“Queremos eleições com participação de mulheres, de negros e jovens”

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Gustavo Erwin Kuss, o “Red”, é militante reconhecido no movimento sindical. Foto: Joka Madruga.

Militante reconhecido entre o movimento sindical e Gustavo Erwin Kuss, o “Red” participou ativamente da experiência da Coordenação dos Movimentos Sociais (CMS) no Paraná durante quase uma década. Agora, os desafios da luta política se ampliam: a luta por uma reforma política com participação popular, o que se expressa na Constituinte Exclusiva e Soberana do Sistema Político, e a construção do Fórum 29 de abril, espaço dos movimentos sociais no Paraná depois do massacre realizado pelo governo Beto Richa.

Nacionalmente, como os movimentos sociais estão vendo o atual quadro da reforma política?

A partir do Plebiscito Popular temos um mandato para nossas organizações continuarem empunhando a bandeira da Constituinte Exclusiva e Soberana, para fazer a mudança do sistema político. Agora a gente se defronta com o avanço dos setores mais reacionários do Congresso Nacional, o Congresso mais conservador desde 1964, que tentam aprovar uma ‘contra-reforma’ que vai à contramão de tudo o que debatemos no processo riquíssimo do Plebiscito Popular. Mas mesmo o que foi aprovado no Congresso por conta das manobras do Eduardo Cunha ainda não está dado. Há problemas. Ele teve dificuldades para fazer os acordos, que acabaram resultando nesses pontos aprovados. Há chance de barrarmos isso. Nossa campanha, agora, é pelo Plebiscito Oficial.

Você poderia elencar quais são os itens de Reforma Política propostos pelos movimentos sociais?

Queremos eleições sem o financiamento empresarial de campanha. Porque quem paga a banda escolhe a música. Nesse modelo de democracia, já dizia o professor Fabio Konder Comparato, com financiamento privado, a soberania não é do povo, que não tem controle sobre o processo democrático. Nós precisamos fortalecer os partidos políticos, os programas e não os nomes, os indivíduos, as personalidades. Daí o voto em lista. Queremos eleições com participação de mulheres, de negros e jovens, que estão subrepresentados no parlamento. Precisamos, por exemplo, de uma nova Constituição que permita a gente destravar as reformas que não fizemos até hoje: as Reformas Agrária, Tributária, Urbana etc. Temos uma Constituição, chamada de “cidadã”, que trouxe avanços. Mas esses avanços da Constituição de 1988 a burguesia brasileira, com o passar do tempo, foi limando e suprimindo.

Você coordenou por anos a Coordenação dos Movimentos Sociais (CMS). Pode fazer um resgate dessa experiência?

Os movimentos sociais têm uma caminhada que remonta ao Fórum Nacional de Luta por Trabalho, Terra, Cidadania e Soberania. Esse Fórum articulou enfrentamentos duríssimos – no âmbito federal contra o governo FHC, e no estado contra o governo Lerner. A campanha contra a venda da Copel, contra as privatizações, etc. Esse fórum vai do final dos anos 1990 e se extingue em 2002. Nesta frente estava toda a esquerda praticamente. Com a eleição do Lula, esta articulação passa a ter outra configuração, alguns setores da esquerda já rompem de imediato com o governo. Não havia concordância com a leitura dos grupos que formam a CMS, que era: elegemos um governo de composição de classes, um governo que não é somente do Partido dos Trabalhadores, e era preciso disputar os rumos dele. Então, cria-se a CMS, com entidades que tinham essa unidade na leitura do que seria o governo Lula. Depois, o governo vai fazendo algumas opções que praticamente desatualizam a leitura sobre a disputa, principalmente na questão agrária, na qual a opção do agronegócio foi clara.

A partir das lutas e do momento político polarizado, novos espaços de organização podem ser criados?

Já em 2013, começa a se configurar uma nova articulação. Antes das jornadas de junho, os movimentos se organizam na plenária dos movimentos sociais, com reuniões em São Paulo. O debate era: chegamos a quase doze anos de governos encabeçados pelo PT, avançamos na melhoria das condições de vida da população, mas não enfrentamos o que precisamos enfrentar. Como saímos dessa sinuca e paramos de patinar? Como enfrentar os banqueiros, os setores da burguesia brasileira no campo e na cidade?  No meio do caminho, estouram as manifestações de rua a partir de uma pauta justa do transporte coletivo, seguida de outras reivindicações importantes, no campo da Saúde, da Educação, enfim. Alguns setores da esquerda partidária, sobretudo no PT, não enxergam naquilo uma oportunidade de voltar a se organizar junto com o povo, não conseguem entender aquilo. Os movimentos sociais também não entendem muito bem. Nisso, Dilma faz a proposta da reforma política – imediatamente sabotada, dentro do próprio governo. Mas há uma nova articulação de movimentos e sindicatos.

E no Paraná? Pode falar sobre a criação do Fórum 29 de abril?

Já no Paraná, criamos o Fórum de Lutas 29 de Abril, numa plenária ocorrida depois da mobilização contra o ajuste fiscal, a terceirização e o governo Beto Richa, responsável pelo brutal ataque contra os trabalhadores em educação naquela data. As trabalhadoras e trabalhadores em educação mostraram que é possível resistir – mesmo em condições bastante adversas. A resistência e a unidade são o caminho. Precisamos entender que não há saída só em determinada categoria ou determinado segmento. É preciso que a gente tire as lições que precisamos tirar desse processo, reflita sobre o que aconteceu e saia com acúmulo político e organizativo.

Por Paula Zarth Padilha e Pedro Carrano
Terra Sem Males / Jornal do Sismuc

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