#OcupaParaná: Foi numa experiência libertária que ele se politizou

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Passado mais de um ano das ocupações dos estudantes paranaenses, Leonardo Costa, 18 anos, credita seu atual momento, de militância política, àquelas ações do movimento estudantil

A palavra ‘ocupação’ remete a tomada de um específico espaço físico com o objetivo de criar uma esfera libertária. E hoje, principalmente devido à narrativa da grande imprensa, que usa termos como ‘invasão’ e ‘desordem’ para menosprezar as ações diretas dos estudantes, é comum o estado criminalizar protestos, inclusive por melhoras na educação. Mas esse texto não tem o objetivo de questionar a narrativa da grande mídia ou a força repressiva das autoridades, mas sim mostrar como o #OcupaParaná, ocorrido em outubro de 2016, nas escolas paranaenses, mudou a vida de uma pessoa. 

Quando o estudante Leonardo Costa (18) foi visitar uma ocupação, em Campo Largo, um novo mundo se abriu. “Até então eu era contra. Mas fui ver como era. Foi aí que começamos a entrar nas ocupações”, conta o jovem. Leonardo veio até a redação do Classe T para falar um pouco sobre sua experiência durante o #OcupaParaná, em Campo Largo, onde dez colégios foram ocupados e dois totalmente paralisados pelos estudantes. 

Leonardo lembra que as ações tomaram grandes proporções, rolou até uma ‘ocupação simultânea’, como se tudo tivesse sido orquestrado. “Foi um negócio muito ‘massa’. Foi praticamente ao mesmo tempo!”, recorda, se referindo ao Colégio Macedo Soares, que foi ocupado seis minutos antes do CAIC. Ele explica ainda que aproximadamente 200 pessoas, entre estudantes, professores, pais e simpatizantes, participaram das ações na cidade da Região Metropolitana de Curitiba. 

Passado um ano… 

“Hoje eu vejo que aquilo foi um empoderamento do movimento estudantil. Agora eu pauto minha vida nesse movimento e as ocupações me ajudaram muito nisso”

– Leonardo Costa 

Revolução 

Esta palavra, de forma comum, pode ser definida com uma mudança abrupta, ou seja, uma mudança repentina. Sabe aquela expressão: “mudou da água pro vinho”? Pois então, a sequência de revoluções na vida dos estudantes de Campo Largo é facilmente notável. Até porque, após as ocupações, surgiu a UCES (União Campolarguense de Estudantes Secundaristas), um coletivo que defendem uma escola pública de qualidade e tem o objetivo de levantar debates como a luta do movimento negro e das mulheres. 

Para Leonardo Costa, que atualmente é bolsista e faz o curso pré-vestibular no Dinâmico, em Curitiba, as ocupações fizeram com que ele se sentisse parte da escola. 

“Quem organizava o colégio éramos nós, quem limpava o colégio éramos nós, quem fazia comida no colégio éramos nós. Isso criou um amadurecimento nos estudantes”

– Leonardo Costa

Depois das ocupações, Leonardo entrou de cabeça no movimento estudantil. Quando questionado sobre “o que pretende fazer no futuro?”, ele foi categórico: “pretendo estudar História”. Hoje, além de estudar pra se tornar historiador, é Diretor de Grêmio da União Campolarguense de Estudantes Secundaristas (UCES) e Diretor de Comunicação da União Paranaense dos Estudantes Secundaristas (UPES). Mas na época, Leonardo definia as ocupações como “uma loucura dos estudantes”. 

Atualmente ele entende que as ações representaram “um empoderamento do movimento estudantil”. “Pauto minha vida nesse movimento e as ocupações me ajudaram muito nisso”, explica Leonardo. Um dos resultados mais expressivos do ‘pós ocupação’, em Campo Largo, foi a mudança na ‘agenda estudantil’ na cidade:  

“Aqui o movimento estudantil não estava mais pautando a vida dos estudantes e as ocupações vieram pra isso. Tanto é que após as ocupações criamos a UCES – União Campolarguense de Estudantes Secundaristas. A gente vai aos colégios e incentivamos os estudantes na criação de grêmios estudantis” 

– Leonardo Costa

O estudante também teve que responder “o quê, de fato, o #OcupaParaná mudou na vida dele?”. Foi então que ele recordou com empolgação sua participação no Encontro Brasileiro de Grêmios Estudantis, realizado pela União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES), em Fortaleza (CE). Na oportunidade ele esteve ao lado de aproximadamente quatro mil estudantes que reivindicavam uma escola pública de qualidade: “esse é o movimento estudantil. Queremos um colégio que debata gênero, religião e políticas públicas”. 

Outra paixão que veio depois das ocupações foi pela leitura:

“Leio de tudo um pouco. Um cara que é bastante influente é o Paulo Freire. Ele tem uma visão moderna pra educação. Ainda hoje ele tem uma visão moderna pra educação” 

– Leonardo Costa

Hoje, o estudante e militante, após um ano do #OcupaParaná, se considera marxista: 

“Minha ideologia é marxista, então eu leio bastante Karl Marx. Leio os revolucionários: Che Guevara, Fidel Castro, pessoas que lutaram por algo melhor. Tenho-os como ídolos, pra ter uma ideia de onde eu quero chegar” 

– Leonardo Costa

 

O estudante deixa claro que todas essas referências vieram após as ocupações:

“Antes da ocupação eu tinha até uma ideológica meio de direita. Mas mais por desinformação. Hoje em dia está tudo jogado na mídia. Não é tudo que sai na Globo que é verdade”

– Leonardo Costa

UCES

Uma das lutas que alimenta a vontade de Leonardo de fazer a diferença em Campo Largo é legitimar o movimento estudantil na cidade. Ele afirma que a militância abrange todos os estudantes, desde escola pública até particular. Inclusive, a União Campolarguense dos Estudantes Secundaristas (UCES) tem chamado jovens dos colégios particulares pra participar do movimento. 

