O vendedor de peixes

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Por Pedro Carrano
Terra Sem Males

Desde aquele outubro de eleições, seu Raimundo não parou mais de falar de política no bairro. Virou um agitador.

A confiança pra nova vida de incendiário surgiu na carreata dos apoiadores do governo. Foi quando o homem se inflamou, deixou o balcão da sua peixaria e soltou o grito preso na garganta:

– Ladrões filhos das puta!

Desde então, o comércio de Raimundo está cheio de fotos, bandeiras do Brasil e capas de jornais na parede. O velho conversa e quer saber se cada cliente vai ao ato de domingo. Fica irritado se alguém se justifica:

– “É o único dia de descanso, no outro dia já tem serviço. E está pesado, seu Raimundo. Eu não vou atravessar a cidade até o centro, nem morto”.

Pensou em procurar a associação de moradores do bairro, mas ela já pertencia ao outro lado. Detestava essa gente mais do que a torcida do time adversário. Começou a espalhar pra todo mundo que a associação recebia dinheiro de empreiteiras, do governo e das centrais sindicais. Odiava ainda mais o seu Osmar, antiga liderança do bairro, que havia sido candidato pelo partido dos vermelhos, dos comunistas, dos governistas.

Mas Raimundo se frustrava porque ninguém se dispunha a formar um grupo contra o seu Osmar. Todos no bairro achavam que o velho sempre fez um trabalho dedicado.

No seu comércio, Raimundo decretou que não venderia mais peixe para o outro lado. A esposa e os funcionários é que ponderavam, não deixavam o velho tomar essa atitude considerada radical – outra das palavras que aprendera a odiar e repetir. Tinham vários amigos no bairro. A atuação de Raimundo começava a deixá-los isolados.

Se a filha compartilhasse no facebook alguma coisa em favor do governo, ai dela. Raimundo achava que a juventude sempre era das revoltas, não entendia por que ela andava tão calma naqueles dias. A filha tinha perdido aquela empolgação da luta da passagem do ônibus de 2013, quando ela os amigos pareciam quase mudar o Brasil.

Osmar, José e mais o Zé Renato se encontravam na peixaria às 20h30 todas às noites, ligavam o jornal nacional e conspiravam à vontade. A inflação, o desemprego, o endividamento do governo: estava tudo ali, mas por que ninguém no bairro fazia alguma coisa? Podiam formar uma associação de comércio local?

A situação no país se acirrava. O processo de impeachment ainda ia demorar até a metade de abril para ser votado. Seu Raimundo se sentia mais ansioso.

É fato que a crise está pegando e, na Páscoa, Raimundo decidiu vender Polaca do Alaska no lugar do bacalhau, cada vez mais caro no mercado. Seria algo tranquilo, já que os dois peixes são muito parecidos, e vendendo em pedaços ninguém iria reparar. O bacalhau está impossível, subiu 30 por cento do ano passado pra cá. Confidenciou a manobra aos amigos, responsabilizando o governo brasileiro pela sua atitude.

Recebeu como resposta a desconfiança, vender um peixe se passando por outro? Boa coisa não ia dar… e se alguém descobrisse?

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