O sumiço do Diabolô: Capítulo 1 – Inocentes

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Por Regis Luís Cardoso
LP – Crônicas musicais
Terra Sem Males

Capítulo I – Inocentes

Dionísio e ‘Porco Fumo’ estão preocupados. A bem da verdade é que estão desesperados! Uma dupla sem rumo.

Mas esse desespero todo tem um motivo: o sumiço do Diabolô.

– Porra ‘PF’, quantos dias já deu?

– Deu o quê?

– Os dias…  – respondeu Dionísio.

– Sei lá.

Eles falavam sobre o tempo de sumiço do Diabolô, dono do boteco favorito da dupla.

“Será que tem alguém  que sente falta de mim?”, pensava Diabolô, pitando seu cigar.

Da janela de um apartamento perto da rodoviária de Brasília, aquele homem se preparava pra voltar.

Diabolô pegou sua mochila, trancou a porta do quarto do hotel e caminhou até a recepção.

Pesadelo

 

Quando o muro separa uma ponte une

Se a vingança encara o remorso pune

Você vem me agarra, alguém vem me solta

Você vai na marra, ela um dia volta

 

E se a força é tua ela um dia é nossa

Olha o muro, olha a ponte, olhe o dia de ontem chegando

Que medo você tem de nós, olha aí

Você corta um verso, eu escrevo outro

Você me prende vivo, eu escapo morto

 

De repente olha eu de novo

Perturbando a paz, exigindo troco

Vamos por aí eu e meu cachorro

Olha um verso, olha o outro

Olha o velho, olha o moço chegando

Que medo você tem de nós, olha aí

 

O muro caiu, olha a ponte

Da liberdade guardiã

O braço do Cristo, horizonte

Abraça o dia de amanhã

 

Olha aí…

Olha aí…

Olha aí…

 

Quando o muro separa uma ponte une

Se a vingança encara o remorso pune

Roce vem me agarra, alguém vem me solta

Você vai na marra e ela um dia volta

E se a força é tua ela um dia é nossa

 

*Letra e música do compositor Paulo César Pinheiro em parceria com Eduardo Gudin. Um marco da MPB e não tão famosa quanto deveria (nota do autor).

– Caralho irmão, não sei não… será que falamos com a polícia?

– Acho melhor procurar os familiares antes.

– Pode ser… mas mano, não sei nem o sobrenome do Diabolô! – disse Porco Fumo, também conhecido como PF.

– Pois é cara, pra você ver como é importante saber o nome das pessoas. O seu, por exemplo, eu não sei… hahaha – revelou Dionísio.

Dionísio e Porco Fumo falavam ao celular. Isso ficou mais frequente após o sumiço do Diabolô.

Estava tudo confuso, um sumiço é sempre um sumiço.  Muitas coisas surgem quando uma coisa some.

Os amigos se encontravam quase todo dia no bar do Diabolô. Porém naquela segunda feira, um dia após o histórico show de horrores no Congresso Nacional, a dupla parou em frente ao rotineiro bar e se deparou com as portas fechadas.

Nenhum sinal. Nenhuma explicação. E o tempo passou. Os dias passaram e as noites não foram mais as mesmas.

Sim. Não. Deus. Jesus. PT. PSDB. PMDB. PP. Partidos. Políticos. Corrupção. Lava isso, lava aquilo. Operação. Juiz. Moro. Mensalão. Petrolão. Dilma. Impeachment. Lula. Temer. Cunha. Dinheiro. Dinheiro. Dinheiro. Dinheiro. Dinheiro. Dinheiro. Dinheiro. Dinheiro…

Palavras escritas na porta do banheiro da casa do Diabolô, pelo próprio; com uma faca.

Agora, sentado num banco da rodoviária de Brasília, Diabolô sabe que muita coisa mudou. Até o governo não é mais o mesmo. Porém, o mais importante, é que aquele homem que resolveu subitamente viajar pra capital federal, também está diferente.

