LP Crônicas Musicais | O coveiro

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Capítulo Final: Feliz natal – O capitalismo é deus. Jesus é o dinheiro

Por Regis Luís Cardoso
Terra Sem Males

Talvez a história do Coveiro devesse ter mais capítulos, com publicações mais frequentes. Talvez a coluna ‘LP’ precisasse ter uma periodicidade mais linear.

Talvez.

Essa introdução ao final da história do Coveiro é o último texto de 2016. E ela vem em parceria com um triste momento histórico em que vivemos. Sabe quando bate ‘aquela deprê’ em relação a realidade? Que chega a causar inércia? Pois é…

Meio que quando lemos o que acontece no Brasil, fazemos aquela cara de ‘isso é inacreditável!’. E realmente é.

É inacreditável o que acontece na política, na polícia, na justiça, nos poderes. É inacreditável como uma massa de manobra ainda não acordou para o fim.

Meus amigos, pode não ser o fim de nossas vidas agora, nem o fim dessa coluna, mas lembre-se, caminhamos para novos tempos e esses são retrógrados. Portanto, caminhar pra trás pode ser considerado um triste fim de voltar ao começo.

Voltar à barbárie, escravidão, colonização.

Por isso, desejo que a reflexão reine. E dedico, de todo coração, esse dezembro e essa breve história, a todos os que botam fogo em Brasília e demais regiões, num combate incansável ao status quo e ao poder pelo poder.

Que venha 2017.

Como se Apocalipse Now ressurgisse. Ao mesmo Coração da Trevas, do nobre Conrad, fosse reescrito, agora numa estrada pra Morretes. Vamos ao último capítulo de “O Coveiro”.

Caso você não tenha lido as dois primeiros, segue os links:  cap. I / cap. II.

 

The End

 

This is the end

Beautiful friend

This is the end

My only friend, the end

Of our elaborate plans, the end

Of everything that stands, the end

No safety or surprise, the end

I’ll never look into your eyes again

Can you picture what will be

So limitless and free

Desperately in need of some stranger’s hand

In a desperate land ?

 

Lost in a Roman wilderness of pain

And all the children are insane

All the children are insane

Waiting for the summer rain, yeah

There’s danger on the edge of town

Ride the King’s highway, baby

Weird scenes inside the gold mine

Ride the highway west, baby

Ride the snake, ride the snake

To the lake, the ancient lake, baby

The snake is long, seven miles

Ride the snake…he’s old, and his skin is cold

The west is the best

The west is the best

Get here, and we’ll do the rest

The blue bus is callin’ us

The blue bus is callin’ us

Driver, where you taken’ us ?

 

The killer awoke before dawn, he put his boots on

He took a face from the ancient gallery

And he walked on down the hall

He went into the room where his sister lived, and…then he

Paid a visit to his brother, and then he

He walked on down the hall, and

And he came to a door…and he looked inside

“Father ?”, “yes son”, “I want to kill you”

“Mother I want to fuck you”

 

C’mon baby, take a chance with us

And meet me at the back of the blue bus

Doin’ a blue rock, On a blue bus

Doin’ a blue rock, C’mon, yeah

Kill, kill, kill, kill, kill, kill

 

This is the end, Beautiful friend

This is the end, My only friend, the end

It hurts to set you free

But you’ll never follow me

The end of laughter and soft lies

The end of nights we tried to die

This is the end

Existem várias formas de renascer. Todas em vida. Existem várias formas de morrer. Todas em vida.

Já no táxi, o Coveiro e o taxista vão em direção ao lugar escolhido:

– Por favor, eu tenho uma pequena propriedade em Morretes. Não se preocupe com o valor da corrida, apenas preciso chegar lá antes do natal. Será que você consegue?

– Mas é claro! O natal é amanhã. O espírito natalino está no ar! Chego lá loguinho loguinho.

“Com essa corrida vou ver umas querida na zona. Esse idiota vai precisar desembolsar muita grana. Ou eu mesmo jogo ele no rio Morretes. Babaca filha da puta!” –  pensava o taxista.

– Pois é, amanhã é natal. Algo em especial pra comemorar? – perguntou o Coveiro.

– Muita coisa (respondeu ironicamente). Comemorar a ascensão do Uber, por exemplo. Mas não posso reclamar, até que em 2016 ganhei uma boa grana. Teve eleição, né? Mas obviamente não ganhei igual um político. Consegui comprar uns presentinhos pra minha família. E também tenho umas reservas pra me presentear. Acho que é o espírito de Cristo.

