Morte na estrada

Compartilhe esta notícia.

Foto: Alexandre Belem

Nos últimos dias a família do músico Cristiano Araújo entrou com um processo por danos morais contra o jornalista Zeca Camargo. Isso após a análise do jornalista sobre a comoção do público e da mídia em relação à morte do cantor sertanejo.

É verdade que a estrada da vida é um mistério e que nunca iremos saber quem de nós irá morrer primeiro. E a questão aqui não é necessariamente o músico.

Quando o acidente de carro levou o jovem Cristiano Araújo, logo me lembrei de Chico Science, que foi vítima da mesma tragédia.

E a morte traz nostalgia.

Veja como são as coisas, no último dia 17 de julho o poeta e músico curitibano Francisco Soares Neto morreu durante uma apresentação no TUC (Teatro Universitário de Curitiba). Ao empunhar seu violão, ele sofreu um mal súbito. Foi assim também que perdemos Mark Sandman, líder do Morphine, durante um show na Itália, em 1999. Ambos morreram em atividade, literalmente.

São similaridades mórbidas que fazem o atual nos levar ao passado.

Por isso a estrada da morte que Cristiano Araújo acabou de entrar me levou a andar “por entre os becos, andando em coletivos”, no sentido anti-horário; até chegar ao fatídico dia 2 de fevereiro de 1997.

Nesta data, aos 30 anos, Chico Science morreu.

Não cabe aqui comparar artistas. A semelhança, neste caso, está na morte. Assim como a do Gonzaguinha, que também morreu de acidente de carro em Pato Branco, no Paraná; e tantos outros músicos que se foram da mesma forma.

O motivo que eu trouxe Chico Science de volta está ligado ao legado. De fato, cada um tem seu herói, suas referências e suas preferências. E não existe regra para se admirar alguém. O que posso dizer é que a morte de um me levou ao resgate do outro. Nessa última semana “Da Lama ao Caos” e “Afrociberdelia” não saíram da minha vitrola!

E ao ouvir os álbuns, uma dúvida cruzou meu caminho; essa em relação à nova geração: será que os álbuns do músico sertanejo serão relevantes no futuro?

O fato é que a repercussão da grande mídia precisa ser justificada de alguma forma; espero que no futuro em forma de arte. Caso contrário, o retrato de tudo que vimos relativo ao mega velório transmitido em rede nacional não se sustentará.  

E volto à questão artística.

Na música existe a cena. E criar a tal da cena é uma revolução. É complexo e raro. O mais difícil ainda é fazer com que um nicho de amigos consiga extrapolar o limite do underground e ganhar vida própria.

Nesse sentido, seria Chico Science o último grande revolucionário da musica brasileira?

Quando se pensa em mudança no cenário do entretenimento, nada se compara ao que o Mangue Beat fez na década de 1990. O movimento encabeçado por Chico Science e Nação Zumbi e Mundo Livro S/A, mudou o foco dos holofotes, antes voltados preferencialmente para Brasília e região sudeste e sul.

O Mangue Beat colocou o nordeste no mapa mundial. Deu ao maracatu uma popularidade jamais vista anteriormente. Culpa do Chico.

Foi aquele lance: da periferia para o mundo.

Portanto, foi em Recife o último grito heroico do que se pode chamar de revolução musical no Brasil. A mistura matadora de maracatu, rap, rock e outros ritmos regionais, deu a Chico Science e Nação Zumbi, Mundo Livre S/A, Jorge Cabeleira e o Dia em que Seremos Todos Inúteis, Devotos do Ódio, Sheik Tosado e muitos outros, cada um com a sua peculiaridade, o título de revolucionários.  

Dizem que o Mangue Beat foi como o Grunge de Seattle (EUA): diversas bandas com sonoridades diferentes se ajudando; uma cena totalmente independente e que ganhou relevância dentro de um cenário pouco provável.

“Modernizar o passado
É uma evolução musical
Cadê as notas que estavam aqui?
Não preciso delas!
Basta deixar tudo soando bem aos ouvidos
O medo dá origem ao mal
O homem coletivo sente a necessidade de lutar
O orgulho, a arrogância, a glória
Enche a imaginação de domínio
São demônios os que destroem o poder
Bravio da humanidade
Viva Zapata!
Viva Sandino!
Viva Zumbi
Antônio conselheiro!
Todos os panteras negras
Lampião sua imagem e semelhança
Eu tenho certeza eles também cantaram um dia” – Monólogo ao Pé do Ouvido (Chico Science).

