MEA-CULPA DA MÍDIA TRADICIONAL

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Por Marcio Kieller
Secretário Geral da CUT/PR e mestre em Sociologia Política pela UFPR    

Não deixar que a opinião pública tivesse livre arbítrio, mas pelo contrário construir uma opinião publica a cerca da conjuntura política nacional era a tarefa dos grandes veículos de comunicação televisivos, radiofônicos e escritos de nosso país. Capitaneados pela rede Globo da família Marinho, ou como a chama o humorista Marcelo Adnet no seu programa semanal Tevê na tevê: A Vênus prateada e mais quatro ou cinco grandes famílias que controlam tudo que se produz na mídia escrita, falada e televisiva no Brasil.

E esse objetivo foi cumprido à risca e com todas as características que uma imprensa independente não deve ter. Pois os leitores e telespectadores mais atentos ao mundo da política puderam observar nesses quase um ano e meio após as eleições nacionais que reelegeram a Presidenta Dilma Rousseff do PT, que sumiram as opiniões contrárias ou falas de defesa do governo e contra golpe institucional que estava sendo arquitetado no Brasil.

Como telespectador assíduo de um programa semanal de debates da tevê aberta brasileira, que passa aos domingos na rede Band tevê, chamado Canal Livre, que tem como condutores os jornalistas Boris Casoy e por vezes era conduzido pelos jornalistas Fábio Panuzzo e Ricardo Boechat, que em tempos não golpistas, porque impeachment sem crime é golpe. Em tempos que antecediam as eleições mesmo que com poucas participações, mas eventualmente eram chamados a esse programa ministros e técnicos do governo como também eram convidados intelectuais e pensadores de esquerda, sempre colocados com intelectuais e pensadores da oposição e dos partidos mais conservadores para debaterem temas na maioria das vezes ligados a política e a conjuntura nacional.

Mas com a clara reorientação política das elites de que era necessário tirar a presidenta Dilma a qualquer custo para evitar que a Lava Jato fosse além do que deveria ir, ou seja, de só punir os dirigentes do partido dos trabalhadores. Começamos a observar que depois das eleições presidenciais de 2014, isso mudou. Sumiram os contraditórios desse programa e da mídia convencional. Aprofundou se a ofensiva geral do ponto de vista da desqualificação política e ideológica do governo, aliada a uma orientação do empresariado de tirar o pé da produção para a profundar à crise. Demonstrando que esses veículos de canal aberto mudaram suas linhas editoriais e apontaram a metralhadora giratória no intento de desmoralizar o governo perante a opinião publica.

E isso era nítido nos dias das manifestações com takes ao vivo desde as primeiras horas do dia, como sendo um incentivo para que todos fossem para as ruas. As abordagens usadas nas reportagens e nas interrupções que os âncoras dos programas faziam na grade de programas, como por ex. os programas Esporte Espetacular, The Voice Kids entre outros era de incentivar a participação nas manifestações. Chegando ao absurdo de a rede Globo de televisão ser a interlocutora indireta da organização das manifestações pró-impeachment se encarregado da construção do discurso golpista fantasiado sob o manto do combate à corrupção e ao projeto de “poder infinito” que alegavam tinha o partido dos trabalhadores a intenção de implementar no Brasil.

E a turbulência social causada pela mídia golpista foi quem fez os milhões de cidadãos brasileiros irem às ruas, pois eram bombardeados diuturnamente com a pressão para a participação nos comícios de rua. Que mostravam imagens das manifestações dizendo que estavam chegando gente, que muitas pessoas ainda estavam para chegar. Isso sem falar das chamadas subliminares durante a semana nos jornais da emissora que o funcionaria o impeachment se as pessoas atendem os chamados das manifestações convocadas pelo Movimento Brasil Livre.

Em contrapartida quando se tratava de manifestações de apoio ao governo e contra o golpe institucional organizada pelos movimentos sociais, pelos movimentos sindical e popular, nenhum espaço importante era dado. Pois nas manifestações que a mídia tradicional cobriu, não estavam os milhões de incluídos dizendo que não ter atraso nos seus programas sociais. Não vimos ir às ruas a juventude das periferias que tem acesso ao lazer e ao esporte. Não vimos ir às ruas os beneficiários das políticas de gênero que precisam de sua autoafirmação cotidiana, pois a ainda é gritante percentual de mulheres e crianças que sofrem com a violência doméstica. Não vimos ir às ruas as juventudes que estão nos programas sociais de inclusão nas universidades, não vimos ir às ruas as trabalhadoras e trabalhadores assalariados e nem mesmos desempregados protestando por causa do emprego.

Conseguido o seu intento depois de mais de um ano e alguns meses a fio nesse processo de desqualificação política e econômica e até pessoal do governo Dilma e de seus apoiadores. Com o estrago feito o jogo de alienação política, patrocinado pelos editoriais dos grandes veículos de comunicação levaram a instalação do processo de impeachment/golpe autorizado pela câmara. Dias depois do processo de Impeachment ser admitido na câmara dos deputados e a denuncia ser encaminhada para o senado. Era a hora de a mídia tradicional reconquistar seu espaço e começamos a ver os movimentos social e sindical e suas lideranças ganharem algum espaço na mídia, ou seja, um claro indício de que se pretende fazer um mea-culpa, fornecendo certo espaço de tempo nos noticiários da para os movimentos de esquerda e os movimentos sociais. O que torna ainda mais grave a situação, por que não assumem a postura antiética que tiveram durante todo esse tempo. Pois em nenhum momento poderiam influenciar na opinião publica, pois essas emissoras todas são uma concessão de serviço estatal, que tem a missão de informar, não formar conforme sua ideologia as cidadãs e cidadãos brasileiros.

Esse papel que a mídia oligopolista do Brasil tem tido é extremamente prejudicial para a consolidação da democracia em nosso país. Pois nos passa a impressão que a economia pode sobrepor a política e a representatividade do povo que teve nesse episódio da aceitação do pedido de impeachment seu direito sagrado ao voto dado por mais de 54 milhões de pessoa a presidenta Dilma, Revogado por uma decisão unilateral da câmara dos Deputados. Motivado pela vingança e por perseguição do Presidente da câmara dos deputados Eduardo Cunha que teve seu processo de cassação admitido pelo conselho de ética da casa, com apoio dos deputados petistas.

E mais uma vez, pois não é primeira vez que a Rede Globo apoia um golpe no Brasil, depois de 51 anos novamente tomou o lado dos grandes grupos econômicos e das elites políticas, empresarias e do latifúndio contra povo. Pois essa interrupção na democracia trará muitos prejuízos para a classe trabalhadora e para os menos favorecidos, por que sem dúvida nenhuma a tentativa de retirada da presidenta Dilma Rousseff se constitui num ato de classe para desconstituir direitos já históricos das trabalhadoras e dos trabalhadores. Por esses motivos de desmonte do Estado e dos direitos é que não podemos admitir que a Rede Globo, o Big Brother (termo do livro 1984 – de George Orwells) diga para a sociedade toda o que é certo ou não. E por isso que precisamos lutar pela democratização da mídia, para a construção de um país mais igual e solidário.

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