O estudante também explica que a estrutura do movimento estudantil está organizada de forma hierárquica. Há a União Brasileira (UBES), a União Paranaense (UPES), a união municipal, no caso a UCES, além dos Grêmios Estudantis, que ficam dentro das escolas. 

Leonardo, como representante da UCES e também da UPES, vem percorrendo diversas escolas em Campo Largo, mas também em Curitiba e região metropolitana, e define sua geração como “dividida”: 

“Tem uma galera de luta, que participou das ocupações, que tem consciência de classe, e tem a galera que acha que o problema do Brasil é só a corrupção. E não é só isso”

– Leonardo Costa

Sobre política, Leonardo é enfático: é preciso renovação na política. Para ele, o movimento estudantil quer pautar educação nas Câmaras Municipais, mas relata que muitas vezes já foram até barrados de dar continuidade ao debate.

 “Queremos entrar no máximo de lugares que conseguirmos. Lutar pra ter deputados, tanto estaduais quanto federais. Aqui em Campo Largo nós também pretendemos fazer isso”

– Leonardo Costa

Uma das ações futuras do movimento estudantil de Campo Largo é lançar a “Frente dos Estudantes”, que vai pautar a juventude. Segundo Leonardo, a cidade precisa de novas representatividades, com origem na classe trabalhadora.

“Se for parar pra pensar são as mesmas famílias que estão na Câmara ou na prefeitura. Tem vereador que está desde os anos 70! Sempre com as mesmas propostas. A nossa ideia é mudar isso. Levar a pauta da juventude”

– Leonardo Costa

 Momento histórico 

Mesmo com essa empolgação, Leonardo sabe que a atualidade se mostra com diversos obstáculos, tanto para o movimento dos estudantes quanto para a militância progressista. Ao ser questionado sobre a atual onda conservadora que pauta, entre outros temas, a “escola sem partido”, o estudante não foge do debate:

“O problema hoje no debate com os estudantes é que muitas vezes vamos pedir para diretores dos colégios se podemos falar sobre determinados assuntos e somos barrados. Eles dizem que gera tumulto. Que os estudantes não estão preparados para receber esse tipo de assunto”

– Leonardo Costa

Em relação à aceitação nas escolas, o militante explica que há assuntos tranquilos de se conversar, mas ainda se depara com o que considera o principal problema: a desinformação. Leonardo contou uma história de quando ele estava num colégio e resolveu perguntar sobre a redução da maioridade penal aos estudantes.

De acordo com Leonardo, a maioria se posicionou a favor, dizendo que tem muito menor que rouba e se reduzir a maioridade isso vai diminuir.

“Aí eu expliquei que não é bem assim. Hoje o bandido alicia os menores pra trabalhar. Ele recruta o menor de 16 ou 17 anos, por exemplo. Agora, se reduzir a maioridade, ele vai chamar crianças de 14 anos, até menores! E assim vai diminuindo cada vez mais a média de idade. Vai tirando a criança da escola. Ou seja, vai piorar”

– Leonardo Costa

Ocupação 

Na reta final da conversa, o estudante explicou que a revolução em sua vida não foi apenas no sentido de se tornar um militante político ou ler autores revolucionários. Na verdade, dentro das escolas muitas coisas aconteceram e esses relatos merecem ser lembrados.  

“Costumo dizer que aprendi mais sobre história, sobre politica e ciências sociais, nas ocupações. Tinha até uma professora que me dava aula e eu achava-a muito chata. A gente ocupou a mesma escola. Depois das ocupações, tudo mudou”

– Leonardo Costa

O estudante explica que os professores que também ocuparam as escolas passaram a interagir mais com os alunos. Outra questão importante foi a ‘reunião coletiva’, que Leonardo define como ‘aulas mais dinâmicas’.

Resgate 

No dia 03 de outubro de 2016 um grupo de estudantes começou a ocupar escolas em São Jose dos Pinhais. Seis dias depois, com quase 100 colégios ocupados no Paraná, era a vez de Campo Largo. Estudantes começaram a se organizar, conversar com diretores, pais e professores para explicar o motivo das ações: a PEC 241 (que depois se tornou 55). O Projeto tinha como objetivo congelar investimentos na saúde, educação, segurança pública e assistência social, por 20 anos. Outro motivo era a MP 746, ou: a reforma no ensino médio. A Medida tirava várias matérias importantes do currículo escolar, como: sociologia, filosofia, educação física e artes. 

Ao todo foram 20 dias de muita resistência. Em Campo Largo os jovens receberam até intimação do juiz da cidade pedindo que todas as lideranças comparecessem ao Fórum. Depois de quase um mês de ocupações a justiça determinou a reintegração de posse de todas as escolas e acabou com mais de 850 ocupações pelo Paraná. 

Por Regis Luís Cardoso

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