LP Crônicas musicais | Banco do Brasil Vinho Blues Jazz

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As vezes você só quer um gatilho. Não pra sair atirando por aí, mas apenas pra despertar. Sabe aquele lance da explosão, do susto, da adrenalina… é tipo uma mensagem: “fica ligado!”.  E parece que foi isso que meu amigo Brutus Martini quis dizer, no sábado passado (03), num dia ensolarado e lindo, lá no Museu do Olho. Lugar, arquitetado por aquele comunista brasileiro, o tal do Oscar Niemeyer.

Lá estava eu, minha companheira Ana, meu amigo Brutus, além de muitas garrafas de vinho, uma multidão de gente espalhada pelo gramado, um monte de cachorros circulando, crianças brincando, fumaça no ar e muita música. Era um festival dedicado ao blues e ao jazz, patrocinado pelo Banco do Brasil.

Foi aí que meu amigo ironizou:

– É engraçado, estamos num lugar projetado por um comunista e umas semanas atrás tinha um monte de fascistas se “manifestando em apoio ao Brasil e ao Moro”; além, obviamente, da “ameaça comunista”….

– hahahahaha… quanta contradição!

– Pois é, meu amigo. Mas as contradições não param por aí. Hoje, por exemplo, é dia de blues e jazz, não é? E eu acho engraçado um banco, com seus lucros exorbitantes… transbordantes, às vezes promover um festival como esse.

– Então… pela lógica, ou pelos meus cálculos (sic), daria pra fazer um festival desses por dia… sem esforço…

– É verdade. Apesar disso, está tudo muito lindo – completou Martini, muito menos Brutus do que o esperado.

Aí enchi o copo da Ana com vinho e o do meu amigo também; além do meu, obviamente, pra brindarmos.

“Vamos brindar a indústria cultural, que promove um show de blues e jazz com o Zeca Baleiro como headliner”, ironizei. O vinho ajudou nas gargalhadas, que tomaram conta do momento.

Já era noite quando rolava o show do Baleiro, aí a Ana falou:

– Onde vamos agora?

Queríamos sair pra outro lugar, até porque as piadas sobre o Zeca ser ou não ser blues ou jazz já haviam se esgotado. A solução mais sensata foi a seguinte:

– Vamos de carro até o meu apartamento, deixamos o carro na garagem e chamamos um Uber – disse Brutus.

Topamos.

O “problema”, já no apartamento, é que minha companheira se confortou no meu colo e apagou. Como tinha mais vinho, os acordados decidiram manter as divagações por ali mesmo…

– O show do Joe Louis Walker foi sensacional… que show foda! Acho uma pena que tanto o blues quanto o jazz, assim como qualquer arte, hoje, não escape das desconstruções da nossa indústria enlatada. As organizações desses festivais sempre cagam no peidar com a eterna e implicante inserção da porra de algum nome mais popularesco. É a necessidade de colocar umas “músicas pra adestrar macaco”, como diria Marcelo Nova…

– É a indústria cultural, né? – completei. Meu amigo Brutus continuou:

– E é uma merda. Ela sorrateiramente deixa pequenas brechas para que o escravo escape da plantação de algodão. Mas são pequenas janelas que o próprio sistema sabe que não se tornarão caminhos da liberdade…

– Acho que é mais ou menos por aí mesmo. Nunca vai ser 100% blues ou jazz um festival como esse.

– Sou como o blues, nesse sentido, nada otimista.

– Por isso colocaram o Zeca. Pro pessoal cantar algo “brasileiro”…

– Mas e se fossem shows mais permanentes, ao invés de procurar alguém pra agradar, poderia revelar mais artistas! Tanto pro blues quanto pro jazz, por exemplo.

– Sim, isso é verdade – concordei e peguei mais vinho.

– Mas que é engraçado um festival financiado por um Banco num parque projetado por um comunista, isso é…

– É contraditório sim, Brutus, mas hoje o que não é? Veja o Blues Etílicos, um dos principais nomes do blues brasileiro, eles poderiam ser o headliner do festival, mas talvez a maior parte da “plateia” não os conheça.

Durante o show do Baleiro houve até uma tentativa de um grito generalizado de “Fora Temer”, infelizmente sem sucesso. O show continuou tranquilo e morno, sem ser blues e sem ser jazz.

– Hoje é assim, você não precisa ser blues ou ser jazz. Pra ser o que se é, é preciso que outro diga que é, mesmo que todos saibam que aquilo não é isso e isso não é aquilo. Entendeu?

– Não, Brutus.

– Ah… sei lá. Mas olha cara, nada contra o Zeca Baleiro.

– É, nada contra.

– Mas que o show foi fraco, isso foi…

– Sim, nem com tanto vinho na cabeça…

– Bem que na hora do show dele o Banco do Brasil poderia ter feito uma PLR surpresa pra república de Curitiba.

– Como assim?

– Uma participação popular de lucros, entende? – nesse momento ultrapassamos a barreira da sanidade. Mas achei engraçado e completei:

– hahahaha… uma redistribuição voluntária de impostos para o povo!

– hehehehe… mais ou menos isso. Sabe que seria mais uma ação afirmativa do sistema capitalista.

– Aé?

– Claro. Imagine você, num show de blues, o Banco do Brasil, representante do sistema e da agenda do mercado financeiro, resolve, de uma forma bizarra e espontânea, distribuir uma grana ao vivo pra nós, meros descendentes de escravos?

– É, mas no Brasil a trilha sonora teria que ser a capoeira.

– Verdade, meu amigo. Mas hoje o negócio é mais globalizado, então, como o blues também é uma música de liberdade, pode passar por trilha sonora da ocasião mencionada…

– hahaha… falou rebuscado agora, ein Brutus? Mas e o Banco do Brasil, como que fica nessa história?

– Boa pergunta.

– Pra mim, continua sendo representante da casa-grande.

– Pra mim também. Eles jogariam umas migalhas pra senzala, agradariam a galera com um pouco de dinheiro e as coisas continuariam como estão.

– Opa, mas a presença do Zeca não representa, de certa forma, exatamente uma maneira de deixar as coisas como estão? Nem blues e nem jazz?

– Será?

– Pode ser que sim.

– Viu, é preciso “ficar ligado” nas entrelinhas.

– É. E eu estou muito embriagado – disse Brutus com uma cara pálida.

– Eu também.

– Eu preciso vomitar.

– Eu não.

Aí meu amigo Brutus Martini foi ao banheiro tentar melhorar. Eu tinha certeza que iria piorar. Nesse intervalo em que conversávamos, a namorada dele havia chegado e ajudou-o.

Nesse tempo, também, após ruídos vindos do Brutus e provocados pelo excesso de suco de uva, a Ana acordou!

Ela me olhou com uma carinha de quem não estava mais com sono e disse:

– Vamos embora?

– Você está bem para dirigir? Eu não estou… – disse “consciente”.

– Sim, estou.

Eu concordei.

Quando saímos, Brutus já estava dormindo, sua namorada foi quem se despediu da gente. No outro dia, ele entrou em contato, pois disse que quando acordou foi fazer café para as visitas e elas (no caso, nós) não estavam mais lá.

E assim acabou mais um final de semana dessa vida que tanto nos exige, que tanto nos cobra e que tanto nos oferece. O blues e o jazz daquele dia me lembrou, com o clima lindo, “a liberdade”, nem que seja financiada por um banco.

 

Por Regis Luís Cardoso
LP – Crônicas musicais
A foto é oficial do evento
Terra Sem Males

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