O sumiço do Diabolô: Capítulo II – Ele disse não

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Por Regis Luís Cardoso
LP – Crônicas musicais
Terra Sem Males

Venho por meio desta, com sua permissão, apresentar-me como Diabolô. Uso desse nome, pois assim sou conhecido.

Como eu vim parar aqui?

Em uma breve análise, vi que já era hora de chegar com os dois pés na porta, definir uma metodologia e esquecer que um dia pensei que isso fosse tarde demais.

Olhar pra trás e ver os estilhaços. Saber que essa explosão se espalhará pelo chão, atemporal e num só movimento.

Agora já não me vejo mais parceiro da minha ‘autosociedade’. Minha consciência tenta clamar uma volta, mas não tenho mais hora pra voltar! Vou agir sozinho.

Fiz da minha vida um contrato falso. Com cláusulas desconfiadas, cercado de pessoas que se mantém cúmplices de tudo.

Os segundos podem ser curtos, mas a intensidade do que vier a acontecer pode redirecionar nossas vidas.

Cansado de falar sozinho e blasfemar meu ódio à sociedade, aqui vou eu… pois ainda há tenho tempo pra me vingar.

Com lágrimas Dionísio e Porco Fumo leem os manuscritos do amigo espalhados pelo quarto. Diabolô havia sumido e ninguém sabia seu paradeiro (leia capítulo I).

Porém, após uma triste caminhada de averiguação cotidiana, mesmo que desanimados, em direção ao bar; tiveram uma surpresa: a porta estava aberta!

Era o que eles precisam, do “Bar do Diabolô”.

Quando entraram viram uma outra pessoa. Se apresentaram e aquele homem revelou-se o irmão desconhecido do sumido amigo. Ele estava empilhando as coisas. “Diabolô não voltará” – disse ele.

Depois do choque, os amigos tiveram permissão pra entrar nos cômodos escondidos daquele lugar.

Foi então que se depararam com frases escritas nas paredes do quarto do amigo, garrafas vazias pelo chão, livros jogados, discos quebrados. Mas o que mais intrigou os amigos foram os manuscritos.

– Alô.

– Fala Djou, beleza?

– Beleza. É quem?

– É o Diabolô.

– E aí, o que manda?

– Eu quero aquele brinquedinho. Preciso fazer uma viagem e vou levar…

– Ok. É só passar aqui com a grana e pegar, meu chapa.

– Claro. Até mais.

Diabolô foi até um sítio no interior de Curitiba encontrar um antigo camarada. Ele estava disposto a comprar uma Glock Calibre 380.

Sou uma máquina, desgovernada, indo em sua direção, em rota de colisão, em rota de colisão” – Diabolô cantava mais uma música do Inocentes.

“Foda-se se Eduardo Cunha recebia propina por suas atividades ilícitas

Não me importa se Bolsonaro é e tem fieis fascistas e Feliciano também

Ou se Romário protege Eurico Miranda e é só mais um palhaço, igual ao Tiririca”

Os amigos liam coisas bizarras e começavam a se surpreender com tanto ódio.

– Onde será que esse cara se meteu?

– Não sei Dionísio. Você sabe que eu sei tanto quanto você. Que saco, pare de repetir essas mesmas perguntas de merda.

– Calma cara. Isso aqui já é muito ódio em uma pessoa só!

– Depois de acabarmos aqui vamos até o irmão dele matar nossa curiosidade.

– Mas ele não quis dizer nada!

– Uma hora ele vai ter que abrir o bico; ou então não sairemos daqui.

O nervosismo abalara ambos. Eles se perguntavam sobre o amigo, mas não sabiam nem das raízes de Diabolô; muito menos se aquele cara que estava no bar era realmente seu irmão.

– Cara, você é o único que pode me ajudar.

– O que você ainda quer de mim?

– Eu preciso de ajuda. Tudo voltou!

– O que você ainda quer de mim? Já te dei um bar. Já te dei dinheiro. O que você ainda quer de mim?

– Você é meu irmão, é a única coisa que ainda me resta.

E o telefone desligou.

Diabolô já não tinha mais chão. Todos os problemas misturados  com a realidade fizeram o passado vir a tona, as lembranças voltaram.

O plano de Diabolô era algo amador. Era como um ataque terrorista. Como um blitzkrieg nazista chapado do metanfetamina e armado com uma Glock.

Mesmo assim, comprou sua passagem pra Brasília…

E lá foi ele com sua arma, uma confusão em sua cabeça e todo o rancor que uma pessoa pode carregar na bagagem.

Diabolô entrou no ônibus, ainda estava sozinho na poltrona; e sem explicação começou a chorar. Logo depois, uma senhora de idade se aproximou, ofereceu um lenço e também se sentou.

“Está tudo bem? Pelo jeito teremos uma longa viagem” – disse ela.

PF olha pra Dionísio e fala com lucidez:

Olha cara, essas coisas que estamos lendo são tão loucas que fico assustado. Será que ele foi fazer alguma besteira? Eu sinceramente espero que não. Espero que ele esteja vendo que nada vale a pena, que tudo é falso. Olha tudo que estamos vendo! O show de horrores não tem fim. O Temer tirou de tramitação urgente as pautas contra a corrupção e ninguém está faz nada. Nós não fizemos nada!

Se todo aquele alvoroço do povo, nos últimos anos, era contra a corrupção, o que está acontecendo? Por que esse silêncio da sociedade? A prioridade não era o combate a corrupção? Ninguém reage.

Não sei o que dizer. Se eu fosse um serial killer, estaria deprimido, pois faltaria munição pra me vingar de tanta gente estúpida. Será que ele viu o Cunha chorando?  Será que ele está vendo toda essa conspiração pra salvar esse bandido?”.

Estava na hora de resolver algumas coisas.

Foi quando os dois amigos levantaram e foram em direção ao que disse ser irmão do Diabolô.

– São lágrimas sinceras de quem não acredita mais em promessas – disse Diabolô a senhora ao seu lado.

Então o ônibus ligou. Ele olhou a paisagem em movimento. Sabia que sua decisão era uma porta fechada pra vida; porém o que não sabia é que a vida pode estar pro lado de dentro da janela, bem ao nosso lado.

Ele apenas se recusou

Antes que fosse tarde demais

Pois sabia que se aceitasse

Não poderia voltar atrás

Em seu olhar estava a resposta

Mas ninguém conseguiu entender

E ficaram a se perguntar

Por que?

 

Ele disse não!

 

Ele próprio fechou suas portas

Ele próprio se proibiu

E ninguém conseguiu entender por que

Ele disse não!

 

Ele nunca iria aceitar

Que suas palavras se perdessem no ar

Queria que elas fossem livres

Sem regras para as governar

Não queria se prostituir

Não queria se enganar

Decidiu então se calar

 

Ele disse não!

 

Muita coisa podia ter mudado

Mas ele nunca ia se perdoar

Se perdesse o controle das coisas

E acabasse por se entregar

Queria fechar os olhos e dormir

Olhar no espelho e poder se ver

Não queria participar dessa farsa

Como eu

Como você

 

 

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