|Mate, Café e Letras| Crônica da região de La Garrucha (México)

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Por Pedro Carrano
Terra Sem Males

Eu viajava na caminhonete do lado de um casal que desceria no mesmo trecho da estrada que eu. Os dois sentavam-se cada qual de um lado da caçamba e, mesmo aos trancos e sacolejos, em meio à poeira especialmente grossa, eles não paravam de trocar olhares nas duras horas de caminho.

Eram olhares com um quê de cúmplices, mas também infantis e, por que não, ousados para esses caminhos onde a reserva e o pudor são a regra. Difícil compor a cena, até porque eu os chamei de infantis, mas devo informar que cada um trazia dois filhos no colo, e a menina, ou melhor, a mãe, não parecia ter mais de 16 anos.

Depois descobri que na comunidade de Carmen o amor é lúdico, um jogo entre dois. Quando os homens estão apaixonados eles vão até a nascente do rio, acima de onde a sua amada lava a roupa e se banha. Daí eles lançam correnteza abaixo uma caixa com um caracol dentro, como que avisando: “Fique atenta, porque há alguém no povoado apaixonado por você”. Cabe à mulher descobrir quem é o comandante da pequena nau e, depois, fazer o mesmo, como resposta.

Me explicaram que o costume não é algo rígido e é possível declarar-se a alguém de outros jeitos. Esse seria apenas um dos muitos jogos de amor em Carmen. Tanto melhor, porque, na dureza de qualquer caminho, poucas vezes a correnteza, o vento e o acaso capricharam tanto a ponto de levar a caixa e o caracol direto ao seu destino.

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