Mulheres camponesas: tecendo a luta e a resistência!

Compartilhe esta notícia.

Por Aline Maria dos Santos Silva e Eduarda Aparecida Domingues, exclusivo para o Terra Sem Males | Foto: Joka Madruga

O dia 8 de março é mundialmente reconhecido como o dia das mulheres. Os registros da história oficial sobre este dia apontam diversos fatos e elementos históricos da luta das mulheres pelo fim da exploração do trabalho e a reivindicação por direitos sociais, fundamentais e políticos. Mas há um elemento muito importante que por ora deixou de ser registrado nos tradicionais livros de história, deixando de contemplar a realidade vivenciada pelas mulheres, especialmente as camponesas, das águas e das florestas e é sobre essas que escrevemos.

Muito tempo depois das mulheres urbanas terem conquistado direitos sociais, avançado no debate da igualdade de gênero, o reconhecimento do sistema machista e patriarcal, as mulheres camponesas ainda permaneceram em uma escala de profunda desigualdade. A luta das mulheres do campo perpassa as discussões sobre o direito ao trabalho, em geral inclui elementos sobre a realidade da questão agrária em que impera o latifúndio, o agronegócio e as suas determinações sobre os povos do campo, das águas e das florestas.  Em primeiro momento, há um direcionamento ao direito e acesso à documentos, escolaridade e direitos sociais básicos. 

As mulheres camponesas, foram se construindo enquanto sujeitas de direitos a partir da organização e fortalecimento dos movimentos políticos de luta pelo direito à terra, a luta pela defesa da produção agroecológica e livre do uso de agrotóxicos, na luta contra o sistema capitalista, patriarcal e racista e principalmente no enfrentamento da opressão da violência doméstica e da violência de estado que age diretamente para explorar as mulheres do campo, seja pela implementação e expansão do agronegócio, concentrando a terra e precarizando as condições de trabalho no campo. 

O Brasil rural, é em sua essência, um espaço dominado pelo sistema patriarcal, de tal forma que as mulheres camponesas nem sempre foram identificadas como sujeitas de direitos. A mulher sempre foi “tratada” como um ser dominada pelo pai ou pelo marido, situação essa devidamente regulamentada pela legislação do direito civil de 1922, sendo proibido o direito ao acesso à escola, aos documentos básicos, vedada à titularidade da terra, previdência, saúde e principalmente o direito de ser reconhecida como trabalhadora rural, uma vez que o sistema machista tratou de colocá-la na sociedade como “dona de casa”, ou seja, aquela que cuida da higiene, dos filhos e dos enfermos, prepara os alimentos e acima de tudo, que desempenha como principal função a de reprodutora da força de trabalho. 

Essa síntese do contexto das mulheres do campo, aponta alguns elementos de reflexão que estão socialmente pautadas pela luta das mulheres camponesas que partem da invisibilidade social para a resistência e que vão se construindo como sujeitas de direitos, reunindo elementos políticos sociais alterando essa realidade. Muitas mulheres foram protagonistas em muitos espaços de luta pela terra, pelas florestas e pelas águas, em diversos contextos, dentre as quais citamos como exemplo a Margarida Alves, a Elizabeth Teixeira, e a Nilce da Silva Magalhães. 

As mulheres camponesas evidenciam um leque de ações conjuntas que denunciam todas as formas de violência vivenciadas. Diariamente colocam em evidência a ligação direta entre a expansão do capitalismo no campo, da agricultura industrializada que exerce controle sobre a água, sobre a floresta, por meio do uso da violência, sobretudo contra as mulheres e por meio do uso constante e imoderado de agrotóxicos. Suas vozes se unem na defesa dos direitos basilares à terra, na defesa das florestas, das águas, de seus corpos, da liberdade, da soberania alimentar, da cultura e dos valores.

Organizadas em diversos movimentos sociais que compoe a Via Campesina, elas tecem conjuntamente lutas contra as empresas transnacionais, que estão diretamente ligadas ao agronegócio, para denunciar diversas violações de direitos humanos, como a contaminação por agrotóxicos, da transgenia, da violência, perseguição e morte das defensoras de direitos humanos, da violência racial, da fome, da tomada de território e da precarização do trabalho. Nesse aspecto, elas estão unidas em defesa da vida, contra todas as formas de violência que tem atingido as mulheres camponesas, seja ela doméstica, externa ou pelo próprio Estado. 

Cabe ressaltar que devido a situação de crise sanitária e econômica causada pela pandemia do Covid-19, essas mulheres acabam sendo ainda mais impactadas em seus territórios e assentamentos, pois as tarefas de gerência do lar, de escolaridade dos filhos, de cuidado para com os idosos, com a saúde e com a terra acabam recaindo sobre seus ombros.

Mesmo com todas essa sobrecarga de trabalho, elas encontram espaços e tempo para fazer a luta contra as violências sofridas, como foi o 08 de março realizado pelas mulheres do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra em todo o país. Elas fizeram a denúncia pública contra mega empreendimentos, contra o agronegócio que gera fome e violência no campo fazendo diversas ações e doações de alimentos cultivados nas áreas de reforma agrária, e ainda encerraram o período de lutas somando-se nos atos contra a impunidade da morte de Marielle Franco e no incentivo a campanha nacional do plantio de árvores

No mês das mulheres, apesar de toda instabilidade política, econômica e social causada por esse desgoverno, nos alegramos com as bandeiras de luta e de resistência tecidas pelas mulheres do campo, das florestas e das águas, que nos trazem esperança por dias melhores e força para seguirmos forjando nossas lutas e cultivando nossos sonhos.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *