Novos jornalistas recebem formação multimídia

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Por Paula Zarth Padilha
Terra Sem Males

Um portal de notícia local, extensão do “maior jornal do Paraná”, opta por mandar apenas repórter fotográfico na cobertura jornalística da famosa Lava-Jato, sediada em Curitiba. E replica informações de agências de notícias de São Paulo ao invés de investir na apuração local. Nesse mesmo jornal, em outras editorias, pode-se observar um único profissional jornalista sendo responsável pela reportagem escrita, gravação de áudio e produção de foto e vídeo de um treino de futebol, por exemplo.

O jornalismo, como mercado de trabalho, está se tornando mais restrito, com ampliação das demissões e, em contrapartida, exigente de multitarefas. A tendência em “saber fazer tudo”, além de ser percebida em sites de notícias, está sendo explorada na formação de profissionais jornalistas pelas universidades.

Em três universidades privadas de Curitiba que oferecem o curso de comunicação social com habilitação em jornalismo, as disciplinas “multimídia” ou “novas mídias” aparecem já no primeiro e segundo ano de faculdade.

Acesse aqui a grade de jornalismo da PUC, Positivo e Unibrasil.

“A PUC é bem focada nesse novo meio digital. A nova grade é direcionada para esse âmbito mesmo, de multimídia, hipermídia, transmídia e tudo mais. Tudo o que faça com que nós estudantes possamos aprender a trabalhar no campo virtual sem dificuldade de utilizar diferentes mídias”, relata Giulie Hellen Oliveira de Carvalho, de 21 anos.

Giuli cursa o sétimo período de jornalismo na Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), onde a grade curricular foi alterada no primeiro semestre de 2013, para inserir o jornalismo multimídia. “Eu acho isso de suma importância, porque hoje é muito difícil de pensar em utilizar um meio de comunicação sem estar, ao mesmo tempo, utilizando outro, como se fosse uma segunda tela. Então tem que pensar que as pessoas estão sendo habituadas a isso. Que por mais que se tenha a impressão de on-line é mais superficial, é onde mais se busca informação. E aí dessa forma precisa ter vídeo, áudio, foto, texto, tudo linkado. Porque nunca se sabe por onde meu leitor vai querer navegar”, conclui.

O problema é que a grade com enfoque direcionado às novas mídias ainda não chegou nas habilitações dos cursos de comunicação da UFPR. Acesse aqui a grade curricular de jornalismo da UFPR. E as universidades privadas citadas estão com mensalidades variando entre R$ 1.000 e R$ 1.700. Tudo isso para um piso salarial no Paraná, que é um dos maiores do Brasil, e que na prática é o teto salarial de jornalista, que atualmente é de R$ 2.963,60. A faculdade não está se pagando.

“Do ponto de vista técnico a universidade sempre formou jornalistas multimídia, uma vez que o currículo sempre contemplou o rádio, a TV e a mídia impressa. O que mudou é que hoje a academia é mais consciente – e os professores tentam repassar essa consciência para os estudantes – de que o repórter que começa e termina a carreira num único veículo ou num único meio de comunicação está em extinção”, opina a jornalista Rosiane Correia de Freitas, professora da UP em disciplinas relacionadas a apuração de dados.

“Agora existe um outro movimento que é a preparação do profissional para explorar diferentes estratégias narrativas. Ele é derivado de duas situações: primeiro o jornalismo vem se apropriando de recursos digitais para contar histórias de forma não convencional e esse parece ser um caminho que vai ser importante na área no futuro. Segundo porque trabalhar com convergência, com programação e com multiplataformas é adquirir uma série de conhecimentos que nos farão menos expectadores e mais protagonistas do uso da tecnologia para levar informação ao público. Acho que até agora estávamos vendo o jornalista muito passivo em relação ao poder da mídia digital” afirma Rosiane.

Mercado de trabalho

Para Rosiane, não é papel da universidade só atender demanda do mercado de trabalho. “Temos que inovar, que dar espaço para os estudantes experimentarem e arriscarem, porque no mercado é muito difícil que uma empresa estabelecida dê esse espaço para um profissional, ainda mais se ele estiver no início de carreira”. Ela conta que universidade acompanha os formados e em contato com empresas de comunicação percebeu que há muito espaço para o jornalista que trabalha com vídeo, áudio e conteúdo para internet.

“Na minha opinião, o profissional que é muito bom editor ou fotógrafo ou produtor continuará existindo e continuará a ser necessário. Só que ele não pode mais deixar de dialogar com outras áreas. O jornalismo sempre foi uma atividade coletiva, mas hoje essa junção de forças ajuda a potencializar o impacto do trabalho do repórter. Se uma matéria só sai num veículo, num suporte ela tem um alcance X. Mas se ela saiu no jornal, também virou um vídeo de curta duração, um documentário curta, uma exposição de fotos, tudo isso ajuda a mensagem a chegar mais longe. Desde que, é claro, todas essas plataformas tenham a mesma mensagem como foco”, finaliza.

 

Em tempo: Olhando as novas grades curriculares dos cursos de jornalismo, dá muita vontade de fazer de novo. Constatando o valor das mensalidades, a vontade passa. Novos jornalistas recebem formação multimídia e nós temos que nos virar. A alternativa para jornalistas mais experientes seria um curso de mídias sociais. Fazendo uma busca rápida, um curso com duração de quatro dias, com carga horária das 19h às 22h, tem custo de R$ 450. E não se compara a toda uma grade curricular elaborada por uma universidade direcionada a novos estudantes.

 

O Terra Sem Males acompanha as mudanças no jornalismo mas valoriza o fotojornalismo, a reportagem escrita e audiovisual complementares mas também independentes entre si de acordo com a paixão e talento de cada jornalista envolvido com o projeto.

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