NPC: PESQUISAS ACADÊMICAS ANALISAM PROGRAMAS POLICIAIS E COBERTURA DE CRIMES

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“Todo programa compactua com você uma promessa. Eu te garanto que te entrego isso e você garante que vai assistir”. Para Danillo Duarte, mestre em jornalismo da UESB/UFBA que defendeu tese sobre policial na televisão brasileira, é assim que funciona nos programas de TV. E nos programas de jornalismo policial o que eles te prometem é “eu julgo o crime e te garanto que vou pegar esses bandidos”.

As características de formato dos programas policiais é abuso da transmissão direta (ao vivo), tem helicópteros à disposição para ver a favela de cima, sem mostrar gente, baixa qualidade de produção jornalística e de construção textual, carregado de opiniões.

Esse tipo de jornalismo se coloca como prestador de serviço, de defensores da moral e da honestidade, de caça aos bandidos. “A metáfora do cão de guarda”, resume o professor.

A violência retratada na TV é bem definida: acontece nas periferias, com negros criminalizados. E o uso da linguagem coloquial, popular, com gírias policiais e do próprio meio (comportamento dos repórteres diante das vítimas e dos acusados) colocam o mediador como figura central (apresentador, repórteres, cinegrafistas).

Danillo centrou sua pesquisa em compreender como constroem esse gênero específico no Brasil, entender o processo de produção e estratégias para alcançar audiência. “Capacidade grande de retórica, sentenciam no ar, não respeitam direitos humanos”. É a síntese do vemos na TV.

Danillo Duarte, mestre em jornalismo policial na televisão brasileira, UESB/UFBA. Foto: Joka Madruga
Danillo Duarte, mestre em jornalismo policial na televisão brasileira, UESB/UFBA. Foto: Joka Madruga

Que sentidos estão propostos?

Kleber Mendonça, jornalista e professor na Universidade Federal Fluminense, falou sobre a cobertura do RJTV (telejornal local da Rede Globo no Rio de Janeiro) nos processos de pacificação das favelas a partir de 2009. Ele trabalha com análise do discurso, que sentidos estão propostos. “O que esses programas trazem sobre o lugar que a mídia hegemônica quer ocupar com o telejornalismo policial”, tentando escapar da crítica ao tom sensacionalista desses programas.

“Eu não acho o fato ser sensacionalista é o mais grave, o mais grave é a estrutura que pressupõe de onde está o crime e de quem é a vítima”. Kleber contrapõe o jornalismo sensacionalista x o jornalismo de sensações.

“O sentido desse jornalismo tende a naturalizar uma ideia de que a violência urbana está na raiz de problemas não só do jornalismo hegemônico mas também de como a esquerda entende, que seria cometida por pobres contra pobres na periferia e contra ricos. Esse conceito de violência urbana é muito difícil desconstruir”, sintetizou.

“Temos que trabalhar as questões de violência de uma outra forma. Colocar a violência como sujeito quase personificado atrapalha a tentativa de solucionar problemas e enfrentar a luta de criar uma sociedade mais justa. A primeira violência é a da sociedade capitalista em que a população é excluída e está à margem”.

Kleber Mendonça, jornalista e Professor na Universidade Federal Fluminense. Foto: Joka Madruga
Kleber Mendonça, jornalista e Professor na Universidade Federal Fluminense. Foto: Joka Madruga

Criminalização de pobres, negros e moradores de periferias

Os programas policiais naturalizam quem pratica a violência e quem é vítima, assim como naturaliza a sensação de insegurança e as medidas repressoras (como a pacificação) de legitimação maior que a força da lei, a sensação do Estado incapaz de lidar com o incontrolável.

“E o programa policial iria consertar esse problema do Estado de ser incapaz. Com o estímulo ao linchamento, ao extermínio. A sensação de injustiça e certeza da maldade do outro justifica a ausência de humanidade”, finalizou.

Cobertura policial in loco

“É normal tirar foto do tanque do exército na ocupação da rocinha”, que estaria oficialmente “retomando esse território”. Esse é parte do processo de naturalização da cobertura policial também no jornalismo impresso, explica Cecília Oliveira, da LEAP.

Ela enumera como processos legais são atropelados pela mídia para a notícia sobre o fato criminoso ser dada em primeira mão. “Todas as etapas são queimadas e a imprensa entra com o veredito e não é à toa que é chamada de quarto poder”.

Cecília relembra que a Constituição protege direitos dessas pessoas: não são obrigadas a dar entrevista, nome, ceder imagem. E que nem sempre o repórter comete o delito de divulgar a imagem porque algumas leis sobre isso são regionais, mas o policial que autoriza a cobertura da mídia está infringindo direitos.

Manchetes que julgam, não existe respeito à pessoa e estereótipo são criados diferenciando “pessoas que tem problemas com drogas” e o rótulo de “viciados” dependendo de classe social e cor/raça. E ela questiona: “as coberturas são reflexivas, analíticas?”

O debate sobre cobertura policial pela mídia é parte do 21º Curso Anual do Núcleo Piratininga de Comunicação, que acontece no Rio de Janeiro.

Por Paula Zarth Padilha
Terra Sem Males

 

 

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