O bloco na rua

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Por Thea Tavares | Foto: Filipe Araujo

As manifestações pelo mundo e no Brasil ganham as ruas para dizer o que deveria ser senso comum, mas não é: que “vidas negras importam”. Ponto! Ironicamente, essa importância se manifesta justa e significativamente diante e apesar do perigo que representa para os jovens, maior parcela das pessoas que integram os protestos, terem de ir às ruas em meio à pandemia do novo coronavírus. Colocam as próprias vidas em risco nessa contestação e demonstração de ativismo e de solidariedade, no enfrentamento do fascismo galopante e na salvaguarda da efetiva democracia. Até em função da COVID-19, a atitude soa como a explosão de um clamor que encontrava-se sufocado pelo isolamento domiciliar e pelo distanciamento social de hoje e que também se agiganta, desesperado, em reação a uma violência que não é de agora, vem de sempre e que não oferece trégua, na contramão do avanço civilizatório, nem no período da pandemia. Como disse por meio de sua conta do Twitter a escritora Elika Takimoto, “se você não foi nas manifestações  hoje, você está certo. Se você foi, está certo também porque a realidade é complexa demais para ser analisada somente em duas partes”.

Nos Estados Unidos, o assassinato de um homem negro, George Floyd, na cidade de Minneapolis, por um policial que já o havia imobilizado, mas manteve todo o peso do corpo sobre o joelho que pressionava o pescoço do negro, chocou e foi o estopim da comoção social que se seguiu à difusão das imagens. A mesma cena, uma vez registrada e vista nos quatro cantos do mundo, motivou reações em vários países e não poderia ser diferente. Em tempos de COVID-19, as últimas palavras do homem de 40 anos diziam que ele não conseguia mais respirar. Foi sufocado, não pela doença que apavora a todos por ceifar vidas sob a mesma agonia de não poder mais respirar, mas pelo racismo e ódio impregnados na dita sociedade civilizada. 

No Brasil, dias antes, durante uma operação conjunta das polícias Civil e Militar do Estado do Rio de Janeiro em perseguição a traficantes no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo, um adolescente de 14 anos foi morto na invasão, sob tiros e detonação de granadas, da casa em que ele jogava sinuca com parentes. João Pedro Matos Pinto era negro e, naquele momento, entrava para as estatísticas como o 24º adolescente baleado no Rio desde o início do ano. Metade alvejada em situações com a presença de agentes da segurança pública e, nesta conta, cinco foram mortos. A Delegacia de Homicídios confirmou que João Pedro era inocente. Sequer representava perigo aos policiais em ação. Mais recentemente, no Recife, capital de Pernambuco, um menino de apenas cinco anos, negro também, parou de respirar depois de ser “empurrado” pelas mãos do mesmo racismo que se expressa em negligência e no descaso negacionista e expropriador da importância da vida do pequeno. Miguel Otávio de Santana. Negro, de família pobre, filho da empregada doméstica.

Mas o mesmo noticiário que enxerga virtudes e enaltece as manifestações lá de fora, concentra a maior parte de sua atenção endógena em mostrar e discutir os efeitos dos vandalismos, das depredações e dos atentados contra os símbolos nacionais, como foi o caso da bandeira do Brasil queimada no Centro Cívico de Curitiba, no meio de tantas violências ou crimes para a livre escolha dos intérpretes da realidade, nas devidas proporções das suas responsabilizações e valores ou na relatividade seletiva de ambos. A sabedoria popular tem uma máxima que diz que uma pessoa perde a razão quando parte para a ignorância. Mas isso parece não valer nem para as situações citadas antes e nem para a flagrante ignorância daquela reunião ministerial de 22 de abril de 2020, que só foi exposta por meio de uma determinação da Suprema Corte do país. Para dizer o mínimo. 

Diante de todas as barbaridades praticadas, de medidas descabidas ou omissões criminosas, mensagens confusas ou de realidades forjadas por parte do governo federal, milhares de pessoas também deixam de respirar por causa da COVID-19, que a princípio não faz distinções, mas as pesquisas realizadas e os boletins epidemiológicos apontam para o contraditório, para o fato de que as condições estabelecidas pelas desigualdades social, econômica e cultural colocam a população negra e pobre em destaque no ranking dessa contaminação e das mortes decorrentes dela. Enquanto lemos este texto, as informações oficiais são atualizadas com mais perdas, de mais vidas que não importaram àquelas autoridades dispostas na reunião ministerial. Quando forem de fato atualizadas.

O único momento dos trechos divulgados em que o suposto núcleo do comando da nação mencionou a COVID-19 foi para argumentar em favor da estratégia oportunista de se passar “de baciada” por cima de direitos, dos interesses das pessoas, da comunidade, da natureza por expedientes práticos e ao alcance de suas “competências”, enquanto a imprensa contabiliza as “baixas” dessa guerra. Preocupação com o povo a quem deveriam servir? Nenhuma! Aliás, o advogado Darci Frigo, ex-presidente do Conselho Nacional dos Direitos Humanos, lembra (em entrevista concedida para outro artigo desta coluna) que quando o furacão Katrina devastou uma imensa área no litoral sul dos Estados Unidos, há 15 anos, autoridades locais se aproveitaram da fragilidade e da comoção das pessoas para empreender uma apropriação dos territórios que antes eram habitados por negros e pobres que perderam o pouco que tinham para o desastre natural. Pelo visto, o episódio fez escola, na qual o ministro Ricardo Salles foi um aluno atento.

Há, portanto, um contexto todo que, se não justifica, consegue nos fazer perceber os fatores que levam os jovens às ruas e que motivam as pessoas a não se calarem diante da desproteção, do abandono, do descarte de vidas. O racismo estrutural é um deles; o fascismo galopante, um pano de fundo no requinte da perversidade. Com e sem pandemia, os negros e as negras sempre levaram a pior. Na violência doméstica e familiar, as mulheres negras são as mais agredidas; no feminicídio, as mais assassinadas; quando se trata das mortes violentas de jovens, os meninos negros, da periferia, são os primeiros a pararem de respirar. O mesmo acontece quando a gente consegue dar rostos aos indicadores do desemprego, do subemprego e da precarização das condições de trabalho, da fome, da pobreza, das dificuldades de oportunidades ou dos entraves no acesso a direitos e às políticas públicas. Talvez, quando se fizer pesquisa sobre os trabalhadores que não têm o direito de ficar em casa a fim de resguardar suas vidas e a de sua família para continuarem respirando, sobrevivendo, até que a Ciência encontre uma resposta eficaz de imunização contra o novo coronavírus, a gente vá se deparar com a mesma velha discriminação. E isso não é mera coincidência!

Antes, portanto, de se apontar os dedos para fatos que acalentem nossa acomodada consciência no debate sobre as manifestações de rua, em meio à pandemia atual, é preciso alargar a visão e abrir o leque de variáveis nessa análise a fim de tentar compreender o porquê que jovens com um nível de conscientização e de discernimento sobre a gravidade e os riscos a que estão expostos resolveram, ainda assim, colocar o bloco na rua. Talvez, a gente conclua que os verdadeiros promotores de vandalismos, ávidos para se municiarem de argumentos que favoreçam uma repressão violenta dos protestos e que “de baciada” legitimem um necrogoverno de extermínios, estão nos trechos divulgados do vídeo daquela reunião ministerial. Sentados sobre cargos que lhes permite implementar uma agenda de interesses alheios e exóticos aos do povo, a quem eles todos deveriam servir e prestar contas. Na mesma tuitada da Elika Takimoto, citada no início desta análise, a escritora arremata: “…errado aqui é só quem apoia Bolsonaro”.

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