MST colhe 4 mil quilos de feijão orgânico para marmitas solidárias e doações

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Mutirão de colheita contou com participação de cerca de 100 pessoas em lavoura comunitária. O alimento será doado para três cozinhas comunitárias e para famílias em situação de vulnerabilidade de Curitiba e Região.

Foto: Giorgia Prates

O cenário de crise econômica e o aumento da fome têm feito um dos alimentos mais populares e nutritivos no prato dos brasileiros faltar em muitos lares. Em 2020, o feijão teve aumento médio de 45,39% na região metropolitana de Curitiba, de acordo com pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgada em dezembro. As vendas do grão caíram cerca de 35%. A estiagem e a falta de políticas públicas do governo Bolsonaro em apoio à produção de alimentos estão entre os principais fatores para o alimento custar de 6 e 9 reais nas gôndolas dos supermercados.

Como parte das ações de solidariedade com quem enfrenta a insegurança alimentar diariamente, cerca de 100 trabalhadores do campo e da cidade se uniram em um mutirão para colher 4.200 quilos de feijão orgânico, neste domingo (10), no assentamento Contestado, na Lapa (PR). A ação é organizada pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) da região Sul do Paraná e pelo coletivo Marmitas da Terra – formado por mais de 120 voluntários de Curitiba e região.

A forma da produção e a destinação do alimento transformou o que poderia ter sido uma simples colheita em um dia para renovar as esperanças. Localizada em uma área cedida por famílias camponesas da comunidade, a lavoura foi plantada e cuidada a várias mãos, sem uso de agrotóxicos e a partir de mutirões com pessoas voluntárias vindas da cidade e moradores locais. O alimento colhido será partilhado com famílias em situação de vulnerabilidade e com três cozinhas comunitárias da capital.

“Só nos resta agradecer a esse coletivo por somar com a gente nestes 90 dias de trabalho, desde o plantio do feijão até o dia da colheita. Pra nós, não é simplesmente uma colheita, tem um significado muito maior, porque esse alimento é para a partilha”, garantiu Liana Franco, produtora agroecológica do assentamento Contestado e da coordenação estadual do MST, ao agradecer o grupo de pessoas voluntárias deste domingo.

“Sem emprego  e sem moradia, a gente sabe que fica muito difícil de viver”, reforçou, ao se referir a situação em que vive parcela da população. A estimativa é de que a pobreza extrema (pessoas que vivem com US$ 1,90 por dia) deve chegar a 10% e 15% da população brasileira (27,4 milhões de pessoas) neste mês de janeiro, de acordo com a Fundação Getúlio Vargas.

Mutirão de solidariedade

O trabalho começou bem cedo, logo que o sol se levantou, e seguiu até o anoitecer. Camponeses acampados, assentados, estudantes, professores, advogadas, jornalistas, servidores públicos. Pessoas com diferentes idades e experiências no trabalho da roça se ajudaram nas tarefas de arrancar os pés de feijão, bater, carregar as sacas e espalhar no local para a secagem.

Marcos Antonio Pereira, integrante da coordenação do coletivo Marmitas da Terra e do MST do Paraná, avalia que a colheita ganhou sentido ainda mais forte pela diversidade de pessoas unidas na ação. “É simbólico no sentido das pessoas entenderem todo o ciclo da lavoura, acompanhar o plantio, o manejo, e agora a colheita sabendo que ela vai ter uma destinação como parte das ações de solidariedade do MST aqui no Paraná”.

Para parte do grupo do mutirão, a lida na terra é parte da luta pela Reforma Agrária e por alimentos saudáveis. Participaram integrantes dos acampamentos Maria Rosa do Contestado e Padre Roque Zimmermann, de Castro; do acampamento Emiliano Zapata, de Ponta Grossa; do acampamento Reduto de Caraguatá, de Paula Freitas; e do próprio assentamento Contestado.

De Curitiba e região metropolitana vieram pessoas voluntárias da ação Marmitas da Terra, que já haviam trabalhado em mutirões para cuidar da lavoura de aproximadamente 2 alqueires. Entre o grupo de voluntários urbanos, boa parte nasceu e cresceu na cidade, tem pouca experiência na lida com a terra, mas muita disposição para o trabalho e vontade de ajudar a mudar a situação de fome enfrentada por milhões de brasileiros.