E de uma reunião entre amigos, foi criado um release de divulgação de uma festa dos mangueboys e das manguegirls; esse que virou o manifesto escrito em 1992 por Fred Zero Quatro – líder do Mundo Livre S/A.

A referência é esta… um nicho que extrapolou barreiras. Levou cultura. Levou ideias. E elas permanecem até hoje. Nação Zumbi e Mundo Livre S/A continuam relevantes. O festival Abril ProRock segue… assim como outras bandas do movimento.

Minha dúvida hoje é se os novos artistas deixarão algum legado revolucionário ou se a comoção é pra celebrar a perda de tudo em relação ao nada; o vice versa também é verdadeiro.

Eis a questão: o que a música atual, inserida nessa indústria de massa e virtual, deixará de relevante para uma futura geração?

Segue manifesto de 1992:

“Caranguejos com cérebro”

 

Mangue, o conceito.

Estuário. Parte terminal de rio ou lagoa. Porção de rio com água salobra. Em suas margens se encontram os manguezais, comunidades de plantas tropicais ou subtropicais inundadas pelos movimentos das marés. Pela troca de matéria orgânica entre a água doce e a água salgada, os mangues estão entre os ecossistemas mais produtivos do mundo. 

 Estima-se que duas mil espécies de microorganismos e animais vertebrados e invertebrados estejam associados à vegetação do mangue. Os estuários fornecem áreas de desova e criação para dois terços da produção anual de pescados do mundo inteiro. Pelo menos oitenta espécies comercialmente importantes dependem do alagadiço costeiro. 

Não é por acaso que os mangues são considerados um elo básico da cadeia alimentar marinha. Apesar das muriçocas, mosquitos e mutucas, inimigos das donas-de-casa, para os cientistas são tidos como símbolos de fertilidade, diversidade e riqueza.

Manguetown, a cidade

A planície costeira onde a cidade do Recife foi fundada é cortada por seis rios. Após a expulsão dos holandeses, no século XVII, a (ex)cidade *maurícia* passou desordenadamente às custas do aterramento indiscriminado e da destruição de seus manguezais.

Em contrapartida, o desvairio irresistível de uma cínica noção de *progresso*, que elevou a cidade ao posto de *metrópole* do Nordeste, não tardou a revelar sua fragilidade.

Bastaram pequenas mudanças nos ventos da história, para que os primeiros sinais de esclerose econômica se manifestassem, no início dos anos setenta. Nos últimos trinta anos, a síndrome da estagnação, aliada a permanência do mito da *metrópole* só tem levado ao agravamento acelerado do quadro de miséria e caos urbano.

Mangue, a cena

Emergência! Um choque rápido ou o Recife morre de infarto! Não é preciso ser médico para saber que a maneira mais simples de parar o coração de um sujeito é obstruindo as suas veias. O modo mais rápido, também, de infartar e esvaziar a alma de uma cidade como o Recife é matar os seus rios e aterrar os seus estuários. O que fazer para não afundar na depressão crônica que paralisa os cidadãos? Como devolver o ânimo, deslobotomizar e recarregar as baterias da cidade? Simples! Basta injetar um pouco de energia na lama e estimular o que ainda resta de fertilidade nas veias do Recife.

Em meados de 91, começou a ser gerado e articulado em vários pontos da cidade um núcleo de pesquisa e produção de ideias pop. O objetivo era engendrar um *circuito energético*, capaz de conectar as boas vibrações dos mangues com a rede mundial de circulação de conceitos pop. Imagem símbolo: uma antena parabólica enfiada na lama.

Hoje, Os mangueboys e manguegirls são indivíduos interessados em hip-hop, colapso da modernidade, Caos, ataques de predadores marítimos (principalmente tubarões), moda, Jackson do Pandeiro, Josué de Castro, rádio, sexo não-virtual, sabotagem, música de rua, conflitos étnicos, midiotia, Malcom Maclaren, Os Simpsons e todos os avanços da química aplicados no terreno da alteração e expansão da consciência.

Bastaram poucos anos para os produtos da fábrica mangue invadirem o Recife e começarem a se espalhar pelos quatro cantos do mundo. A descarga inicial de energia gerou uma cena musical com mais de cem bandas. No rastro dela, surgiram programas de rádio, desfiles de moda, vídeo clipes, filmes e muito mais. Pouco a pouco, as artérias vão sendo desbloqueadas e o sangue volta a circular pelas veias da Manguetown. 

 

Por Regis Luís Cardoso
LP Crônicas Musicais  

 

 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *