PONTO FINAL

Compartilhe esta notícia.

(ou: A impossível crônica; ou: Metal contra as nuvens)

“O poeta é um fingidor”, Fernando Pessoa.

O mês pela metade e eu já carregava somente um macinho de cinquenta reais comigo, enquanto vendia no sebo uma coleção de clássicos que foi avaliada por menos de cincão.

O vendedor estava mal humorado, chegou a questionar se eu buscava dinheiro para drogas. Ele também já não aguentava mais o tanto de gente que se livrava de algum CD para encurtar um pouco aquela régua interminável de trinta dias.

Havia em mim naquele momento uma revolta de João Antônio, um abraço em alguma forma de rancor, que podia desaguar entre os bandoleiros da Rua Riachuelo e de lá arriscar uma narrativa urbana ou policial, Marçal Aquino. Não fui por ali. Nem tracei um enredo entre a venda do livro e o drama do vício.

Mas era sexta. Bom, não sei direito. Ao menos a tarde trazia uma sensação incrível de sexta-feira. E bastava que eu esperasse a escuridão lá pelas 18h, sentasse nalgum boteco, desses que não ligam se a gente não consome nada, e terminasse de ler com ansiedade um romance do momento de Paul Auster, pra então me dirigir até o Ponto Final, o meu bar preferido de Curitiba.

O certo era eu me recolher e só assistir esse mês passar na avenida. Só que o carnaval das coisas novamente me arrastou pra mandar pelos ares qualquer planejamento.

A lição do jovem Walter Benjamin sempre atormentara e era necessário preencher a vida de experiências, o mais que eu conseguisse. E aquele bar do velho turco Riad, naquela noite, de verdade acenava a vontade de vivenciar uma experiência simples, uma experiência irônica, como um cronista à moda antiga. Ou então, seguindo esta nova geração: extremamente poética e totalmente descomprometida com a realidade.

Eu me forçava a recusar naquele momento as minhas histórias cíclicas, com tempero dramático. Eu refutava os meus próprios oroboros, meus venenos mordendo a própria cauda, meus labirintos de Borges, meu sofrimento de Kafka, onde sempre me invento, nos quais ao fim o narrador sempre descobre que a trama se tratava apenas de um engano seu e dos outros personagens, surpreendidos com as ilusões que a vida apronta. Eu estava numa crônica urbana e poética, não podia me esquecer disso.

No Riad eu estava ali, estava inteiro, à vontade, naquele lugar que dá a impressão de que já não se preocupa em expandir a clientela. No Riad prevalece o bom e velho foda-se. E a verdade das coisas que são feitas com desprendimento e com distração.

O músico dono da casa dá a mesma ênfase tanto a uma música do Chico Buarque como a uma interpretação de um grupo brega. O vozeirão dele estoura como um virtuose, só que largado como um desses músicos de estrada, gerando uma atmosfera que inebriava. Quando eu entrei no Ponto Final, Riad estava no meio de uma canção do Toquinho, o que não o impediu de fazer um aceno pra Melissa e pra mim, deixando a música em suspense de dois segundos.

Que importava naquele momento o valor da entrada, o mundo existia apenas ali. O contraste entre aquele lugar vazio e de gente nada curitibana e fria, num palco improvisado onde subimos, cantamos, choramos, tomamos um pouco daquele uísque que o músico devora pela madrugada afora. Um clima de Belchior, de Bob Dylan, de Kerouac. Melissa sugeriu que a gente descesse pra praia naquela madrugada mesmo, só pra ver o sol nascer feliz. Eu podia traçar um texto apenas a partir dos seus olhos escuros de Frida Kahlo.

Estava aéreo, estava e não estava naquele lugar, preocupado com a nova cerveja e com o Riad dar ouvidos ao nosso próximo pedido de música. E ele vinha e desconcertava com um clássico do grupo Roupa Nova ou até mesmo do velho Balão Mágico, só pra acrescentar nostalgia naquele caldeirão de condimentos inventados. Eu não estava sentindo porra nenhuma. Apenas provava de tudo.

Na saída, pagamos a senhora guardadora que confirmou: em vinte anos guardando os carros da marquise, ela nunca havia arriscado escutar um pouquinho o som que protegia todas as noites. Nem uma única vez ela entrou na casa pra escutar um pouco.

Partimos na direção do Largo da Ordem, já com o tanque de combustível piscando pra nós.

Aqui, como sempre, a narrativa cobra o seu preço. Brecht refletindo sobre o cobertor curto daquela senhora. Don Delillo apontando os dedos para o gigante do Leviatã e Auster pra falta de controle sobre nossas próprias vidas. O macinho de 50 pila, a velha atmosfera curitibana, as ruas chatas e vazias de Trevisan, os PMs armados circundando o centro da cidade, a boemia e o desleixo de Leminski, a luxúria do prédio giratório onde o governador Beto Richa habita. Na realidade eu precisava de um manifesto contra tudo aquilo. Eu precisava fazer uma síntese entre o realismo mágico e as narrativas de violência de Plínio Marcos. Mas nunca se confessa uma coisa dessas. Dizem também que o cronista, na falta de assunto, não pode nunca escrever sobre a falta de assunto.

Não consigo resolver o final da noite sem pensar que deveríamos vivenciar talvez um roubo, talvez uma tragédia, talvez uma mudança brutal de rumos. Talvez ao menos um lance do acaso que mudasse a nossa vida e fizesse com que, dois dias depois, na segunda-feira, tivéssemos dinheiro pra chegar ao fim do mês, à melhor maneira do que aconteceria com um personagem de Auster.

Mas apenas voltamos pra casa na noite sem chuva.

Mastigamos a distância e o tédio de cada curva da rápida do Centro para o bairro Capão Raso.

“Vou percorrer todos os países em busca da tua língua”, estava inscrito no muro próximo a um estádio.

Não. Não chegamos a esse ponto. O carro na realidade havia parado antes, sem combustível no caminho de casa.

Mas, falando sério agora: é que mesmo sem recordar direito o trecho, eu e Melissa despertamos na praia, com o carro imbicado em frente ao mar carregado de nuvens.

Que nada.

Pego o livro na estante ao lado da cama, antes de dormir. É a vez de Hemingway e seu inevitável tédio.

 

Por Pedro Carrano
Crônicas de Sexta
Terra Sem Males

 

anuncio-tsm-posts

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *