Os primeiros dias do governo golpista

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Por Marcio Kieller
Secretário Geral da CUT/PR e Mestre em Sociologia Política pela UFPR
Terra Sem Males

Foram menos dias do que pensei esperar para escrever esse artigo. Infelizmente estava equivocado e as mudanças anunciadas não são as melhores, principalmente para nós trabalhadoras e os trabalhadores.

Objetivo central que se buscava com o impeachment da Presidenta da República Dilma Rousseff não era o seu afastamento em si. Mas sim o afastamento de todo um programa político que ela representava. E também por ela não estar fazendo nada. Sim, Dilma foi retirada do poder e podemos confirmar pelos últimos acontecimentos por que não estava fazendo nada para impedir que a operação Lava Jato continuasse o curso que estava tomando de atingir não somente o PT, como queriam alguns, mas também abranger outros partidos políticos e as pessoas que se locupletam através das as artimanhas da corrupção. A desculpa econômica, outra peça de ficção combinada com o grande empresariado nacional e com a grande mídia, para que se retirasse o pé dos investimentos na produção e desenvolvimento, apoiando assim o braço político do golpe institucional e jurídico que estava sendo arquitetado pelos golpistas já publicamente conhecidos de todos.

Respaldado tudo isso pela grande mídia, esse novo governo ilegítimo e golpista tentou já nas primeiras horas de governo destruir tudo o quanto se pudesse, e que lembrasse os tempos de Lula e Dilma no poder e os avanços que as classes menos favorecidas alcançaram. A começar pela implementação da agenda paralela e conservadora que estava na pauta e que pode ser aprofundada nos próximos dias, após a brusca retirada de Dilma, nas duas casas de lei. A quantidade de leis que afetam diretamente os trabalhadores e os movimentos sociais organizados são exatamente 55 projetos de leis que retiraram ou alteram direitos sociais das trabalhadoras e trabalhadores, e que estão em processamento nas duas casas de lei, o senado federal e a câmara federal.

Agora sim é que a coisa vai ficar pior! Porque pela frente temos um cenário sombrio de conservadorismo e de retrocessos. E o governo interino e ilegítimo já nos seus primeiros dias começou a mostrar a que veio. Ou seja, veio para retomar o seu lado neoliberal com todos esses projetos que não nos deram trégua no recente embate politico em que vivemos. Enquanto organizávamos as trabalhadoras e os trabalhadores para resistir ao golpe de estado institucional, ao mesmo tempo tivemos que resistir aos ataques aos nossos direitos, como foram os casos da PL- 4330 que passou Câmara Federal e agora tramita como PLS 30 no senado que também a PLS 555, que tramita no Senado Federal agora tramita na câmara.

Toda essa pauta política chamada de pauta bomba é a grande insistência nesses dois últimos anos por parte de grupos políticos ligados as elites mais conservadores em colocar na pauta esses não assuntos que não interessam a classe trabalhadora, isso sem falar na contraofensiva que acompanhamos diariamente nos jornais escritos, falados e televisados, construíram a essência do golpe institucional que estamos vivendo.

E agora começamos a compreender como foi arquitetado, pois começaram a aparecer os artificies do golpe. Que organizaram para tentar fazer com que se interrompam afinal as investigações da operação Lava Jato para todos, pois o objetivo central está praticamente cumprido, ou seja, tentar desmoronar o partido dos trabalhadores e penalizar o seu líder maior o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva, na mais simples lógica de dar os anéis para não perder os dedos, se dispõem inclusive a entregar alguns dos seus, poucos, mas se dispõem entrega-los para consolidar o golpe Institucional.

Mas como o funcionamento da sociedade e da política não é tão simples como imaginavam, o golpe institucional que planejavam com o afastamento da presidenta Dilma começou a deixar os rastros dos seus artífices expostos. E logo toda a sociedade vai saber que estava sendo usada por golpistas de plantão. Pois não se pode enganar a todos o tempo todo. E as ruas já começam a ouvir o ressentimento de muitos que se sentiram usados e que hoje já ganham novamente as ruas ligados a alguma reivindicação que não esperavam que o governo golpista retirasse. Pelo menos não a tão curto prazo.

E isso fez com que aqueles que inicialmente, por um processo de alienação programada, fizeram coro para que o teatro de sombras armado no congresso nacional fosse efetivado, mudassem de opinião e comecem a se juntar aos movimentos de rua denunciando o golpe e o desmonte da antiga estrutura de governo, num período em que ainda o afastamento é provisório, pois a Presidenta Dilma, afastada ainda é a presidenta do País. Como foi caso das mobilizações que cruzaram o país nas ocupações dos Institutos do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN, exigindo que se recriasse o Ministério da Cultura, que havia sido extinto nos primeiros dias do o Governo Interino e golpista de Michel Temer. Pois muitos que concordaram com a saída da presidenta Dilma, não concordaram com a extinção de muitos dos ministérios que foram cortados e as mobilizações acontecem no Brasil desde o primeiro dia governo interino e golpista.

