Não somos apenas um documento

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Por Pedro Carrano Foto: Giorgia Prates

Na marcha do dia 8 de março, sol queimando logo cedo, dias secos, o coronavírus uma notícia ainda uma ameaça vinda de um mundo distante, me recordo que minha melhor amiga perdeu a pressão e passou mal.
Nos encostamos numa marquise, enquanto minha filha ia buscar um pouco de água ou suco. A caminhada do dia internacional das mulheres estava para se iniciar. Bairro do Parolin, o primeiro 8 de março organizado a partir da periferia.

Solidariedade de amigas. Momento de choro. Os corpos cansados e sem saber bem como se curar.

Antes desse dia, uma semana ruim, dúvidas, frustrações, problemas pessoais e políticos num emaranhado que resume bem os dias de hoje, sob o peso de um governo de homens medievos.

Foi quando João se aproximou e com toda humildade do mundo ofereceu sua habilidade de acupunturista, conhecimento de tai chi chuan, a agulha espetada em pontos do corpo que aliviaram a tensão e dor de minha amiga, que se reergueu em pouco tempo. Naquela manhã de sol, constrangido, me dei conta de que João antes para mim não passava de um contato de whatsapp que me enviava documentos, pautas para o jornal onde trabalhamos, e que eu tampouco levava em conta, talvez por diferenças políticas, talvez por arrogância.

No fundo o via e tratava como um documento recebido, sem me dar conta, na correria da vida, sobre sua dimensão humana. Nossa relação com os outros, fiquei pensando, tem se burocratizado cada vez mais, perdido sua dimensão mais ampla e comum. Mas, como disseram os chineses no auxílio aos italianos: somos ondas do mesmo mar.

O pior é essa reflexão óbvia vir pra mim com força justamente agora, na varanda de casa, sob uma luz incrível e um início de quarentena. Agora que não estamos em contato com várias pessoas que amamos, ou podendo chamar prum café ou cerveja aquela lista interminável de pessoas com quem queremos retomar o contato e sempre deixamos o reencontro pendente.

Mas ok, é isso. É hora de responsabilidade com o outro, com os mais velhos, de seguir por enquanto cozinhando em panelas a ameaça do fascismo bolsonarista, e ter a disciplina em nome do coletivo pra derrotar o coronavírus.

E que os próximos encontros sejam carregados das lições desses dias: depois do vírus que afasta, a necessidade de reencontros.

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