Rainha

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Conto de ficção inspirado em foto de Isabella Lanave.

Eu me despedi dela perto da fronteira entre México e Guatemala. Cada um posicionou-se de um lado da estrada, às cinco da manhã. Ela, rumo ao norte, voltaria à comunidade em Chiapas onde trabalhamos juntos. Eu rumaria para o sul, com o dever inútil de um retorno forçado ao Brasil. A rodovia Panamericana se anunciava gigantesca. E o meu país na distância lenta de um sonho maldito.

Não foi possível sequer um último aceno. A luz do único poste na estrada queimou e o ônibus dela veio primeiro. Logo segui por uma viagem de quarenta horas, inúmeras paradas, duas fronteiras, e narrativas de desventuras de ex-guerrilheiros numa América Central marcada por guerras. Era apenas o começo.

O motorista colocou o dvd da trilogia completa do rambo, enquanto os olhos se perdiam pela paisagem devastada pelo furacão Stán. Era forte a recordação de meses pisando no barro da educação popular em comunidades perdidas na esquina entre montanhas.

Depois eu soube que ela morreu.

Foi bem depois, anos depois mesmo, o que, além da dor, me gerou um incômodo sobre por que não tínhamos tentado um melhor contato. Ela morreu em algum ponto da Islândia, numa imagem que eu simplesmente não conseguia ordenar. Eu havia voltado para o meu riacho de origem. Ela, de maneira que não sei entender, escolheu uma aventura de sobrevivência no lado gélido do oceano. A mensagem enviada para mim repetia o mesmo tom do único email que havíamos trocado ao longo desses sete anos, só que dessa vez enviada por uma amiga dela:

– (…) Ela fez questão de dizer que você precisa voltar àquele mercado de San Cristobal de las Casas (…).

San Cristobal, no sudeste mexicano, era a cidade principal perto das comunidades onde nos conhecemos. Eu já havia ficado abalado a primeira vez que recebi a mensagem referindo-se ao mercado onde tomávamos cafés todas as manhãs, comprávamos ovos e cogumelos, entre senhoras erguendo galos de ponta cabeça, típicas de uma pintura de Diego Rivera. O que teria ficado por lá além da amizade com algumas vendedoras, eu não sabia bem. Ela era dada a mensagens cifradas, brincadeiras, então na minha distração habitual não busquei ir a fundo. Com o visto finalmente liberado para brasileiros, resolvi então imediatamente voltar para o México e refazer aqueles caminhos velhos em solo maia.

Assim que pisei em San Cristobal, esmagado pela força daquelas montanhas, ainda hesitei em passar pelo mercado, que seria o caminho natural para quem descia na rodoviária. Trêmulo, contornei a entrada e busquei respirar um pouco num bazar desses que vende café orgânico chiapaneco. Sentei para folhear o La Jornada tentando me atualizar sobre a política mexicana.

Minha mão tremia. Meus olhos passaram por umas poucas notícias. Mas foi nas páginas do periódico que eu entendi tudo. Numa coluna chamada Perfil, o repórter exercitava seu talento literário mediano contando a história de Rainha. Segundo ele, a pobre e triste majestade sem trono. Segundo ele, mais uma criança indígena abandonada na cidade. Seu apelido era Rainha, devido à coroa de papel brilhante que usava na cabeça.

Ali, no mercado bem na minha frente, há muito tempo aquela jovem de sete anos percorre labirintos, recitando poemas e canções, agarrada a uma velha manta tzotzil, em troca de alguns pesos mexicanos que dão para uma refeição por dia. O cronista também falava de outra curiosidade, que era a inexplicável canção em português com a qual Rainha arrancava lágrimas dos turistas europeus, no auge de suas graciosas apresentações.

Era a mesma canção do Chico que eu cantava para a mãe dela.

Por Pedro Carrano
Conto de ficção inspirado em foto de Isabella Lanave.
Crônicas de Sexta
Terra Sem Males

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