Resistência tem sido a palavra chave em todos os movimentos sociais e sindical. Mesmo aquelas centrais que apoiam o golpe, estão rachadas, como vimos o caso da Força Sindical do Paraná que desde o primeiro momento esteve perfilada na denúncia e na resistência ao golpe. Os movimentos sociais renasceram, o movimento estudantil se reinventou como temos visto em diversas atividades de ocupação de escolas pelo Brasil a fora. Isso agravado como vimos pelos últimos acontecimentos que já levaram alguns dos golpistas a serem afastados do staff de golpistas do primeiro escalão, como o golpista confesso, pego em ligação telefônica, Romero Jucá.

Gerando instabilidade política e demonstrando que a hora é de resistir e convocar a todos para que resistam, mesmo aqueles que se colocaram num primeiro momento a favor do golpe, por entender que não se tratava disso, por influência dos grandes meios de comunicação que estavam a serviços das elites políticas que arquitetaram o do golpe. Deixando o governo interino com diversos problemas iniciais, tanto internamente quanto externamente. Pois temos observado centenas de manifestações pelo Brasil e pelo mundo afora.

Outros países também fizeram protestos e foram muitos e que se espalharam onde existem brasileiras e brasileiros. Ou mesmo pessoas de outros países com consciência democrática realizaram manifestações. E isso tem ajudado de sobremaneira a resistência interna ao golpe político e institucional. Uma das mais chamativas delas foram os artistas em um dos maiores festivais de cinema do mundo, o Festival de Cannes onde os artistas na hora de receber o prêmio do festival, subiram ao palco levando as placas de protesto contra o governo golpista de Temer e defendendo a Democracia.

Logo que a denúncia ecoou mundialmente começou um debate importantíssimo no mundo inteiro o de não se reconhecer o governo golpista e interino, pois observou o desmonte de toda a estrutura que havia anteriormente sido a duras penas construídas e o golpe, em mesmo e tratando de um governo interino, que não tinha legitimidade e muito menos votos para realizar tal desmonte e mudanças. E isso fez com que se multiplicassem a solidariedade com todas as mensagens chegavam até os movimentos sociais, sindical e todos os partidos políticos progressista que era necessário organizar a resistência e não se dobrar ao golpe institucional em curso.

Podemos a partir dessas mensagens de solidariedade e mesmo das manifestações oficiais, que também acontecem pelo mundo a fora, como o caso da posição oficial emitida pelo presidente da Organização dos Estados Americanos – OEA, uma das maiores e mais alta corte dos países das Américas que através de um pronunciamento de seu presidente condenou publicamente o golpe institucional. Internacionalmente ecoa o que houve no Brasil em maio de 2016. E isso nada tem a ver com processo democrático. E para entender isso não precisa ser um intelectual, basta um mínimo de informação e espirito democrático.

Isso nos coloca um cenário de possibilidades de organização e resistências ao golpe institucional em andamento e derrubá-lo, para que tenhamos o restabelecimento da democracia em nosso país. E possamos de uma forma civilizada tocar a nossos problemas com o respeito as regras democráticas e com o bom convívio com todas as forças políticas, independente de coloração política e partidária. Mas com o respeito aos processos eleitorais. Pois não se pode aceitar passivamente que pessoas e grupos políticos descontentes com o cenário político, que a que pese vinha nesses últimos dezesseis anos trazendo benefícios e inclusão para a maioria do povo brasileiro. E uma pequena elite política, que estava desprovida do poder central, viu nas artimanhas da política a possibilidade de derrubar do governo central uma mulher eleita democraticamente, que contra ela não existe um crime sequer que se comprove.

Somos um país de pessoas cordiais, mas não aceitaremos que nos empurrem um golpe institucional goela abaixo. Golpe instrumentalizado por diversas setores e pelas elites mais conservadoras e reacionárias, que não querem democracia, que não querem a democratização e a inclusão das pessoas, por que acham que estão perdendo alguns privilégios históricos. O que não é verdade, por que nenhum desses setores que nada perdeu durante esses anos de governos democráticos e populares, somente tiveram que dividir, de aceitar que as boas coisas da vida podem e devem ser para todos.

Toda vez que acontece um processo de rompimento democrático vemos ecoar a voz da resistência. As pessoas ligadas aos partidos progressistas, não aceitam que se faça rompimentos institucionais sem que sejam extremamente justiçados pelas leis. Em nenhum momento nós que estamos indo as ruas dissemos que impeachment, é golpe. Pelo contrário reconhecemos o instrumento constitucional do Impeachment. O que bradamos alto e bom tom para que todos pudessem ouvir é que não se pode banalizar esse instrumento, que impeachment sem crime é golpe! Isso que temos dito e repito aos quatro cantos do Brasil, impeachment sem crime, não aceitaremos, por que estamos há mais de duas décadas construindo nossa jovem e frágil democracia, já arranhada, estuprada outras vezes, pelos mesmos frágeis e estapafúrdios argumentos de medo que os comunistas chegassem ao poder, e no caso agora que os petistas planejavam um plano de se manter eternamente no poder.

Atentos e organizados lutaremos pela consolidação democrática em nosso país, e esperamos assim como temos visto a solidariedade internacional contra isso que aconteceu no Brasil, onde a presidência foi usurpada por uma pessoa sem a legitimidade para estar lá. O que vimos nesses primeiros dias do governo golpista de Temer é que se não estivermos vigilantes e constantemente nas ruas iremos sofrer novamente com um longo período de perdas de nossas conquistas e avanços sociais.

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One thought on “Os primeiros dias do governo golpista

  • 20 de abril de 2017 em 21:31
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    E depressao

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