O Dia Mundial do Rock e o lugar onde os urubus plainam

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Jovens punks protestam em Altamira-PA. Foto: Joka Madruga

E o Dia Mundial do Rock está aí, mês de julho! Lembro que na metade do mês passado eu estava a amarrar meu coturno para caminhar pelas calçadas da capital paranaense.

A direção: o Teatro Universitário de Curitiba (TUC), localizado no Largo da Ordem. O motivo? Algo que chamei de “Centro Intensivo de Reposição Energética (CIRE).

Naquela noite, já no Largo, eu literalmente “mascava o ritmo em meu bubblegum”, como escreveu Dee Dee Ramone certa vez. Senti aquela sensação juvenil de rebeldia em mais uma noite de punk rock. Na oportunidade assisti a banda antifascista italiana Los Fastidios.

Volto ao 13 de julho, data do dia em que o som mais popular do mundo é comemorado. Reflito: “mas por quê diabos eu falo de um som tão conhecido e lembro de uma noite tão underground?”.

Confesso que em tempos de coerências raras, encontrar linearidades constantes torna-se um objetivo; em qualquer lugar.

Explico.

Quando fui ver Los Fastidios, sabia o que estava por vir: música rebelde influenciada  pela sonoridade do ska e pela temática de protesto vinda do reggae – ambas musicalidades originárias da Jamaica. Tudo embalado ao som do punk rock 77 inglês.

Essa junção de música e ideais retrata as claras influências da sonoridade de bandas skinheads. Também resgata toda uma cultura rebelde e da classe operária vindas da Europa; que influencia movimentos sindicais e também a luta operária.

Toda essa temática surgiu nos subúrbios do Reino Unido durante a crise econômica no fim de década de 70 e início dos anos 80.

Por isso, num show underground, encontrei uma coerência roqueira num contexto fragmentado e de crise. Buscava verdadeiramente por um show antifascista, com posicionamento político contrário ao autoritarismo e ao racismo; uma banda legitimamente de esquerda.

Sim Richards, “it’s only rock n roll”, but em tempos de onda religiosa tradicionalista, ser presenteado com uma banda ANTIFA soa como um acontecimento revigorante.

Quando saí do CIRE com um sorriso no rosto, também observei outras pessoas com a mesma sensação. “A arte funciona!”. É uma corrente de transmissão. A energia do rock de combate é muito mais forte que qualquer falso moralismo lançado ao vento. Os megawatts de dissonâncias rebeldes emitidas através de acordes eletrizantes equalizaram minhas ideias.

Não há valor, não se calcula o megawatts/hora nesses momentos. A área alagada de fragmentos que minha usina cerebral necessita para funcionar foi ligada por uma chuva de versos políticos e libertários.

Mas então… aí lembro novamente que é o mês do rock. Este julho de 2015 já está marcado para sempre como o mês do último show do Gratefull Dead. Acho que “só” por isso 2015 torna-se mais conservador… mesmo sabendo que a energia dos deadheads não se apagará.

Mas o fato é: neste mês do rock não precisei me referenciar pelo álbum High Voltage do AC/DC, por exemplo. Não usei o clássico; eu sei que eles sempre estarão por aí. Também me recuso a recorrer ao “hoje é dia de rock bebê”, da Christiane Torloni.

Não tem nada disso. Sem clichê. A minha luz brilhou quando fui levado pelo som ao lugar onde os urubus plainam… e como um forte vento zunindo no ouvido de uma elite conservadora, cantei “NÃO” ao preconceito e ao fascismo… isso sim é rock.

Por Regis Luis Cardoso
Terra Sem Males

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