Morte, política e Tom Morello

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Brutus Martini é o nome de um amigo que tenho. 

Nunca vi um nome definir tanto a personalidade de uma pessoa. Quando está bruto, Brutus pode ser o mais amargo conhaque, mas quando está suave, é de uma doçura embriagante; igual um Martini.

Já perguntei se ele tinha algum parentesco com a marca da bebida, mas quase levei um soco no meio da cara. Azar! Fui questioná-lo num de seus dias mais “Brutus”.

De qualquer forma, conversei com meu amigo nesse último domingo. Marcamos de tomar uma cerveja e comer uma comida mexicana. Quando liguei convidando, disse que, na semana passada, lembrei bastante dele ao ver Tom Morello, guitarrista do Rage Against The Machine, Audioslave e Prophets of Rage, mandar um “Fora Temer” durante um dos shows dessa última banda que citei.

Brutus sempre foi fã do Tom. Perguntei se ele tinha ido ver o Prophets tocar no Brasil, dias atrás, mas ele negou. “Estou sem grana, cara”. Eu também, respondi.

No show, Tom aproveitou a oportunidade pra se posicionar politicamente contra o atual governo golpista brasileiro. Aliás, o Rage Against, banda mais “importante” da carreira do músico, na primeira vez que esteve no Brasil, prestou solidariedade ao Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST); assim como sempre foi solidário a causa Zapatista, no México.

Mas é como eu disse ontem ao Brutus, “o Prophets of Rage é um supergrupo que simplesmente une o poder sonoro e a força política mais brutal da história da música”. Obviamente concordamos e fizemos do nosso domingão um dia de reflexão.

Também percebi que o Brutus estava mais Martini do que nunca. Esperava o contrário, mas ele tinha seus motivos; todos ligados à morte. Enquanto bebíamos e falávamos da merda em que se encontra a política nacional, intercalamos nosso papo com as últimas notícias tristes da música; pelo menos pra nós.

Ele soltou essa: “são os Batista da Friboi, é Temer, é Aécio… mas quem vai embora é o Chris Cornell, é o Kid Vinil… porra cara, que merda”. Eu concordo. Até porque, mesmo que eu não deseje a morte de ninguém, pra mim, um grande artista faz mais falta ao mundo que um político.

Brutus confessou-me sua admiração por Kid Vinil, o considera um dos caras mais importantes do rock nacional. “Sem dúvidas ele foi um militante da arte. Porra, o cara ‘apresentou’ Ramones, Sex Pistols, The Clash e toda a cena punk, tanto inglesa quanto americana, para uma garotada que depois montou uma banda, isso é muito foda!”.

A verdade é que o cara “contrabandeava” música no início dos anos 80. Virou uma enciclopédia ambulante e uma espécie de guru musical do rock brasileiro. Fundou a banda Verminose e depois a Magazine. Pra quem não lembra, e muita gente não lembra, Kid Vinil cantou as famosas “Sou Boy” e “Tic Tic Nervoso”. Infelizmente, no dia 19 de maio, teve uma parada cardíaca, aos 62 anos.

Já com Chris Cornell, uma das vozes mais importantes do grunge, a coisa foi um pouco mais traumática. Ele decidiu seu destino de forma repentina e trágica – um suicídio, no dia 18 de maio. Ainda não há explicações concretas para o que de fato aconteceu, jamais haverá, o fato é que o encontraram enforcado no seu quarto de hotel enquanto viajava em turnê com o Soundgarden.

“Pois é meu amigo, esses são dias difíceis. A realidade não é para amadores. Se você me pedisse uma trilha sonora pra tocar enquanto o cotidiano segue, confesso que essa música não seria das mais alegres. Também não sei se seria algo bruto ou algo suave”, e tomamos a saideira.

No fim, nos perguntamos: o que resta, então?

A arte. Antes de tudo! – concluímos.

Por isso, antecedendo a despedida, Martini pegou seu celular e leu pra mim o poema que Tom Morello fez pra Chris Cornell, seu ex-companheiro de Audioslave, que poderia ser uma homenagem para qualquer amigo ou amiga, após uma partida repentina:

Você é um príncipe, você é uma armadilha, você é uma sombra
Você é crepúsculo e o brilho de uma estrela e escuridão
Você é sábio, você é uma ferida compartilhada, você é camuflado
Você é uma coluna de fumaça, você é um coração de platina
Você é uma fogueira, você está enjaulado, você está livre
Sua visão perfura, você não vê
Você é pedaços espalhados na encosta
Você tem braços abertos, você está armado, você é verdadeiro
Você é um revelador de visões, você é o passageiro, você é uma cicatriz que nunca some
Você é crepúsculo e o brilho de uma estrela e escuridão
Você é o segredo velado, você é o segredo revelado, você não está mais cercado
Você não está lá, agora está sempre aqui
Você é um belo noivo, um pai adorável, uma escada assombrada
Você é o barulho do sino, as montanhas ecoam sua canção
Talvez ninguém tenha te conhecido
Você é crepúsculo e o brilho de uma estrela e escuridão
Tom Morello.

Cheguei em casa, a primeira coisa que fiz foi procurar especificamente um vinil; e lembrei do Kid. Coloquei-o na vitrola, era “Superunknown”, do Soundgarden, e lembrei do Chris.

Por Regis Luís Cardoso
LP – Crônicas Musicais, Terra Sem Males

Foto: Reinaldo Canato

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