Relatos da manifestação em Brasília contra a PEC do Fim do Mundo, por Herman Felix

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Herman Felix, trabalhador bancário em Curitiba/PR, esteve em Brasília no dia 29 de novembro de 2016 na manifestação contra a PEC 55, que foi reprimida com violência pela polícia, e publica seu relato a convite do Terra Sem Males.
O dia 29 de novembro de 2016 em Brasília começou prometendo, com um debate excelente que contou com a precisa participação de secundarista paranaense Ana Júlia e do líder do MTST Guilherme Boulos. Foram rápidos, profundos e diretos falando sobre os temas que vão assolar o Brasil se a PEC do fim do mundo for aprovada (PEC 241 aprovada na Câmara, que tramita como PEC 55 no Senado).
Após todo esse debate, fomos para a concentração de luta contra o mal…e a rua estava linda, uma diversidade gigantesca unida em muitos objetivos, que são exigir a saída dos golpistas, a derrubada da PEC do fim do mundo e todas as outras medidas que nos levam de volta à escravidão.
Haviam grupos de todas as partes do País, representantes de todas as áreas, mas o que predominava eram secundaristas, entre 15 e 17 anos de idade. Eles e elas eram a maioria  absoluta, e faziam muita festa, misturados aos Povos Originais indígenas que foram com seus trajes característicos e suas famílias inteiras, muitos “Curumins” entre nós, além de Profissionais da Educação do Brasil todo, Bancários, Metalúrgicos, Petroleiros e outras categorias de trabalhadores de todas as Centrais Sindicais.
Creio que passava de 20 mil pessoas e tudo era ordeiro sem qualquer agressividade ou depredação, com muita alegoria e adereços. Estudantes são absurdamente criativos e deram muitos shows de coreografia, gritos de ordem e músicas. O espelho d’água estava cheio de estudantes dançando e cantando. A “puliça” na espera, com os soldadinhos nervosos andando de um lado pro outro inquietos. Mas a massa em nada ameaçava e continuava cantando, dançando e entoando gritos de ordem contra os golpistas e a PEC.
Brasília, 29 de novembro de 2016. Foto: Herman Felix
Brasília, 29 de novembro de 2016. Foto: Herman Felix
Achei naquele momento que o policiamento não era gigantesco como em 29 de Abril de 2015 em Curitiba, no massacre do Richa aos Educadores do PR.  Dali não enxergávamos os contingentes escondidos atrás dos prédios ou escondidos em “bueiros”. No “Palácio da Justiça” ali ao lado, tinha uma “proteção” de uns sessenta policiais armados até os dentes, que quando perceberam que estavam sendo filmados e fotografados, derrubaram eles próprios a enorme placa que dizia Palácio da JUSTIÇA. Eles sabiam o que viria a seguir, e a placa simbolizava o contrário da sujeira que viria.
Em meio à massa de gente, de repente surgiu um grupo de aproximadamente 50 pessoas, a maioria do sexo masculino, com os rostos tampados por máscaras, camisetas e lenços, que andavam em bloco compacto, meio que pulando…e foram direto para o carro estacionado mais próximo do espelho d’água, sacudindo-o e virando-o com as rodas para cima. Começaram a rolar o veículo e parecia que iriam jogá-lo dentro do espelho d’água. Parece ter sido o sinal para a desgraça começar, e como num filme de terror, o terror começou.
Esse mesmo grupo (creio eu serem da mesma “gangue”) jogou um coquetel com fogo em direção aos “puliça” e a partir disso foi um despejo de bombas, cachorro, cavalaria, balas de borracha, helicópteros e muito mais surgindo das trevas…a imagem mais difícil entre todas foi ver os Curumins, que eram muitos, correndo desesperados em meio ao inferno…os robôs não pensam, só querem agredir, agredir, agredir, e não importa quem esteja na frente, crianças, velhos, mulheres, meninas, meninos…todos são alvo das agressões. E eles agridem com tudo que tem. Uma coisa horrorosa, com muita gente fugindo e com pavor.
A “puliça” estava preparada para cercar tudo, surgiram dezenas de veículos policiais e muito mais “robôs”, que perseguiam o povo…O respeito ao próximo, à vida humana, não existe por parte deles. As agressões foram direcionadas inicialmente para onde se fazia festa e se cantava, não para o lado dos “mascarados”, que foram saindo logo após jogarem a garrafa.
Eu estava presente no 29/04 em Curitiba, no massacre à Educação, e vi novamente a tirania policialesca se repetir, em meio a um estado democrático. Foi triste demais, nosso País está definitivamente nas mãos de bandidos da pior espécie. Enquanto o massacre acontecia lá fora, com alguns parlamentares tentando conter a covardia e o avanço das tropas sobre o povo que o sustenta, os “puliça” recebiam ordens de um coronel também “puliça” para avançar…o que só se confirmou por imagens gravadas por assessores do Dep. Paulo Pimenta, posteriormente.
