O sumiço do Diabolô: Capítulo III – Intolerância

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Por Regis Luís Cardoso
LP – crônicas musicais
Terra Sem Males

 

Qual sua cor?
Qual sua religião?
Qual a sua ideologia?
Qual a sua nação?
Qual seu nome?
De onde você vem?
Sua classe social?
Quanto dinheiro tem?
Será que isso importa?
Eu quero uma resposta!
Enquanto isso
Neonazis de armas na mão
Espancam e humilham
Um pobre cidadão

 

Não ao racismo
E a discriminação
Não a miséria e a fome
Falsa libertação
Não ao neonazismo
E a ignorância
Não a desgraça coletiva
Não a intolerância
Cruzes queimam no seu jardim
A Guerra Santa já começou
Estrangeiros mortos em Berlim
Nova York, Paris, Londres e Moscou
É a solução final
Conflito racial
Entenda isso se for capaz
É na diferença que nós somos iguais

 

Será que é necessário que nos matemos
Não utilizamos a inteligência que temos
Voltados uns contra os outros
Mate o seu próprio povo
E aí o sistema
Te vence de novo
Não seja um pilantra
Patife, canalha
Não deseje o mal
Não mande o seu filho pra vala
Não destrua o futuro
Pensando em vingança
Genocídio ou suicídio
É intolerância!

 

Intolerância
Não, não…

(*Inocentes – Intolerância).

– Ele tá vindo.
– Ele quem?
– O idiota do nosso irmão.
– O quê?
– Sim, me ligou. Já pegou o ônibus pra cá.
– Meu deus…
– Pois é…
– Falei pra você! Mas não, preferiu ajudar.
– Eu sei disso… se arrependimento matasse…
– É… mas podemos morrer por causa desse merda. Então acabe com ele.
– O quê?
– Isso mesmo, acabe com ele
– Eu não posso fazer isso. Não consigo ir tão longe. Da outra vez já não consegui.
– É… daquela vez eu deveria ter resolvido.
– Pode até ser… só sei que eu não consigo.
– Mas eu consigo. Me mantenha informada. A chegada desse imbecil pode atrapalhar as nossas coisas. Esqueceu da política? E que até hoje o pastor arrependido ora pela alma do seu filho e do nosso irmão?

– Então moço… qual é a sua graça?
Diabolô tinha enxugado suas lágrimas com o lenço que sua ‘vizinha’ de poltrona oferecera.
Depois de um longo silêncio, foi questionado:
– Meu nome é Enzo. Enzo Lino.
– Prazer Enzo. O meu é Maria da Graça.
– Prazer…  –  e deram-se as mãos.
– Olha moço. Preciso ir direto ao assunto, nunca me aconteceu de chegar num ônibus e ver um homem chorando igual criança. Acho que qualquer um gostaria de saber o que é que aconteceu! Não é?
– É.

Fez-se um silêncio, brevemente interrompido por Maria.
– Pois então  ‘homi’ de deus, desembuche logo!
– Olha senhora, eu gostaria de não falar disso…
– Olha aqui… você pode até mentir pra mim, mas alguma coisa terá que falar. Como é que eu vou dormir? Não sei nem quem está ao meu lado. Imagine! Se coloque no meu lugar. Vai viajar e, sem mais nem menos, encontra um marmanjo chorando desesperadamente… o que você quer que eu faça?
– Desesperadamente também não né, não precisa exagerar…
– Desesperadamente sim senhor…
– Olha aqui… tudo bem. Calma. Eu não vou machucar a senhora.
– Então desembucha logo; ou vou falar com o motorista…
– Não não! Imagina. Já disse… calma… é que o assunto me deixa um pouco confuso e triste.
– Percebi. Mas não adianta moço… é sempre melhor desabafar.
– Bom… não sei por onde começar…
– Com isso eu posso te ajudar: comece dizendo o motivo de estar dentro deste ônibus…

(capítulos I e II).

– Como é o seu nome de batismo ‘PF’? – perguntou Dionísio, enquanto descansavam na cama.
-Hum… Já é hora de você saber, né?
– É – e ambos sorriram e trocaram carícias.
– Meu nome é Otávio, mas quero que você continue me chamando de ‘PF’.

Quando os dois amigos se aproximaram pra tratar do sumiço de Diabolô, sem perceber, passaram a se ver todos os dias. Com o tempo, o principal motivo pra estarem juntos já não era mais o amigo. Não era mais uma simples reunião pra desvendar um mistério.

