PEDAGOGIA DO ROCK

Compartilhe esta notícia.

Lá estava eu em frente ao aparelho de som do meu irmão mais velho, com o volume no máximo. Não adiantava bater na porta, estava trancado no quarto em que dividia com ele e minha irmã do meio. Eu, caçula, sem entender muito bem o que tocava e o que cantava, fazia air guitar e soltava palavras inexistentes ao vento, num idioma… claro… também inexistente.

Agora estou aqui, nostálgico, em frente ao computador. O volume? O volume continua no máximo… o air guitar já não é lá aquelas coisas… sabe por quê? Foi o rock que me levou a aprender alguns acordes de guitarra… então até tiro um som com minha gata… sim… minha gata… pois é como já cantava Erasmo Carlos, “não leve a mal se eu lhe disser a guitarra é uma mulher”.

Quando meu irmão mais velho foi morar em outra cidade, tomei de assalto toda sua coleção da já extinta revista Bizz. No início dos anos noventa minha leitura diária era sobre cultura musical. O que mais me intrigava, nas páginas daquela revista, eram os espaços em que apareciam os selos e as logos das bandas.

Lembro de como fiquei curioso em conhecer a banda The Exploited quando vi a capa do disco “Let’s Start a War”. Como que pode! Sem a possibilidade de escutar as banda que lia; dos mais diferentes estilos, já que não havia essa tecnologia atual pra me ajudar; era a imaginação que dava o tom. Estranho? Pra época, totalmente normal.

Mas foi outra ferramenta, da mesma revista, que muniu ainda mais a minha imaginação. Na caixa em que meu irmão colecionava as edições da Bizz, bem no cantinho, lá no fundo do ‘baú’, vi um monte de papéis dentro de um pacote de plástico. “O que é isso!”. Foi neste momento que fiquei ainda mais paranoico por música. Quando encontrei as famosas fichas da revista Bizz, que eram uma coletânea em ordem alfabética com informações de bandas e artistas significantes para a música (dos mais variados estilos / nacionais e internacionais).

Era fantástico olhar a imagem daqueles artistas e ler, no verso, algumas peculiaridades e também algumas declarações dos seus integrantes. Guardo até hoje esses cartões. Quando mostro pros camaradas… é até engraçado… principalmente pra galera da nova geração… eles ficam “uau!”!

Bom… não preciso nem dizer que lia e relia tudo aquilo. Além disso, tentava escutar as bandas que mais me interessavam. Garimpava em qualquer lugar onde pudesse matar minha curiosidade musical. Era um vício. Importunava amigos mais velhos pra pegar emprestado algum material (CD / LP / K7) que me ajudasse a definir, definitivamente, qual o meu som preferido.

No final das contas conclui: o que realmente importava e importa é o rock and roll.

Talvez o momento mais característico dessa definição musical foi quando, após guardar uns trocados, consegui comprar meu primeiro CD – o “Greatest Hits Live” do Ramones.

Ao pegar em mãos esse disco… só uma palavra: inesquecível. Por dois motivos. Primeiro: era algo meu, que eu havia comprado. Segundo: comprei um CD antes mesmo de ter o aparelho que toca CD. Isso é impagável. É coisa de moleque.

Após isso, a primeira coisa que fiz foi ir até meu vizinho pra pedir o som emprestado (até então só tinha toca fita e um aparelho de vinil que meu pai não usava mais. Ele só não vendeu devido à guerra que isso geraria dentro de casa).

Voltando ao aprendizado que essa massa sonora me trouxe. Foi de tanto insistir em ouvir rock que me obriguei a entender um pouco sobre o que meus heróis dizem por aí.

A música me levou a me familiarizar com a língua inglesa, não como gostaria, mas já não canto somente naquele idioma inexistente. Ok! Às vezes é bom sair por aí soltando versos impronunciáveis pelos cantos, numa língua que só a euforia roqueira traduz.

Hoje eu tenho certeza de que nós temos o rock e sua rebeldia pra salvar nossas vidas todos os dias. Crescemos tanto (sim! Crescemos!) que existe até o “Curso de Formação de Músicos e Produtores de Rock”, na Unisinos, em São Leopoldo, no Rio Grande do Sul.

Veja aqui um link bem explicativo sobre o curso e também uma participação do coordenador do curso, Frank Jorge, do Graforréia Xilarmônica… vale conferir…

Pois é amigos… o rock educa…

E não para por aí. Em Curitiba, na Universidade Federal do Paraná, há um curso de Luteria, o único superior da área no Brasil. O mais interessante disso tudo é que se faz real aquele papo de que música não tem fronteira. Recentemente aconteceram dois intercâmbios com estudantes da Argentina e da Bélgica na UFPR. É a arte em estado bruto… na construção… literalmente… de novos laços.

É importante lembrar também que o universo artístico vai muito além da criação; ele também modifica uma sociedade. Pra ser mais preciso, revoluciona uma comunidade. E pra ser mais preciso ainda, falo da banda Devotos, do Recife, Pernambuco.

A banda Devotos foi além da música, ela passou a ser agente de transformação social na periferia de Recife, mais precisamente na comunidade Alto José do Pinho. Neste documentário você terá certeza de que o rock é pedagógico.

Por fim… o rock não é apenas um estilo musical, é uma legião de viciados em música que continua por aí. São muitos loucos que pensam 24 horas em som. São cidadãos que quando sentam pra conversar sobre bandas e histórias… mostram que o que realmente faz falta é um calendário maior pra ouvir e falar sobre tudo que se gostaria.

 

Por Regis Luís Cardoso
LP – Crônicas musicais
Terra Sem Males

* Uma versão desta crônica está publicada no jornal impresso Terra Sem Males – Educação e Resistência

 

One thought on “PEDAGOGIA DO ROCK

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *