O holocausto brasileiro e o Garotos Podres

Compartilhe esta notícia.

LP é a coluna de crônicas musicais do jornalista Regis Luís Cardoso no Terra Sem Males

– Oi, tudo bem?
– Tudo Bem……
Fora o tédio que me consome,
todas as 24 horas do dia,
fora a decepção de ontem,
a decepção de hoje,
e a desesperança crônica no amanhã,
tenho vontade de chorar,
raiva de não poder,
quero gritar até ficar rouco,
quero gritar até ficar louco,
isso sem contar com a ânsia de vômito,
reação a tal pergunta idiota…
Fora tudo isso, tudo bem.

Esses dias fui ao show do Garotos Podres, no Jokers, em Curitiba. Uma das grandes bandas do punk rock nacional. Eu já tinha visto eles anos antes, mas esse show foi diferente. Talvez pelo atual momento… confuso… louco!

Como meu amigo JC, que foi surpreendido pela certeza de ter perdido seu cartão do bar. Aí ele disse: “putz, cara. Perdi minha comanda”.

O engraçado é que ele estava ao meu lado durante o show. Ele ficava se mexendo de um jeito meio estranho e eu achava que aquilo era algum tipo de dança…

Pelo jeito não era…

Era somente ele procurando, sem parar, seu cartão nos seus quatro ou cinco bolsos (no máximo) até ter certeza que perdera.

E é nesse momento que somos profissionais em dar conselhos. “Vai lá no bar e avisa que perdeu o cartão”, disse. Meu amigo estava cabreiro, mas foi. Poucos minutos depois ele volta com aquele sorriso no rosto e um copo cheio de chope. “Achei”, disse JC, sarcástico.

Enquanto isso o show continuou forte. Destaque para o momento em que Mao falou: “você é louco”. E apontou para o seu guitarrista parceiro ‘véio de guerra’, que respondeu: “não, louco é você”. Aí eles ficaram nesse ‘pingue-pongue’ durante um tempo.
Detalhe: o Mao, nos últimos anos, veste um “uniforme” que é uma mistura de cientista norte coreano com algum tipo de espião nada secreto da KGB.

Outro detalhe: essa foi a introdução da música ‘Hospício’, que está presente no álbum “Contra os Coxinhas Renegados Inimigos do Povo”. Esse disco era pra ser do Garotos Podres, mas devido a treta entre os integrantes, foi lançado clandestinamente com o nome ‘O Satânico Dr. Mao e os Espiões Secretos’.

Mais um detalhe: Foi nesse momento que a Ana, minha companheira, lembrou-me do livro da jornalista Daniela Arbex (O Holocausto Brasileiro).

E é aqui o ponto chave: esse show remeteu ao livro!

‘O Holocausto Brasileiro’ retrata uma época em que ter opinião contrária era sinônimo de loucura. Liberdade era motivo de prisão. Política era autoritarismo. Respeito era medo. Uma época em que a sociedade permitiu, durante décadas, que seres humanos fossem jogados num manicômio imundo, lá em Minas Gerais. Um lugar onde pessoas tinham que tomar o próprio mijo, comer as próprias fezes.

Foram décadas de uma prática que se resumiu ao cárcere, choque e anulação da personalidade. Seres humanos definharam no esquecimento, 60 mil morreram! *Leia aqui entrevista feita pela Vice com Daniela Arbex, autora do livro. Já aqui você pode assistir ao documentário.

O show do Garotos Podres me lembrou que nos últimos meses o debate sobre a Reforma Psiquiátrica voltou. Isso porque um integrante do governo Temer, gestão que consegue ressuscitar todo e qualquer monstro que aterrorizava nossa frágil democracia, propôs a volta dos manicômios nos moldes de antigamente.

Na sequência, a Abrasco (Associação Brasileira de Saúde Coletiva) emitiu um comunicado assinado por diversos profissionais da área sobre a questão:

“A redução do uso de leitos de hospitais psiquiátricos não ocorreu à toa, observa. Há um acúmulo de relatos de histórias de violação de direitos humanos nessas instituições. Isso trouxe para o Brasil até mesmo condenação em cortes internacionais”.

“O nosso compromisso, portanto, é com a ampliação e fortalecimento desse modelo, e não com o seu retrocesso e desestruturação”, conclui o manifesto de docentes e pesquisadores. Leia na íntegra aqui.

Por fim, confesso que posso estar engando em relação ao nosso momento, assim como meu amigo JC estava (após ter certeza que havia perdido seu cartão), mas às vezes me vejo dentro de um gigante manicômio, com administradores sociopatas, milionários, traficantes e assassinos.

Os vejo sorrir ao ver toda uma sociedade definhar. A extrema pobreza volta, os manicômios voltam, os fantasmas voltam. E isso me causa pânico.

Gostaria de chegar ao bar ‘chamado vida’ pensando ter perdido meu cartão da esperança, mas aí, ao dar aquela última procurada, sentir aquele alívio ao encontra-lo.

É melhor eu parar por aqui, dar o play nessa música e sair por aí batendo minha cabeça na parede.

Louco é você que esta querendo me internar
Louco é você que esta querendo me internar
Louco é você que esta querendo me internar
Louco é você que esta querendo me internar
Cuidado, há perigo
Tô indo na calçada
Eles podem te prender
Te trancafiar
Eles querem te calar
Com eletrochoque
Eles podem te calar
Com eletrochoque
Vão deixar você voltar
Pra esta vida cruel
Vão deixar você voltar
Pra este mundo cão
Louco é você, que está querendo me internar
Louco é você, que está querendo me internar
Louco é você, que está querendo me internar
Louco é você, que está querendo me internar
Pelo menos eu sei quem eu sou
Eu sou Napoleão, e você é louco
Porque não acredita que eu sou Napoleão
Você é louco, louco, louco

Por Regis Luís Cardoso
LP – Crônicas musicais
Foto: Leandro Taques/Porém.net
Terra Sem Males

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *