sem Males

 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *