LP Crônicas Musicais || O Coveiro

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Capítulo I – Eis que inauguro meu cemitério ideal

por Regis Luis Cardoso

Você! Mais um você! Mais um de mim! Mais um de nós! Nós vamos embora. Eu os mando embora. Não há mais amigos pra compartilhar. Não há mais lágrimas. Só mais um você. Só mais um de vocês. Só mais um de nós!

Enxugo as lágrimas. O Neto foi o último. Enterro agora meu último amigo. Que praga é essa que só atinge os pobres? Sei que minha hora tá próxima. Sou remanescente. É questão de tempo pra outro assumir meu lugar. Algum pau mandado de merda. Logo vem outro pra cá e ele, primeiramente, vem pra me enterrar.

Estou cansado de enterrar só pobre. Só meus semelhantes. Estou cansado”.

O coveiro de uma pequena cidade interiorana resolveu mudar seu ritual.

Ele morava num lugar predominantemente agrícola. Cercado por grandes fazendas. Os antigos moradores perderam suas propriedades. Período marcado pela chegada de forasteiros com mais poder bélico, vamos assim dizer.

Com amparo de um sistema vigente, implantaram a “arte de puxar cerca”. E o sangue foi derramado. Os hipócritas no poder inventavam diversas justificativas pras mortes dos pobres. Todas falsas. Muitas famílias foram embora. Muitos inocentes morreram e ainda morrem.

Eu não espero mais um minuto que a consciência esfaqueie a alma desses malditos. Eu vou acabar com isso. Prefiro não ver mais essas pessoas sendo destruídas dessa forma. Aqui não há justiça. Aqui não há direitos. Há covardes. Há dinheiro. Há poder. Há tudo menos respeito. Ou você entra na dança ou você dança”.

Na sua cabeça, o coveiro não administra mais a situação.

O sentimento de vingança predomina e talvez seja isso que o mantenha vivo. Que o faça jogar o jogo.

Ele sabe também que sua vingança, se acontecer, precisa ser milimetricamente bem sucedida. Caso contrário, o subterrâneo é seu destino.

E em mais um dia de trabalho, lá está ele a abrir buracos na terra. Normalmente pra pequenos agricultores, pessoas que o coveiro conhecia desde criança.

Pessoas que o viram crescer, pessoas amigas. Ele cansou de enterrar amigo financeiramente fodido igual a ele. Porém, esse era seu ganha pão. Herdou a profissão…

Da sua família de origem só sobrou ele. Todos trabalhavam no campo, em pequenas propriedades. Foram mortos.

Sua história é uma mistura de sorte e tragédia. Quando nasceu, por complicação no parto, sua mãe morreu. Seu pai o rejeitou.

Então o coveiro da época o adotou. Era solitário, ajudou a fundar o município. Após alguns anos morreu e o jovem assumiu a função.

Hoje o coveiro lembra os ensinamentos daquele homem que o salvou. O agradece profundamente.

O coveiro que trabalha

Na minha cidade natal,

Um dia vai me enterrar.

Assim como já enterrou

Minha mãe, meu pai, meu avô,

Nenhuma falta me faz.

O coveiro, por favor,

Diz como se faz

Uma cova ideal.

Que eu também quero enterrar

O que ficou para traz

E depois dizer “nunca mais”.

*O Coveiro – música de Rogério Skylab está no seu álbum ‘Skylab V’.

Agora este coveiro, o mesmo que aceitou enterrar os próprios familiares, estava em dúvida se continuava na profissão que amava.

Ele decidiu então, diante de sua constante solidão, tornar-se um semeador. Sentiu ferver em suas veias o sentimento de libertar as almas que estão prejudicando o bem comum.

São somente as mesmas almas que vagam. As almas da justiça. As almas que se foram aqui e em vida pregaram o bem comum. Um mundo paralelo clama pela chegada de outras almas, as que precisam ser punidas pelo que fizeram quando eram ferramentas humanas. Agora eu preciso peregrinar e semear o cemitério ideal!”.

Num momento de inspiração, assumiu o compromisso consigo de alimentar a terra somente com a carne ‘dominantemente econômica’. Decidiu levar a sete palmos em direção ao núcleo terrestre os semelhantes aos que o mandavam enterrar pessoas de bem. Os que faziam a sociedade acreditar que as vítimas eram o problema.

Após planejar o que fazer, definiu sua estratégia como “método de punição kamikaze”…

Deitado entre covas vazias, ele olhava pro céu estrelado. Abriu os braços como se estivesse crucificado. Encheu as mãos e as fechou, apertando aquela terra vermelha entre os dedos.

Na noite em que o coveiro sumiu da cidade, morreram o delegado e sua mulher. Também o juiz e seu namorado. Policiais corruptos. Também o prefeito e alguns políticos. Ao todo foram dez corpos. Todos pegos de surpresa, pois viviam num estado tão grande de comodidade que nem viram a morte chegar.

Somente o padre da cidade o ajudou na fuga. Viu na ajuda ao justiceiro divino uma maneira de ser perdoado por tantas mentiras. “Trace seu caminhada para o céu meu filho!” – disse o padre ao coveiro.

O coveiro enterrou os corpos na mesma noite. Não teve dificuldades, pois antecipadamente havia deixado as covas prontas.

Ao desligar do gerador de energia da pequena cidade, caçou seus alvos. Conhecia cada curva das ruas, cada pedacinho de chão daquele pequeno lugar. Seja no sol, seja na escuridão. Ele conhecia tudo.

Durante anos vagou nas sombras sem que ninguém percebesse. Sabia que muitos dos seguranças e policiais da cidade eram nomeados por indicação. Não tinham competência pra proteger nem a si mesmo.

A caça durou da meia noite até o amanhecer. Quando terminou o serviço, deu tempo pra se lavar e pegar o primeiro ônibus que o tirava daquela terra.

No seu primeiro cemitério ideal, percebeu a leveza que aquela ação causou na sua alma. A partir daquele dia, seu destino estava traçado: por onde passasse plantaria a semente.

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