O sumiço do Diabolô: capítulo final

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Por Regis Luís Cardoso
LP – Crônicas musicais
Terra Sem Males

Sangue do seu sangue
carne da sua carne
seu melhor amigo
seu inimigo

Na sua complacência
na sua inocência
não consegue perceber
que foi traído

 

Inimigo!

 

A escola, a igreja
a família, o estado
sempre tem alguém
te perseguindo

 

À espreita, o oculto
perverso, seguro
aos poucos vai
te destruindo

 

Inimigo!
Sangue do seu sangue
carne da sua carne
Te beija como judas

– Alô.
– Olá pastor…
– Opa, conheço essa voz!
– Que bom! Mas e aí, tudo bem?
– Tudo querido, tudo bem e você?
– Tudo bem também. Olha só, gostaria de te convidar pra vir até a igreja, minha irmã tem uma surpresa pra nós.
– Opa! Adoro surpresas. Que horas?
– Daqui mais ou menos uma hora e meia. Posso confirmar sua presença?
– Ok, pode confirmar.
– Certo.
– Mas você não pode adiantar o assunto?
– Olha, parece que tem ligação com aquele assunto antigo do seu filho e do meu irmão, mas não sei ao certo.
– Como é que é?
– Sim, também fiquei surpreso quando ela me confidenciou.
– Não estou entendendo mais nada. Por que desenterrar isso? Ainda mais agora que estamos entrando na política?
– Eu também não sei. Por isso é melhor termos discrição. Não comente com ninguém. Principalmente pela gravidade do assunto. Imagina se nossos eleitores descobrem o que houve!
– Não podemos deixar isso vazar…
– Então contamos com a sua presença?
– Claro.
– Ok. Até mais.

Agora, sentado num banco da rodoviária de Brasília, Diabolô sabe que está encrencado. “O que foi aquilo! Sabia que ia dar merda. Não devia ter vindo!” – fumava um cigarro atrás do outro enquanto aguardava o ônibus.

Foi quando alguém se aproximou e discretamente apontou uma arma pra ele.  “Fui usado” – pensou. Desesperado fez o que era preciso pra não levar uma bala na cabeça. Pelo menos até aquele momento.

– Ele está vindo.
– Ótimo. Você não comentou com ninguém, né?
– Claro que não.
– Ok. Estou indo.
– Tudo bem. Fico no aguardo. Ele disse que levará mais ou menos uma hora.
– Certo. Assim posso inventar uma história pro meu marido e ir até você.
– Tudo bem, fico no aguardo.
– Mas você fez o que eu te pedi?
– Sim, só nós estaremos aqui.
– Ótimo. Deixe que eu faço o serviço e depois você cuida do corpo.
– Tem certeza que essa é a única alternativa?
– Sim, essa é a única alternativa.

Os irmãos de Diabolô estavam preparados para ações diferentes.

Após deixar as coisas no hotel, Diabolô pegou um táxi rumo à região periférica de Brasília. No trajeto, as piores lembranças. Seu alento era a presença da sua pistola; uma falsa esperança. Até porque ele nunca atirou em ninguém.

O pastor que havia recebido a ligação do irmão do Diabolô também estava armado. Era comum ele transitar com uma pistola na cintura, pois mandava e desmandava na periferia da capital federal. Sua vida consistia em pregar uma falsa libertação e escravizar sexualmente algumas ninfetas.

No entanto, as lembranças do seu filho ainda o assombravam. O passado ofuscava toda sua vida de poder e luxo. E ele sempre acreditou que a irmã de Diabolô tivesse tido pena do irmão e só puniu seu filho: “aquele corpo não era dele, tenho certeza. Hoje me vingo daquela cadela dos infernos”.

O irmão do Diabolô sabia dos traumas do pastor. Então usou isso a seu favor.

Os irmãos de Enzo já estavam na pequena igreja dentro de um complexo periférico. Eles exploravam a carência das pessoas e dessa forma estabeleceram um hegemônico grupo criminoso.

Não só os dois, o pastor também era uma figura importante na hierarquia da facção, além do cunhado do Diabolô; que vislumbrava uma carreira política.

E todos trabalhavam pra que esse projeto desse certo.

Dionísio e ‘PF’ estavam nervosos. Já haviam vasculhado o quarto do amigo desaparecido e não sabiam mais o que fazer.

Já era hora de conversar com aquele que dizia ser o irmão do Diabolô (Leia capítulos I, II e III).

Então saíram da parte interna do bar e foram até o balcão. Lá encontraram aquele homem que mexia em tudo e jogava muitas coisas no lixo.

– Ei, você é mesmo irmão do Diabolô? – perguntou Dionísio.
– Enzo. Seu nome era Enzo.
– Era? – se surpreendeu ‘PF’.
– Sim. Era. Enzo está morto.
– Como é que é? Seu… – Dionísio pensou em ir pra cima daquele homem, mas foi contido pelo seu namorado.
– Calma! Como assim está morto? Queremos saber de mais detalhes, ele era nosso amigo.
– Ele nunca comentou comigo que tinha amigos. De qualquer forma, sim, ele está morto. Foi atropelado, quando foi visitar nossa família em Brasília. Já foi até enterrado. Esse bar, por exemplo, ou melhor, este estabelecimento, é meu. Eu dei pra ele.