– É mesmo? Pode ser…

“Cristo, aqui no meu lugar, abriria um buraco na barriga desse filha da puta. Jogaria ele na vala. É isso que eu vou fazer. Iniciarei a justiça divina na véspera do seu nascimento” – pensou o Coveiro.

Um pouco cansado, o Coveiro disse:

– Bom, vamos fazer o seguinte: recém saímos de Curitiba. Quando estivermos na entrada de Morretes você me avisa. Vou tirar uma soneca. Ok?

– Claro. Vá em frente.

“Então Cristo nasceu. Nessa época do ano as pessoas parecem tão generosas! Porém após uns dias a normalidade volta.

Por um instante esquecemos os problemas, pessoas fazem caridades e acreditam mudar o mundo no dezembro colorido.

Casais que se odeiam decretam paz momentânea. Famílias separadas se unem pra encher a barriga de comida. As lojas ficam cheias e os presentes são cada vez mais variados. As marcas cada dia mais entendem o consumidor. O consumidor é preparado o ano todo pra chegar nessa época do ano e tomar um rasteira do consumismo.

Mas isso tudo é uma farsa. Assim como todo o resto que é contado por aí. Na vida sofrida das pessoas, o sacrifício é refém de uma prática capitalista. Esse é o sistema. O capitalismo é deus. Jesus é o dinheiro.

Você vai comer tudo do bom e do melhor. Milhares não comerão nada. Você irá sorrir. Milhares chorarão. Você irá se embriagar. Milhares não terão o que beber. Você enfeitará sua casa com luzes. Milhares não têm luz no fim do túnel. Você usará a sua roupa nova. Milhares repetirão a mesma roupa de sempre. A vida cheia de badulaques é uma farsa. A fome de milhares é verdadeira”.

Num súbito momento, o Coveiro acordou de um ‘sonho’ apocalíptico ao som do Doors. A narrativa era sobre o natal!

– Chegamos? – perguntou ao taxista.

– Cara… você é um bicho estranho mesmo. Estamos bem na entrada de Morretes!

– É… sou um cara de “sorte”.

– Você é daqueles que não precisa de despertador pra acordar, não é?

– Isso mesmo.

– Então… qual é o caminho agora?

– Siga em frente. Vai chegar numa estrada de chão, é a terceira entrada. Beirando o rio. Mas eu te direciono.

– Ok.

Após alguns quilômetros, o taxista começa a se preocupar:

– Viu senhor, por aqui não tem mais nada –  disse o taxista já desconfiado.

– É claro que tem. Logo chega uma pequena estrada que beira o rio. Seguirá por ela e chegará na minha pequena propriedade.

– Tem certeza que sabe por onde está indo?

– Sei.

– Tudo bem. Está vendo o taxímetro não é? É isso que interessa pra mim.

– Eu sei o que interessa pra você.

– Ok. Vamos em frente.

Após mais alguns quilômetros, dessa vez é o Coveiro que volta a falar:

– Vire nessa rua.

– Mas não tem nada por aqui, onde você quer chegar com isso?

– Acho que errei! Por favor faça a volta.

No momento em que o taxista se preparou, com dificuldade, pra manobrar seu carro, o Coveiro puxou uma pequena faca e passou no pescoço do taxista.

Não foi uma morte sofrida. Pro justiceiro, a morte tinha que ser dessa forma, pra não prejudicar a carne. A terra não poderia receber um cadáver assustado. Então a morte deveria ser assim, suave, sem desespero.

Com o corpo ainda quente e o sangue jorrando, o Coveiro apenas deixou o carro seguir, em marcha ré, rumo ao rio.

Aquele homem que antes vingava seus antepassados (pequenos produtores de terras, camponeses, negros e pobres), parou na barranca do Rio Morretes e desfrutou da sua primeira vingança na cidade.

Ele não tem rosto. Ele não tem nome. É apenas um Coveiro treinado para matar. E a cada corpo que é mandado para seu cemitério ideal, há um processo de esquecimento. Dessa forma ele não se apegar ao passado e pode preparar, no presente, seu futuro.

“A sensação de liberdade! Será que foi isso que Cristo sentiu quando lutou contra a hipocrisia? Quando lutou contra o excesso e a corrupção dos que detinham o poder? Não sei. Só sei que Jesus renasceu em forma de coveiro”.

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