Tudo começou no dia 17 de abril de 2016

Diabolô estava em estado de choque após assistir a votação dos deputados federais. Naquele dia o Congresso Federal já abriu num dia atípico – domingo.

Uma transmissão. Uma votação. Um dia importante pra história. A votação do impeachment da presidenta Dilma foi televisionada. Foi ao vivo.

Após assistir tudo aquilo, tomou conta do seu corpo um sentimento insuperável de descrença. Aquela angustia e desesperança ficou tão evidente que Diabolô simplesmente vegetou. Paralisou!

Não se mexeu a partir daquele dia. Não saiu da cama. Não acendeu a luz. Desligou todos os aparelhos eletrônicos. Um colapso. Tilt. O bug diabólico do Diabolô.

A única coisa que funcionava era seu pensamento. Suas lembranças. Mas no campo da realidade, era como se o mundo começasse naquele instante. Era como se o universo dele iniciasse pela escuridão e das sombras tivesse nascido. Parido pela obscuridade.

Diabolô não sabia mais se levava sua vida da forma que deveria. Se estava no caminho certo. Não sabia se ter um bar era realmente o que queria. Não sabia mais de nada.

Lembrava que tinha um avô dono de bar que sempre reclamou dos impostos neste país e após décadas isso não mudara! Mas não eram somente as taxas que o incomodava.

A imagem de parentes e pessoas próximas o ofendendo por ter um pensamento humanista o deprimiram em uma proporção sem tamanho. O descrédito no olhar das pessoas que o julgavam como colaborador das mazelas corruptas de um país historicamente corrupto o derrubaram.

Pensava consigo – “A educação falhou! Não é novidade saber que um povo ignorante é tudo que qualquer estrutura deseja. Me parece que o Brasil é um prato cheio”.

Os sinais de depressão vieram mais nitidamente quando chorou ao ter em mente lembranças tão vivas das ofensas vindas de pessoas que antes ele queria por perto. “Como essa politicagem pode me influenciar desta forma? Eu devia estar fortalecido e com motivos pra lutar, mas estou infeliz e incapaz de dar um passo pra fora da minha casa!” – seus olhos brilhavam no escuro.

Diabolô se remói quando lembra das pessoas queridas que pensam diferente dele (não pelo fato de pensarem diferente, pois isso ele acha ótimo), o que dói pra ele são as palavras e atitudes de menosprezo pra depreciar seu pensamento; principalmente dentro da sua própria família.

Sim, é isso mesmo. Diabolô tem dois irmãos. Um deles quer explodir o PT com discurso de ódio, mas quando está sem dinheiro, pede ajuda financeira pra sua tia petista, que é professora aposentada. A outra faz a mesma coisa: quando está sem dinheiro, recorre aos pais, de esquerda, que sempre foram da classe trabalhadora.

A verdade é que ele já não sabe mais em que mundo se encaixa. Sua caixa está fora da casinha.

Então Diabolô volta a rabiscar. Pega sua faca, herdada pelo seu avô; que também foi dono de boteco, e escreve na parede do seu quarto algumas frases que lhe vem a mente. São pequenos trechos de letras da banda paulista Os Inocentes.

Você me prende vivo e eu escapo morto” – Diabolô escreveu a frase da música Pesadelo. Um cover do Inocentes pra música já mostrada no início deste texto. Neste momento sua ideia do “tudo ou nada” começa a aflorar.

Depois desfilam impunes pelas colunas sociais” – a música Vermes, do álbum Ruas (1996) é de uma atualidade incontestável. E ela motiva Diabolô a começar sua jornada de raiva.

A raiva vai nos salvar” – é a cereja no bolo. Agora nosso personagem começa a entender o que sente e vai em busca da sua salvação. Também do álbum Ruas (1996), uma música de autoajuda pra Diabolô: “mentiras viram cacos de vidro”.

“Ninguém é inocente hoje em dia. E antes que o cansaço me derrube, vou cumprir minha missão; essa que já tem sua trilha sonora” – Diabolô.

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