O casal ficou chocado. Foi então que ‘PF’ perguntou:

– Mas isso faz quanto tempo?
– Alguns dias.
– E você vai continuar com o bar?
– Não, aqui vou montar minha igreja.
– Quer dizer que vai jogar todas essas coisas fora? – continuou ‘PF’.
– Sim.
– Bom… se vai jogar fora, você não vai se incomodar se nós pegarmos algumas lembranças, não é?
– Não. Pode pegar, depois vão embora, pois tenho muita coisa pra fazer aqui nessa espelunca.

O casal estava chocado, mesmo assim, começaram a recolher os objetos. Com lágrimas, fizeram o que tinha que ser feito e foram embora.

Hoje, nada é como se vê…
Barulho de tiro?
Não queira conhecer
Lá naquela igreja
Nem consegui me mexer

Quando vi, meu irmão me puxou
E eu fui pro chão
Ele disse: “segure a minha mão”
Depois…
Afirmou que me salvou

Até agora não sei
Se foi isso que realmente rolou
Até porque, que diferença isso faz?
Estou no corredor da morte
E é ele que me traz

Lembro que…
Quando o pastor entrou
Sua arma apontou
Já no primeiro disparo
Minha irmã ele matou

Quando levantei
Com todo aquele zumbido
Vi o pastor todo ensanguentado
Meu irmão disse pra eu fugir
E eu desesperado, correndo saí

Agora eu sei
Ele colocou alguém pra me seguir
Por isso é que estou aqui
Contra minha vontade
Pronto pra partir

A tocaia foi feita
Da maneira mais perfeita
Estou imobilizado, fui usado
E agora vem a sentença

Não deu, meus amigos
Perdi foi pro meu irmão
Que nunca se sabe o que realmente faz
O que se sabe, é que como tantos outros,
Impune, mente em paz

Pátria Amada, é pra você esta canção
Desesperada, canção de desilusão
Não há mais nada entre eu e você
Eu fui traído e não fiz por merecer

 

Pátria Amada, cantei hinos em seu louvor
Mas tudo o que fiz de nada adiantou
Na boca amarga ainda resta esse refrão
Que diz pra morrer por ti e não importa a razão

 

Pátria Amada, como pude acreditar
Em palavras vazias e promessas soltas no ar
Pátria Amada, você me decepcionou
Quando eu lhe pedi justiça você me negou

 

Pátria Amada, de quem você é afinal
É do povo nas ruas ? Ou do Congresso Nacional
Pátria Amada, idolatrada, salve, salve-se quem puder!

Diabolô foi executado. Seu irmão foi quem entrou no ônibus e voltou pra Curitiba.

Foi um plano que deu certo. Usou de uma manobra pra começar outro negócio, pois só ele sabia que Diabolô vivia escondido em Curitiba.

No fim, o pastor matou sua irmã e ele matou o pastor, pois sabia que aquele homem apareceria pra saber do seu filho; tinha esperança, pois de tantas vezes que iludiu outras pessoas, acabou condenado por acreditar na sua própria ilusão.

No meio de tudo isso estava Diabolô, que guiado por traumas e ódio, buscou seu fim. Sua escolha beneficiou aquele que já planejava daquela cidade sumir.

Seu irmão tirou proveito de toda uma situação e ainda por cima colocou outro corpo, como se fosse o dele, naquele terrível cenário.

Meu ódio nasceu desajeitado
Que nem filho rejeitado
De pai desconhecido
Meio pródigo
Meio bastardo

 

Meu ódio
Um ser indefinido
Nem polícia nem bandido
Só o conheci quando refletido
Nos olhos do inimigo

 

Mas nem sempre foi assim
Houve um tempo em que eu gostava de mim
Vivia livre pelas madrugadas
Com anarquia e Maiakovski eu me embriagava

 

Mas um dia amaldiçoado
Cometi um pequeno pecado
E todo mundo se afastou de mim
Perdi amigos, a paz
E tudo enfim

 

Eu só queria uma canção refrão
Que pudesse
Uma canção pra me fazer esquecer

 

E eu sem entender nada
Vaguei que nem alma penada
Pelos subterrâneos da cidade
Entre a loucura e a promiscuidade

 

Foi assim que nasceu meu ódio
Se arrastando pelo asfalto
Feroz que nem bicho acuado
Cercado por todos os lados

 

E eu pensei que fosse o fim
Que não havia mais
Saída pra mim
Eu não sabia que era assim
Mas meu inferno
Eu mesmo que fiz

 

Quando eu vi meu rosto suado
Refletido no asfalto molhado
Percebi que não havia pecado maior
Percebi que não havia pecado

 

Ainda havia uma chance pra mim
Se eu não achasse que era o fim
Pois nem tudo termina assim
Ainda há tempo pra esquecer

 

Dionísio e ‘PF’ escutam a música “Canção para esquecer”, da banda Inocentes, que está no álbum “Subterrâneos”, lançado em 1994. Diabolô tinha essa gravação em CD.

O casal manteve a conexão com o falecido amigo através das músicas. Eles nunca souberam o que realmente aconteceu.

Quando passam por onde antes era o bar do amigo, encontram uma pequena igreja comandada pelo irmão do falecido.

O cunhado do Diabolô provavelmente irá se eleger vereador e terá uma carreira política promissora.

A crônica musical “O sumiço de Diabolô” tem quatro capítulos. Relembre os três primeiros:

Capítulo 1 – Inocentes

Capítulo II – Ele Disse Não

Capítulo III – Intolerância

Diabolô é um personagem constante nas crônicas musicais de Regis Luís Cardoso. Confira aqui tudo o que ele já publicou no Terra Sem Males na sua coluna LP.

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