Dentro do Palácio, o coquetel acontecia tranquilamente sem abalos.
Esse caminho nos levará aos tempos de 1800…um retrocesso de quase 200 anos nas relações humanas, e aumento ainda maior da desigualdade social, infelizmente eu não tenho dúvidas disso.  O cheiro do gás lacrimogênio ainda está na memória.
Ana Júlia
Ana Júlia contou que está apreensiva por ver os direitos sociais conquistados por nossos avós e nossos pais irem para o lixo, com uma Educação precarizada, com estudantes e profissionais da educação penalizados e sem perspectivas decentes, principalmente no Paraná, que tem mostrado mais que os outros sua pior característica mesquinha e conservadora.
Lembrou com tristeza os cavalos de Álvaro Dias em 1988 e as centenas de bombas, cães e balas de borracha de Beto Richa no dia 29 de abril de 2015, que resultou em centenas de feridos e sequelados física e mentalmente. A violenta polícia militar parecendo ter prazer cruel nas agressões, e tudo em cima da classe que mais se deve respeito no mundo todo, menos aqui, óbvio.
Mudam as diretrizes e normas com Medidas Provisórias sempre sem consultar os professores e estudantes, que são os principais atores e desprezam as consequências, evasão escolar, emburrecimento da população, criminalidade maior, mão de obra mais barata…tudo isso interessa a quem? Como retirar a disciplina de Educação Física, por si só uma aberração, ainda mais logo após o país sediar uma Copa do Mundo, uma Olimpíada e uma Para Olimpíada.
“É tragicômico e muito cruel, além de desrespeito com a população em geral. Acabar com Artes, Filosofia e Sociologia retira a possibilidade do acesso à cultura, ao estímulo do livre pensar, ao combate a todo tipo de preconceito. A riqueza do povo vai pro ralo com toda essa bagagem intelectual e cultural”.
Ana Julia defendeu que reivindicar melhores condições de vida ocupando as escolas é legítimo, de direito e a importância de decidir tudo democraticamente com a participação de todos, idem, com direito do voto e respeito ao voto.  Imaginem os filhos da classe trabalhadora após essa maldita PEC ser aprovada? A intenção “deles” é vender o País e suas riquezas, pois a ganância parece ser insaciável.
Guilherme Boulos
Guilherme Boulos falou depois de Ana Júlia, afirmando que a PEC 55 é o ataque mais grave aos pobres e trabalhadores desde o início da República, e vem como cláusula constitucional. “Isso é horrível, pois nem os governos mais conservadores da história da América Latina tiveram essa audácia, nem mesmo os de ditadura. Essa PEC levará em breve o país à falência”.
As ideias maléficas não tem fim, com o fechamento do SUS, “eles” lançam um plano de saúde “baratinho” pra população… Fecham as Universidades públicas e lançam linhas de crédito “baratas” para se estudar. O governo golpista pode definir com a PEC (e definiu) a política monetária para os 5 próximos governos que serão eleitos, sejam eles quais forem. Governar como desse jeito? E tem mais:  reforma da previdência, trabalhista… e tudo com a cumplicidade do judiciário que se vendeu claramente ao golpe.
A CLT tem mais de 50 anos e nem a ditadura ousou destruí-la, mas esse governo que usurpou o poder a destruirá…
Esse governo sabe que não poderá ser reeleito e jamais será cobrado por essa destruição toda do País.
A resistência não está unida como deveria ser…as periferias estão dormindo ou na frente da telinha, e por isso votaram em pessoas péssimas em São Paulo e no Rio de Janeiro. Os trabalhadores idem Apenas uma parte pequena das categorias está organizadas .
O que acontece no Rio, PR e outros estados, falindo e não pagando seus servidores, é um sinal do que acontecerá ao País… 1 milhão e 800 mil pessoas saíram dos planos de saúde privado e estão voltando pro SUS…e o SUS sendo sucateado. A dúvida:  O povo acordará antes ou depois de tudo destruído?
Os integrantes do governo  atual sempre roubaram muito, mas agora eles estão nos holofotes…  Temos que fazer o trabalho de base, que estagnou e quem não deixou de fazer foram as igrejas pentecostais… que estão crescendo e tomando conta da política. E elas fazem a anti política como se percebe no Rio, SP, EUA por exemplo… O antídoto é uma frase estranha: Radicalização Democrática. Estranha mas real, que significa não aceitar nada que não seja democrático e decidido pela maioria após exaustivo debate.
O que virá? O pior. Como anuncia descaradamente o vice presidente da Fiesp: 60 minutos de almoço é um absurdo… 15 é suficiente…comer e trabalhar ao mesmo tempo já é bom demais…trabalha com uma mão e come com a outra.
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