A sensação foi reciproca e depois de algum tempo se enganando, Dionísio e Otávio formaram um casal.

– O amor é uma coisa louca, né? Quando nós imaginaríamos que depois do desaparecimento dele, viraríamos namorados?  – perguntou ‘PF’.
– Nossa, é verdade. Como será que ele iria reagir?
– Olha, eu acho que seria da melhor forma possível. Nunca disse nada, mas as vezes eu até desconfiava que ele curtia ‘homi’…
– Ué… Por que?
– Sei lá… vai ver é meu sexto sentido.
– Hum… até parece…

Diabolô não sabia o que dizer. A única certeza era de não dizer a verdade…

– Bom… estou indo pra Brasília participar de uma manifestação contra esses políticos corruptos. Esses deputados preconceituosos, que beijam a bíblia quando acordam e pisam na cabeça das pessoas enquanto caminham.
– Nossa! Jesus Ave Maria José! – se espantou aquela mulher; que continuou: “mas qual o motivo de tanta raiva nesse coração?”.
– É difícil dizer… é uma mistura de revolta, ódio, vontade de mandar todo mundo a merda, sabe. É difícil. Não sei exatamente o motivo… só seu que eu fico puto.

Diabolô, na verdade, entrou naquele ônibus com o único e exclusivo motivo: vingança. É claro que ele não revelaria, por exemplo, que seu pai era um ‘homem que bebia demais’, que também batia, abusava, etc. Não escapou ninguém. Nem Diabolô, nem seus irmãos e nem sua mãe.

– Querido! Pra tudo nessa vida tem um motivo. Até pra crucificar Jesus eles arrumaram um motivo.

Diabolô lembrou que Jesus foi o principal argumento pra sua família sair do buraco.
Sua irmã se casou com o chefe do tráfico na região periférica de Brasília. Agora eles tinham um novo ‘pai’.
Você pode se perguntar: mas onde entra Jesus nessa história?

Quando os dois irmãos do Diabolô, ao lado do cunhado, viram que a polícia estava na ‘cola’, conheceram umas pessoas do ‘ramo da religião’. Elas faziam uma espécie de “processo seletivo” nas favelas e presídios da região; a família do Diabolô aceitou o recrutamento.

A grande verdade era que todo aquele processo de “mudança religiosa” só serviu pra aumentar o poderio deles. Lavavam dinheiro, traficavam e propagavam uma falsa ideia de salvação.

– É verdade. Realmente Jesus deve salvar. O que mais se ouve lá em Brasília é político bandido louvando ao senhor Jesus, não é? Todos anjinhos glorificando o senhor. Todos os dias são marteladas e mais martelados no corpo de Jesus Cristo… todos os dias a hipocrisia consegue escrever ‘torto por linhas retas’, todos os dias…

– Moço! – interrompeu a mulher. “Pare de blasfemar. Os irmãos que lá estão, com toda a certeza desse mundo, seguem a palavra de deus.

Diabolô resgatou algumas imagens das festas na sua casa. Lembrava dos pastores cheirando cocaína e transando com prostitutas. Lembrava das armas escondidas nas igrejas. Lembrava da sua mãe adoecendo.

– Sim, você está certa. É por isso que eu vou pra Brasília, pra ficar ao lado de quem defende a palavra do senhor. A palavra da salvação.
– Sabe meu amiguinho, tudo nessa vida se resume ao amor…

“AMOR!”.

Essa palavra bateu forte no coração do Diabolô. Veio a imagem do seu primeiro namorado. Seu grande amor.

Logo em seguida, vieram as manchas de sangue.

“Vá embora, nunca mais volte, seu gay nojento” – gritou seu irmão, ao descobrir que Enzo mantinha uma relação homossexual com o filho de um dos pastores da igreja.

Então lembrou-se do barulho do tiro…

“Eu deveria ter ficado e morrido”, pensava consigo.

O irmão de Diabolô o deixou com dinheiro e prometeu ajuda-lo, se fosse embora e nunca mais voltasse.

Enquanto fugia… escutou a execução do seu primeiro e único amor.

Na cabeça do pastor, pai do seu namorado, os dois haviam morrido. Por isso a chegada de Diabolô poderia complicar as coisas para os seus irmãos.

– A senhora é ‘a face de deus’.

A cada quilômetro rodado, a fúria daquele homem aumentava.

Diabolô percebeu que era melhor pensar.

Afinal, sua chegada significava a volta de um defunto.

E como explicar a volta de um cadáver?

 

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