Médicos populares denunciam ausência do Estado em Mariana(MG)

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Pessoas que tiveram contato com rejeitos não têm acompanhamento adequado

Por Joka Madruga e Paula Zarth Padilha

Em entrevista exclusiva ao Terra Sem Males, Miriam de Andrade Brandão, Joelson Santos Silva e Leandro Araújo da Costa, três profissionais da Rede Nacional de Médicas e Médicos Populares, denunciaram que o não aparecimento do Estado no atendimento preventivo à população que entrou em contato com os rejeitos pode causar danos a longo prazo.

“O poder público tem sido muito negligente nas comunidades, mas especialmente em Barra Longa, onde a população está no meio de um canteiro de obras. O tempo todo em contato com a forma líquida dos rejeitos, que é a ‘lama’, ou com o pó, na passagem de caminhões, maquinários. Tem afetações de saúde das mais diversas como sonoras, visuais, doenças infecciosas”, relata Miriam.

Ela afirma que os profissionais de saúde que atuam junto à população já estavam lá antes da tragédia inesperada e que, um mês depois, ninguém mais foi contratado, ninguém foi treinado para a situação específica. “Se não houver pressão popular, para que as coisas voltem, se estabilizem, não há preocupação em contratar novos profissionais, em fazer exames rotineiros, não houve melhoria nesse sentido”, fala a médica sobre o descaso do poder público com a saúde.

Os três médicos são unanimes em afirmar que o acompanhamento de saúde da população não é adequado. “A vigilância epidemiológica não é eficiente a ponto de acompanhar essas pessoas que devem ser acompanhadas inclusive com hemogramas e ferro sérico (quantidade de ferro no sangue) pelo menos uma vez por semana por um bom tempo”, diz Leandro.

Além da afetação psicológica, outras doenças observadas no primeiro mês de contato com os rejeitos de mineração são dermatológicas, afetações oculares, como conjuntivite, doenças respiratórias e dermatoses. “O acompanhamento preventivo é fundamental nesse momento para as pessoas que tiveram contato direto com os rejeitos químicos”, afirma Leandro.

Joelson denuncia outro aspecto grave, a falta de análise bioquímica do rejeito, por um laboratório que não tenha influência da Samarco. “A gente precisa saber o que realmente tem nessa lama, como ela prejudica a saúde, para a partir daí cuidar da saúde da população. São elementos que terão consequências daqui 15, 20 anos. Outras populações podem ser atingidas. O país precisa declarar como prioridade de saúde essa catástrofe ambiental”.

Fauna e flora destruídas afetam população

“É importante lembrar que esses rejeitos químicos tem praticamente destruído a vida da fauna e flora existente na região. Deve-se investigar as consequências disso para a saúde humana. Não é somente o agora, é o que vem depois também”, alerta Leandro.

Para Miriam, o desequilíbrio ambiental já é sentido pelos atingidos. “A população tem notado que aumentou as ocorrências de mosquitos. E a gente sabe porque vem isso, com todo esse desequilíbrio tem tendência a aumentar mosquitos, ratos, roedores, baratas, todos esses animais que transmitem enfermidades”.

Empoderamento das comunidades

A Rede Nacional de Médicas e Médicos Populares está trabalhando em conjunto com o Movimento dos Atingidos por Barragens nas comunidades levando informações para que todos conheçam a situação de saúde dentro dessas comunidades. “A gente a ineficiência e o não aparecimento do Estado que é a parte competente, com a vigilância sanitária. A gente tem percebido que não tem aparecido esses profissionais. A comunidade tem aparecido, a gente fala dos problemas de saúde e como cuidar em comunidade. O que está adoecendo o povo é a mineração, o capitalismo e o melhor remédio para essa população é que se organize para lutar pelos seus direitos. Organização popular e comunitária é nesse momento a melhor forma de cuidar da saúde da população”, sintetiza Joelson.

Desde que chegaram, os médicos populares visitaram tanto comunidades rurais, nos distritos, como no meio urbano, nas populações afetadas, tanto em Mariana, nas pousadas, hotéis e casas, quanto em outros municípios, como Barra Longa. “Essa população necessita se empoderar dessas condições de saúde para que possam lutar pelos seus direitos que muitas vezes não conhecem. A rede de médicos populares é nesse sentido. A gente trata de dar conhecimento a partir de nossas técnicas, informar a população dos seus direitos e do que podem cobrar do poder público”, explica Miriam.

Rede Nacional de Médicas e Médicos Populares

A rede foi criada a partir da necessidade dos movimentos populares e sociais em organizar os médicos em uma frente nacional, em luta pela defesa do SUS e da saúde pública e também denunciando todas as formas que sejam contrárias à saúde do povo brasileiro. Ela é organizada em vários estados, fundamentalmente com médicos e estudantes de medicina comprometidos com a plataforma política de ajudar no fortalecimento da saúde pública.

“A gente está presente na região de Mariana porque um dos princípios da rede é a solidariedade. Foi um acontecimento que não foi acidente mas foi inesperado. Estamos denunciando o que o capital e a mineração trazem para a saúde da população”, finaliza Leandro.

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