Rugby em Cadeira de Rodas: “é uma condição de vida”

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Alexsandro Inocêncio Vieira (36) usa a camiseta número três (foto) do time Locomotiva Quad Rugby, da Associação dos Deficientes Físicos de Campo Largo. Na última sexta-feira (09), seu time jogou em Curitiba

Jogo pegado. Assim pode ser definida qualquer partida de Rugby. Mas quando o assunto é Rugby em Cadeira de Rodas, aí a coisa muda. Não é só Rugby. “Hoje o Rugby é uma condição de vida. Não só pela prática física, mas pela convivência, por estar sempre viajando, conversando com pessoas diferentes. Simboliza uma vida melhor”, diz Alexsandro Inocêncio Vieira, o ‘Alex’.

Na sexta-feira (09), no Centro de Esporte e Lazer (Cel) Dirceu Graeser, na Praça Oswaldo Cruz, em Curitiba, aconteceu, como parte da Virada Esportiva na capital paranaense, a Copa Curitiba de Rugby em Cadeira de Rodas. Alex faz parte da equipe do Locomotiva Quad Rugby, que recebe suporte da Associação dos Deficientes Físicos de Campo Largo (ADFCL).

A partida foi entre Locomotiva (ADFCL) x Gladiadores (Saúde Esporte e Sociedade Esportiva – Curitiba).  Os Gladiadores levaram a melhor por 31 a 14. Mas o resultado, naquela tarde, era o que menos importava. O jogo serviu como preparação para o campeonato brasileiro de Rugby em Cadeira de Rodas. O time da capital paranaense esta na disputa da série A e os campolarguenses na série B do nacional em 2018.

O jogo

Uma partida de Rugby em Cadeira de Rodas tem quatro tempos de oito minutos. Os times têm doze minutos pra chegar ao ataque e quarenta segundos até fazer o gol. Normalmente quem tem alguma lesão menos grave joga no ataque e quem é mais comprometido fisicamente joga na defesa.

Quando o jogo começa o bicho pega. É competitivo. Uma coisa que chama a atenção é quando as cadeiras de rodas se chocam: sobe um barulhão que é como se fosse um trovão! É literalmente um jogo impactante e de descarga de energia. Aliado a isso, o que se vê são sorrisos nos rostos dos atletas, além das expressões de força física e entusiasmo.

E não podemos esquecer as peculiaridades. Por exemplo: se usa uma bola de vôlei de 410 gramas. Alguns jogadores passam cola nos pegadores pra melhorar a aderência e controle da bola. As cadeiras são adaptadas. Quem joga na defesa tem uma grade de ferro na parte frontal, para proteção. Já quem joga no ataque usa uma cadeira mais leve e sem essa proteção. Outro detalhe importante é a calibragem dos pneus, já que em alguns momentos da partida os atletas precisam fazer um ‘pit stop’ pra dar aquela calibrada.

História: O Rugby em Cadeira de Rodas ficou conhecido em 1996, quando apareceu pela primeira vez nos Jogos Paralímpicos. Na época foi uma modalidade em demonstração. Só em Sidney (2000) o esporte ficou em definitivo nas olimpíadas. É um esporte misto, ou seja, homens e mulheres podem participar na mesma equipe. Conheça as regras e a história neste link.

Foi essa exposição mundial que fez com que Alex despertasse para o esporte. Hoje ele está indo para o terceiro ano na modalidade, joga na defesa e se considera um aprendiz de zagueiro: “eu já tinha visto alguns jogos pela internet, já tinha assistido alguns jogos internacionais, mas aí eu conheci o professor Rafael Reis, da Associação. Através dele comecei a praticar pela ADFCL”.

A Associação dos Deficientes Físicos de Campo Largo mudou a vida de Alex, assim como faz a diferença na vida de muitas pessoas. “Foi meu recomeço. Através dela que eu saí de casa. Voltei pra comunidade. Vivi anos dentro de casa, num casulo. Mas na Associação eu voltei a estudar. Voltei a ativa. Tive incentivo para recomeçar”, conta.

Cotidiano

Quando se usa a expressão “não é só Rugby” é porque a coisa vai além mesmo. Cada atleta tem uma história de superação. Para Alex, não é fácil contar a sua, mas ele não esconde: “numa saída de um bar, numa madrugada, teve uma briga dessas que a gente vê toda hora por aí. Aconteceu uma confusão entre alguns amigos. Houve tiros e um sobrou pra mim”.

Isso foi em 2003. Ele estava de folga, trabalhava como segurança. De lá pra cá, Alex viveu seu ‘luto’, durante algum tempo, mas encontrou no esporte, nas amizades, na Associação e nas competições, força pra continuar. Outra coisa que mudou foi sua cabeça, principalmente sobre o assunto acessibilidade:

Não tinha conhecimento. São duas cabeças: uma antes e uma agora. Não vou ser hipócrita de dizer que sempre fui uma pessoa consciente porque não é verdade. Claro, se eu tivesse passando na rua e visse um cadeirante, ia dar uma força pra ele, mas não tinha a menor ideia de como é o mundo de uma pessoa em cima de uma cadeira de roda” – Alexsandro Inocêncio Vieira.

Segundo Alex, o mundo do cadeirante é totalmente diferente. Ele usa a expressão “tem que salvar um leão por dia” pra dizer que a luta dos cadeirantes acontece desde a hora de acordar até a hora de dormir. “Todo dia você tem que aprender uma coisa nova. Todo dia é um obstáculo. Nossas ruas, nossas cidades, não estão preparadas”, critica.

Quando questionado sobre “o que diria para uma autoridade pública de Campo Largo sobre acessibilidade?”, Alex é categórico: “eu acho que precisa mais pessoas com sensibilidade. Vemos pessoas formadas, atrás de suas mesas, assinando papéis, mas não tem ninguém nas ruas, com uma cadeira de rodas, pra ver como é a realidade. Precisamos de pessoas mais envolvidas”.

ADFCL

A Associação é referência quanto se fala em esporte adaptado. De acordo com o educador Rafael Reis, “hoje temos cadastrados 50 atletas/participantes. Trabalhamos com Atletismo, Bocha, Rugby em Cadeira de Rodas, Tiro com Arco, Natação e Triathlon. Oferecemos a prática do esporte em todas as suas dimensões, como esporte de rendimento, educacional, lazer, social e de reabilitação”.

Mas o trabalho vai além. Na ADFCL há aulas de informática, inglês e artesanato, além da promoção de atividades de lazer, como viagens, idas ao cinema, teatro, pesque-pague, circo, etc. “Fazemos também encaminhamento ao mercado de trabalho, orientação em busca dos direitos da pessoa com deficiência e empréstimos de órteses e próteses”, completa Rafael Reis, que é Coordenador de Paradesporto na ADFCL.

Vale lembrar que a ADFCL terá um vídeo institucional produzido pelo Sindimovec – Sindicato dos Metalúrgicos de Campo Largo para o projeto “Onde eu faço a diferença?”. O objetivo da ação é valorizar a história de entidades que têm um olhar social.

 

Por Regis Luís Cardoso (texto e fotos).

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