Negócio Sujo – Quando o lixo é transformado em lucro

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O problema do lixo não é novo, mas uma máquina antiga pronta para causar um acidente grave.

A bomba-relógio foi acionada quando, em Curitiba, os moradores do bairro da Cachimba não suportaram mais os impactos do lixão instalado no bairro há quase trinta anos.

Mobilizações e trancaços na entrada do aterro sanitário da Cachimba foram feitos no ano de 2009, para forçar Prefeitura e Secretaria Municipal de Meio-ambiente a adotar uma saída. Audiências públicas foram realizadas. De fachada ou não, é difícil avaliar se esses espaços realmente foram legítimos. Mas é certo que os órgãos oficiais e a Prefeitura teve tempo e acúmulo suficiente para encontrar uma saída.

Vários militantes populares, à época, atuaram nesta causa, quando a Assembleia Popular foi procurada por um grupo de moradores da Cachimba para contribuir nas mobilizações e no debate sobre o tema. O problema não estava apenas lá. Uma vez que Mandirituba, Itaperuçu e Fazenda Rio Grande também tiveram associações e grupos de moradores mobilizando-se para não receber o novo lixão.

Ações judiciais e disputas entre grandes grupos – caso da Estre e do grupo Joel Malucelli – levaram o Sistema Integrado de Aproveitamento de Resíduos Sólidos (Sipar) a ser embargado pela Prefeitura. Esses grandes grupos disputaram entre si o consórcio e usaram inclusive expedientes ilegais, como infiltrar pessoas nos movimentos sociais para tentar usar os movimentos para pressionar pelo seu projeto.

Isso resultou, por exemplo, inclusive em queima e tiroteio de pistoleiros contratados para desmontar um acampamento de manifestantes instalado em Fazenda Rio Grande, em 2010.

“Primeiro, no Sipar, foi um sonho muito grande da Prefeitura, onde eles cometeram vários equívocos, querendo fazer um empreendimento numa área que não era deles. Era tão frágil, perderam o direito de se instalar”, afirma Jadir de Lima, liderança da Aliança para o Desenvolvimento Comunitário da Cachimba (Adecon).

Entre as preocupações dos moradores dos bairros que poderiam ser impactados pela instalação de novo aterro sanitário, não estavam apenas o impacto imediato na vizinhança, mas o fato de a maioria dessas regiões possuírem nascentes e rios, ao lado de problemas habitacionais.

Como alternativa, não se trata de apenas pensar soluções caseiras, mas buscar uma visão de totalidade, refletir sobre como modo de produção capitalista hoje é feito para o descarte, desempregando e gerando empregos precários.

Ao mesmo tempo, o povo pobre segue sem possibilidade de participar nos rumos e nas decisões sobre o seu próprio futuro, uma vez que a qualidade da água está ligada à forma como tratamos o lixo produzido. E esta lógica está submetida à iniciativa privada.

O que acontece no aterro industrial da Essencis talvez seja o melhor resumo desta situação. O direito à moradia está se confrontando com o direito de um grupo particular de se expandir. E isso se dá às custas da preservação ambiental, da qualidade da água, transformando até mesmo a gestão do lixo em um negócio lucrativo.

Por Pedro Carrano
Memória e opinião
Terra Sem Males

Saiba mais: Existem alternativas ao problema do lixo?

Desde terça-feira, 30 de junho, a imprensa do Sismuc, em parceria com o site Terra Sem Males, publica um dossiê com quatro matérias. As reportagens trazem denúncias sobre os contratos e a situação dos aterros sanitários em Curitiba e Região Metropolitana, pertencentes a empresas particulares. 

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