Povo brasileiro é vítima de uma crise fabricada sob medida para elevar tarifas de água e energia

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Alerta é do integrante da coordenação do MAB, Robson Formica, em entrevista no programa TSM Documento

Por Luis Lomba | Foto: Joka Madruga

A mercantilização do fornecimento de energia, água e saneamento ameaça o povo brasileiro com uma crise fabricada sob medida para elevar tarifas e favorecer os capitalistas que controlam esses setores. O esvaziamento deliberado dos reservatórios das usinas hidrelétricas levou à necessidade de acionar termelétricas, aumentando os preços pagos pela população. A crise energética no País foi tema do segundo programa da série TSM Documento desta quarta-feira (14). Apresentado pela jornalista Thea Tavares, o programa teve a participação de Robson Formica, integrante da coordenação nacional do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB).

O povo brasileiro foi enredado numa trama em que é obrigado a pagar mais por serviços cada vez piores e ainda leva a culpa por isso, pois o Governo atribui a alta nas tarifas à incapacidade da população de economizar água e energia. O que vemos é a expressão de uma lógica privatista, que leva a aumentos das tarifas bem acima da inflação, para garantir a acumulação capitalista de empresas privadas que atuam nesses setores. “Dessa forma, o que era um serviço público passa a ser instrumento de exploração do povo”, explica Formica.

Colocar em São Pedro a culpa pela falta d’água é uma enganação que não resiste à análise dos fatos, ressalta Formica. Não temos uma crise hídrica, mas uma crise energética provocada por decisões empresariais e governamentais que impedem os investimentos necessários para garantir a prestação dos serviços, sucateiam as empresas públicas para depois argumentar que elas não funcionam e devem ser privatizadas. “Dessa forma, a exploração do povo é falsamente atribuída à falta d’água ou à incapacidade das pessoas de economizar, com a culpabilização do indivíduo”, analisa o dirigente do MAB.

Os recursos das empresas de energia, água e saneamento que deveriam ser aplicados na expansão dos serviços são distribuídos como dividendos aos controladores. A Sanepar, por exemplo, desde 2011, entregou aos acionistas mais de R$ 2 bilhões, dinheiro que deveria ter sido aplicado para melhorar e ampliar os serviços da empresa. Em todos os estados onde prevaleceu essa lógica, houve falta d’água, aponta Formica. “É assim em São Paulo, com a Sabesp; no Rio, com a Cedae; no Rio Grande do Sul, com a Corsan; no Paraná, com a Sanepar”, observa. “A perspectiva do capital é de curto prazo e leva à apropriação desses recursos como dividendos”, completa.

Se há de fato relativa redução de chuvas no País, essa não é a principal causa da falta d’água, seja para consumo da população, seja para gerar energia elétrica, aponta Formica. “Nos anos 2000 e nas décadas de 90 e de 80 também choveu menos na Região Metropolitana de Curitiba, mas não tivemos racionamento como agora”, recorda. A falta de investimentos e o uso da água para fins diversos é que ameaça a geração de energia e a distribuição de água, segundo Formica. “A Usina de Itaipu, por exemplo, informou que precisava verter água para garantir a navegabilidade do Rio Paraná e o escoamento da safra de soja do Paraguai, mas essa obrigação não está prevista no Estatuto da Itaipu”, afirma Formica.

Vivemos as consequências de um modelo mercadológico que culpa a natureza pelos problemas que ele mesmo cria, observa Formica. Somos obrigados a pagar compensações às empresas por eventuais quedas no faturamento delas, que não perdem nunca nesse jogo de cartas marcadas. “Vai tudo para a tarifa. Já estamos pagando a conta Covid, de R$ 18 bilhões, para compensar perdas do setor elétrico”, exemplifica. A lógica perversa é a de sempre: as empresas criam escassez ao não investir na prestação de serviços, para depois justificar altas nas tarifas.

O programa foi transmitido na noite de quarta-feira no Facebook do Terra Sem Males, do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), da Teia de Comunicação Popular, CUT Paraná, deputada estadual Luciana Rafagnin (PT-PR); portal Fotojornalismo Sindical e jornal Brasil de Fato Paraná. O formato inclui a participação de trabalhadores(as) fazendo perguntas ao entrevistado em vídeos pré-gravados. Cris Lima, de Curitiba, quis saber se a privatização vai baixar ou elevar a conta da água. Formica apontou que os defensores das privatizações sempre argumentam que as tarifas baixariam, mas isso nunca ocorre. “A lógica deles é que com privatização entrariam capitais privados, que seriam mais eficientes e isso possibilitaria baixar a tarifa, mas não é isso que se vê”, afirma.

A avaliação do MAB é que os atuais modelos energético e hídrico não servem ao povo brasileiro, apenas ao grande capital. “Essa é uma questão fundamental para o povo. Movimentos sociais, sindicatos, parlamentares, temos que denunciar esses modelos. Nenhum setor estratégico para o País deve estar nas mãos do capital privado”, afirma Formica. “A luta dos atingidos por barragens se fortalece com a compreensão que temos e nos coloca na condição de dialogar com a sociedade. A produção de água é socialmente construída e se há excedentes nesse processo eles deveriam servir ao povo, não a grandes empresas”, conclui Formica.

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