O saco da farinha

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Desde as divulgações das denúncias de corrução contra o ex-candidato à presidência da República Aécio Neves (PSDB), os seus eleitores vivem momentos de decepção. Ao escutar pelos jornalistas da Rede Globo que seu candidato teria recebido milhões em propinas, o mundo desabou: “tudo farinha do mesmo saco”, disseram quase combinadamente nas redes sociais.

Obviamente que as mesmas elites que construíram a candidatura do Aécio, e financiaram o impeachment da Dilma, lidarão com esse sentimento negativo a “tudo” apresentando nas próximas eleições um candidato “não político” para disputar novamente contra o PT. Ou seja, tentarão dizer que seu candidato não é farinha deste saco ou que sequer é farinha: galãs da TV, caçadores de marajás, “técnicos” ou empresários ricos, que dirão nada ter a ver com a antiga política, mas estarão até o pescoço comprometidos com ela. Para muitos, se combinado com o discurso de ódio contra o PT e com uma boa pitada de preconceito de classe, isso será o suficiente.

Mas, para os outros tantos, proponho uma reflexão: se os políticos são todos “farinha do mesmo saco”, como dizem, ao invés de debatermos a “farinha” (os políticos), vamos pensar o tal “saco” (as instituições) que perpetuam uma relação promíscua entre o público e o privado que incomoda a todos nós?

Esse “saco” tem um problema de origem: nas eleições de 2014, por exemplo, 10 empresas elegeram 70% dos atuais deputados federais. A maior doadora foi a JBS-Friboi, distribuindo, pelo caixa oficial das campanhas, R$ 61,2 milhões para 162 deputados, de 21 partidos. O Bradesco e o Itaú elegeram mais 140 deputados, de 20 partidos. A Vale, Ambev e as construtoras OAS, Andrade Gutierrez, Odebrecht, UTC Engenharia e Queiroz Galvão fecham a lista. Já na eleição municipal de 2016, com a decisão do STF de permitir apenas contribuições de pessoas físicas, as empresas driblaram a lei realizando doações através de seus dirigentes, mantendo o controle do poder econômico do processo. Além do mais, o caixa 2 continuou alimentando a maior parte dos recursos das candidaturas, tendo em vista o pífio controle pelo poder público das campanhas.

Assim, as grandes corporações elegem as maiores bancadas do parlamento e garantem o financiamento das campanhas dos prefeitos, governadores e presidentes. Como não há “almoço grátis”, garantem assim uma grande influência nas ações do poder público, nos resultados de votações nos parlamentos e nos destinos das políticas econômicas.

Parte da solução está na mudança do processo eleitoral. Mesmo que se mantenha a proibição das doações de empresas e haja interesse em fiscalizar as campanhas, o poder público não conseguiria acompanhar 25 mil candidaturas a deputados, senadores, governadores e presidentes, como houve em 2014; ou de 450 mil candidatos a prefeitos e vereadores, em 2016. É necessário ter outro modelo: com uma estrutura pública de campanha disponível para todos, em iguais condições; redução drástica dos limites de gastos; inscrição dos partidos por lista, com apenas um CNPJ, na qual as pessoas votariam na chapa e não nos candidatos individualmente. Assim, é possível haver alguma regulação e um debate político sério. Essas soluções não resolvem nem atenuam os problemas estruturais do Estado, mas apontam para um ambiente institucional mais favorável para fazer mudanças na dinâmica dos três poderes.

Particularmente, não acredito nessa história de que os políticos são “tudo farinha do mesmo saco”. Há muita diferença entre os partidos e governos. Mas penso que é hora de transformações mais efetivas, de reformas mais profundas, com uma ampla constituinte no nosso país. Por isso, acredito que é o hora de discutir o “saco da farinha”, para buscarmos caminhos políticos e narrativas que superem as manobras do senso comum.

Por André Machado
Contraponto, Terra Sem Males

Foto: Ricardo Penna/Fotos Públicas

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