Mães e viúvas de vítimas de violência policial em Londrina relatam abusos

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O Conselho Permanente de Direitos Humanos do Paraná colheu os depoimentos e encaminhou as vítimas para o GAECO

Por Waleiska Fernandes, jornalista e conselheira do COPED, texto e foto

A promotora de vendas Meire de Moura exibe com lamento a carteira de trabalho do marido. Em agosto, Vanderlei Lemos foi assassinado por policiais de Londrina numa ação da Polícia Militar na cidade. “Meu marido era um trabalhador. Ouvi do delegado que meu marido ‘tava’ na hora errada, no lugar errado. Mas isso não é motivo pra matar alguém. Eu quero só que se faça justiça”, disse.

A angústia de Meire é a mesma de outras nove viúvas e mães de Londrina que estiveram na manhã desta terça-feira (10/11) relatando  ao Conselho Permanente de Direitos Humanos do Paraná (Coped), na Secretaria de Justiça, em Curitiba,  casos de abuso policial em Londrina. Elas pediram auxílio para a conclusão das investigações das mortes de seus maridos e filhos. Até o momento, ninguém foi responsabilizado judicialmente por nenhuma das mortes relatas no encontro. Segundo elas, uma das maiores dificuldades está na coleta de depoimento de testemunhas, já que em muitos casos a polícia faz rondas diárias próximo aos locais dos crimes, deixando as possíveis testemunhas amedrontadas.

As mulheres presentes à audiência relataram casos ocorridos em 2019, 2018 e 2013. O mais recente aconteceu em 01/11 deste ano, quando Valber Messias, de 26 anos, foi assassinado por policiais militares enquanto visitava um amigo no Conjunto Aquiles Stenghel. A polícia alegou que estava atrás do amigo de Valber. “Tenho um neto que todo dia pede pelo pai. Era ele que levava e buscava todo dia a criança na escola”, relatou chorando Sônia Messias, mãe da vítima.  

Repetição de padrão

Chamou atenção dos conselheiros que em nove dos dez casos narrados as vítimas eram egressas do sistema prisional ou socioeducativo. Homens e adolescentes que um dia entraram em conflito com a lei, foram condenados e já tinham pagado suas contas com a justiça.

A enfermeira Jéssica Carvalho mostrou a carteira de trabalho do namorado, com quem tinha acabado de alugar um apartamento para morarem juntos. “Não foi dada baixa nela até hoje”. Washington Ricardo tinha 29 anos e foi assassinado em junho deste ano. “O sonho da minha filha, que via nele um pai, era ser policial. Hoje, ela tem medo da PM”, contou.

Segundo o Movimento Nacional de Direitos Humanos de Londrina, somente neste ano 35 pessoas já morreram na cidade durante supostos confrontos com policiais.  “Se alguém faz algo errado, existem leis pra isso e quem errou tem que ir pra cadeia e não, pra o cemitério. É o que diz a lei”, declarou Tiara Ferraz, mãe de Igor Ferraz, de 18 anos, assassinado pela polícia em julho do ano passado, 23 dias após ter conquistado a  liberdade.

Segundo o deputado estadual Tadeu Veneri (PT), que representa a Assembleia Legislativa no Coped, a Comissão de Direitos Humanos da ALEP vem acompanhando casos similares em Londrina e em outras cidades do Paraná. “A repetição de padrão pode ser indicativo da motivação desses crimes e isso precisa ser investigado”, afirmou o parlamentar.

COPED aciona o GAECO

A pedido do Coped, durante a tarde, as mães e viúvas estiveram reunidas com o promotor Leonir Batisti, coordenador geral do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público. O objetivo foi pedir auxílio do GAECO na investigação das mortes.

O Conselho Permanente de Direitos Humanos do Paraná também vai levar o caso à Secretaria de Segurança Pública do Paraná (SESP), pedindo providências quanto às investigações.

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