Todos contra C*

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Ribeirinhos da Volta Grande do Xingu. Foto: Joka Madruga

Há algum tempo D* e B* são flagrados pelos vizinhos saindo de casa desalinhados. Já nem se importam mais. É o que parece. B* é o menos incomodado. Suas camisas e camisetas estão sempre amassadas nas mangas, no peito, na barriga. Para somar ao desleixo, não combina mais os trajes como antigamente. São calças sociais com camisetas, jeans de um tema, tipo skatista, com camisa de linho. Certa vez ele foi visto de terno e camisa de futebol. Ora, isso não é problema, diriam uns. Como fanático, deve ter ido ao trabalho com o manto para tirar sarro dos perdedores. Mas não. O time foi goleado e a aparência é de que B* não trocou de roupa apenas.

Talvez por isso D* ande mais exaltada ultimamente. As paredes têm ouvidos. Detalhe indiferente. As brigas do casal já ganharam a porta da rua. Todos podem ouvir as queixa de D* em relação a B*. Alguma gritaria. Por sorte, nenhum corpo batendo contra a parede ou sinal de agressão física no dia posterior. Por hora, o que se percebe é o acirramento das gargantas.  Contudo, é difícil de entender do que D* se queixa. Não pode ser apenas – ou principalmente – a vestimenta de B*. Porque se for, é chumbo cruzado. Ela também tem sido vista desatenta com a beleza. Logo D* de cabelos sempre bem cuidados, cheirosos, de maquiagem suave, de terno da moda bem passado, de sapatos limpos e lustrados. Passado. A elegância do figurino foi substituída pela deselegância dos palavrões que escapavam em algumas manhãs.

Certa vez, há um ano, tive uma conversa com D*. Logo quando começaram as brigas. Não é papel de vizinho interferir na intimidade de casal alheio. O diálogo aconteceu por acaso. Numa rápida visita, nem lembro o motivo, comentei a capa do jornal que estava jogado sobre a mesa. “Aneel autoriza reajuste da Copel em 14%”, dizia o periódico.

– Governo safado – foram minhas palavras.

D* saiu em defesa do governo. Agora nem lembro bem qual deles, se o estadual ou o federal. Apenas defendeu que o reajuste era necessário ser feito por causa da crise, da falta de água e mais alguma coisa. Entendi que as brigas haviam começado naquela época. Imagino que um reclamava que o governo federal autorizou o aumento e outro respondia que o estadual foi quem solicitou. Eles viviam, portanto, num jogo de empurra dos partidos políticos. Lembro bem que isso ocorreu em Minas Gerais. No primeiro aumento, o governo disse que estava subindo o preço porque a Aneel mandou. No dia seguinte, a Aneel argumentou que não aumentou nada, apenas permitiu o aumento pedido pela empresa estadual.

Fui embora pensando porque as pessoas permitem que os governantes interfiram tanto em suas vidas pessoais? Será que cada casal em Minas, São Paulo e Paraná não está perdendo tempo em brigar por causa do governo ao invés de se amar?

Ocorre que o tempo passou, novos reajustes vieram e as brigas deixaram de ser conceituais para se tornaram práticas. D* reclamava quando B* deixava a televisão ligada, demorava tempo demais fazendo a barba, quando não apagava a luz ou que lavava roupas aos poucos. Já B* questionava os banhos demorados, o excesso na utilização do secador, a falta de ter as roupas passadas. Ou seja, mesmo que não quisesse, a briga dos políticos entrou porta adentro. Essa era a mesma realidade em casa. Também tivemos que economizar. Conversamos, fizemos os cálculos, avaliamos onde dava para economizar na energia, na água e até nas idas ao restaurante.

– Economizamos, mas continuamos gastando o mesmo – relatei ontem a D*.

E a verdade era essa. Havia reduzido o consumo de tudo, de água, de luz, mas as contas vinham mais altas. 50% acima do que eu pagava no ano passado. Mais do que isso, o encarecimento do cotidiano para as pessoas e para as empresas trouxe consigo também a diminuição do consumo. Recessão. Portanto, houve cortes na energia e nos empregos, como no caso de J*, meu marido. Ele estava desempregado e sem direito ao auxílio. Sobrou-nos pedir apoio aos amigos. Fui até D* com duas esperanças. Na primeira que ela, como trabalhadora de recursos humanos, possa encaixar meu companheiro em algum lugar. Em segundo, para mostrar a D* e B* que se os governantes de A* a Z* nos ferram, só nos resta nos unirmos. Unirmos entre nós e lutar contra C* de capital.

Por Manolo Ramires, Terra Sem Males

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