O BRANCO E O NEGRO DOS OLHOS – DE QUANDO CONHECI ELVIA ALVARADO

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Neste trecho da minha viagem e do meu diário de relatos (no livro que intitulo “As barricadas de Oaxaca), resgato um pouco da história de Elvia Alvarado, conhecida líder camponesa de Honduras, quem enfrentou a repressão dos anos 1980 e, no momento do encontro, dedicava-se à colheita de café.

27 de novembro de 2005 – Lejamaní (departamento de Comayagua, Honduras).

Às quatro da manhã na estrada rumo à montanha onde trabalha Elvia Alvarado. Aldeia de cinco casas. Num lugar que sequer merece nome. Agricultores de café. O caminho até lá, a partir de um certo ponto da montanha, impossível nos dias de chuva. Dona Elvia tem que andar tudo aquilo. Não eram nem seis e meia e deparei-me com uma senhora agachada sobre uma tina cheia de água gélida, com brotos de café dentro, para que a casca flutuasse. A voz de Elvia é gritada. Dois dias antes eu tinha lido o livro sobre a sua vida, escrito por uma estadunidense da ONG Global Exchange, Medea Benjamin. O título do livro é algo como “Não tenha medo gringo”. Agora, uma antiga dirigente camponesa, de renome nos EUA, estava molhando as mãos na água fria e dali iria trabalhar até o escuro da noite. Elvia tem seis filhos, três deles com o mesmo pai, a outra parte de dois homens. Todos os maridos fugiram. A primeira vez ficou grávida aos 15 anos e rumou para Tegucigalpa, capital, sem nunca ter saído do vilarejo. Ficou a tarde inteira e o dia seguinte sentada no banco da praça, com medo. Conseguiu trabalho como doméstica, arrumou outro homem que não queria o filho na mesma casa, extremamente machista. O salário ia embora com a bebida. Elvia defende que a mulher camponesa tem o tino da administração. A comida toda da casa é comprada com o pouco dinheiro que sobra ou que é “roubado” do marido. Rápida, pula de uma atividade a outra, da rede e do silêncio para a análise do mundo. Esbarra no senso comum, mas produz também lampejos.

– Os camponeses são a classe explorada pelas duas outras, pelas elites, pelas classes médias. A última, de acordo com ela, inclui os coiotes, os atravessadores. São pelo menos cinco intermediários até a exportação do café. São os que detêm o mercado.

– Nos Estados Unidos eu fui num café com amigos. Uma xicarazinha de café custa um dólar e 25 centavos. E eu me perguntei por que pagam menos que isso pela nossa saca. Uma xicarazinha!

Debaixo do sol que começava a ferver. No horizonte as montanhas tinham vários níveis. As últimas da cadeia pareciam de brincadeira, miragem. Elvia estendeu os grãos em frente da casa, para separar os ruins. No dia seguinte, este trabalho deixaria os meus braços destruídos.

Ao menos três vezes chegaram jornaleiros dos arredores. Crianças muito novas vieram colher café para Elvia. Não gostaram do pagamento, ameaçaram cruzar os braços. Elvia usou o argumento de que não podia pagar mais. Uma queda de braços onde nenhuma das partes tinha força suficiente, sequer pode-se dizer que eram de classes opostas.

Organização nos anos 1980

Com o impulso da igreja, Elvia começou a organizar as pessoas, nos anos 1980, embora percebeu que a religião queria agir até certo ponto. A organização continuou por si mesma, a recuperação de terras, a luta contra os coronéis e o exército, munidos de machetes (facão), lutando contra a repressão oculta: poucos sabemos que Honduras foi palco de uma forte repressão política. Não houve um movimento político/militar com a força dos sandinistas na Nicarágua ou da Frente Farabundo Martí (FMLN), em El Salvador. Só que, em Honduras, um camponês era acusado de fornecer armas para estas organizações. O país foi o epicentro da contra-revolução no continente. O Capital diretamente dos Estados Unidos. De Lejamaní, da casa de Elvia, podemos observar bem a base militar estadunidense de Soto Cano (também chamada ‘Palmerola’). Elvia passou por prisões e torturas, foi liberada pela coragem cega dos filhos. Eles iam em busca da mãe e ameaçavam os militares. Elvia insiste na divisão como o que desarmou os camponeses e companheiros de resistência. Com a mão rodeando a barriga, sinaliza o individualismo, da classe obreira, dos professores, dos antigos companheiros.

Lejamaní

“Amanhã vou para a montanha”. Ouvi essa frase mais de uma vez, mas Elvia era detida pelas histórias e problemas pessoais dos infinitos membros da família.

– Mamá Elvia é uma mulher de pouca fome.

Manda parar a caminhonete Toyota, ela deseja que eu leve fotos da paisagem.

Levo o fim de tarde gravado na câmera. O longe de Elvia, a falta de escola, de saúde, de comida. De tudo.

Domingo de eleições e o festejo nas ruas, vitória do Partido Liberal, de Mel Zelaya, contra a “Mano Dura” de Pepe Lobo, dos nacionalistas, a quem Elvia – sem muita elaboração – ao lado de sua família, acabou apoiando.

– “Não leve a informação falsa para o Brasil. É que o Pepe Lobo vai combater as gangues (Maras Salvatruchas). Por isso a pena de morte. Para eles, não para nós”. Ironias da história, os caminhos que viriam.

Por Pedro Carrano
Crônicas de Sexta
Terra Sem Males

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