É o caso de Bárbara Górski Estech, advogada e integrante do Movimento de Assessoria Jurídica Universitária Popular Isabel da Silva (Majup) da Universidade Federal do Paraná. “Fui muito bem recebida, todas as pessoas que estavam junto me ensinaram em todos os momentos. Eu consegui participar efetivamente dessa colheita que é muito importante, por ser a primeira do ano e, principalmente, é especial por ser neste momento de pandemia”, garantiu.

Do povo para o povo 

Depois de colhido, o feijão segue em espaços de trabalho coletivos para virar refeições em três cozinhas comunitárias: cozinha Marmitas da Terra, organizada pelo próprio MST; cozinha da União de Moradores/as e Trabalhadores/as (UMT), localizada no Bolsão Formosa; e cozinha organizada pelo Movimento Nacional da População de Rua (MNPR), no Sindicato dos Trabalhadores dos Correios. Parte dos grãos também vai integrar as doações de alimentos feitas pelo MST na capital e região, previstas para fevereiro.

Entre os participantes do mutirão estava Ivan Carlos Pinheiro, morador da Ferrovila e membro da UMT, que reúne as associações de moradores das vilas Uberlândia, Formosa, Canaã e Candinha, em Curitiba. “A gente só tem a agradecer pela experiência que nós estamos tendo aqui”, diz, enquanto dá uma pausa na colheita.

A cozinha da UMT distribuiu 4 mil refeições desde agosto, com apoio do MST. “O trabalho com as refeições veio a partir de que o MST e as Marmitas da Terra começaram a fornecer 200 marmitas semanais pra nós. Aí veio a ideia de arrumar umas das sedes e colocar a estrutura para fazer a nossa própria refeição pros moradores”, lembra a liderança.

“O estereótipo de que a pessoa está dentro de uma casa terminada, pintada, a pessoa não precisa de nada, mas isso é uma ilusão. Você chega numa casa da comunidade, tem cinco adultos desempregados. A luz cortada, a água cortada, falta o gás pra fazer uma refeição”, relata.

Neste período da pandemia, a União de Moradores e Trabalhadores também iniciou uma horta comunitária com apoio da Escola Latino Americana de Agroecologia Ana Primavesi (ELAA), que fica no assentamento Contestado. A ELAA contribui com assessoria técnica e fornecimento de sementes. Uma padaria comunitária também está em construção para contribuir com a alimentação e geração de renda local, em articulação com a Rede Mandala de Economia Solidária.

Para Neumari de Souza Leite, produtora agroecológica do acampamento Emiliano Zapata, de Ponta Grossa, e integrante do MST do Paraná, os alimentos não podem ser mercadorias, e sim um direito de toda a população. “Pra nós isso é um alimento, e não um produto […]. O povo merece comer comida de qualidade. Pra nós é uma grande satisfação o Movimento estar fazendo essa parceria em que a gente faz uma plantação orgânica e coletiva a nível de região”, afirma a agricultora Sem Terra.

Ações de solidariedade do MST no Paraná 

Entre o final de março de 2020 e o dia 6 de janeiro deste ano, 502 toneladas de alimentos foram doadas por famílias Sem Terra a entidades, hospitais e pessoas carentes. Já a ação Marmitas da Terra produziu e distribuiu 38 mil refeições de 2 de maio a 23 de dezembro, com ações semanais de entrega de refeições a pessoas em situação de rua e famílias vulneráveis de Curitiba e Região. Dezenas de mutirões de colheita e plantio também foram realizados pelo grupo ao longo do segundo semestre.

A primeira doação deste ano ocorreu no sudoeste do estado, com a partilha de 1 tonelada de alimentos produzidos pelo acampamento Terra Livre, de Clevelândia. Os alimentos frescos foram destinados a moradores do município, à Associação Pró Saúde – responsável pelo hospital local-, para o Lar dos Idosos João Paulo II, e também para complementar as cestas básicas distribuídas pelo Fórum Regional do Sudoeste do Paraná para famílias de Francisco Beltrão.

As iniciativas de solidariedade do Paraná se somam à campanha nacional do MST, iniciada em abril de 2020 em todo o país. As ações terão continuidade em 2021, diante da grave crise que o Brasil atravessa, por consequência das faltas de políticas públicas por parte do governo Bolsonaro para mudar este cenário.

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