ULISSES NO MEIO DO TRECHO

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“Ulisses não conseguia se preocupar apenas como a própria viagem. Ulisses não estava sozinho no mar”

 

O pai, narrador, senta à beira da cama da filha.

A luz rosada do abajur pede a próxima história. A tarefa de hoje não seria fácil. Ele precisava explicar por que Ulisses iria partir para mais uma viagem, quando já havia se acostumado com aquele porto tranquilo, depois de já ter enfrentado o suficiente sereias, Circes, ciclopes.

– Mais uma vez o Ulisses vai mudar de casa?, a menina perguntou.

– Sim. Ele vai para mais uma ilha, em busca de aventuras. É nesse barco que nós vamos.

– E o Ulisses vai como? No frete do avô?

– Isso! Ou, mais ou menos. Ele segue no seu navio. Mas na próxima ilha ele vai morar perto de alguns amigos.

– O Ulisses não pára nunca de viajar?

 Era a quinta mudança deles em cinco anos. Àquela altura, exausto da guerra, assim mesmo, ao que parece, Ulisses ainda teria uns cinco anos pela frente até chegar à Ítaca.

– Vai ter um cachorro lá na casa, pai?

As preocupações da próxima partida de Ulisses eram o chuveiro, o encanamento, o cheiro ruim do novo banheiro. Principalmente, a instalação dos armários e a chance de novas goteiras. Embora Ulisses deixaria sua ilha em pleno inverno seco.

– Vamos conseguir um cão sim, filha.

Ele sabia também que o peixe beta resiste bem ao tipo de vida que ele levava, entre mil compromissos e falta de horário para alimentá-lo. É um peixe guerreiro, indispensável. Quem sabe, alguma muda de planta para algum tempero, pensando no hábito que nunca adquiria de cozinhar em casa.

Alguma esperança de que Ulisses dessa vez não se preocupasse apenas com os assuntos do oceano e da vela. Mas também não havia como. Na mesma semana, assistiu a tantos náufragos chegando a praias europeias, depois de viverem bombardeios do Ocidente sem razão em seus países de origem. Ulisses não conseguia se preocupar apenas como a própria viagem. Ulisses não estava sozinho no mar.

A diferença do Ulisses, ou Ulysses, dessa narrativa é que talvez dessa vez não houvesse Penélope a costurar a espera de cada manhã. Ele vagava sem muito destino, sem se preocupar com a chegada. Daqui a pouco, mais cinco anos de mudanças, ele alcançaria os quarenta e não sabia ainda ao certo onde Ítaca, Telêmaco, Argos e Penélope residiam. Sua viagem tampouco se resumia à travessia de um único dia.

– Pai, e a casa vai ter algum ciclope?

Seria o grande desafio. Mas nosso herói ainda não conseguia enfim trapacear e abolir o próprio nome, agarrado à barriga de uma ovelha de brinquedo.

Tudo era narrado para a filha de memória mesmo, inventando mais coisas, misturando com outras histórias. Inclusive, Ulisses numa das ilhas encontrou um objeto tão pequeno, uma bolinha de gude, onde cabiam todos os outros objetos e todas as outras histórias do mundo, misturando a Odisseia com o Aleph de Borges.

Ulisses era inventor da própria Odisseia. E Ulisses ao final inventava a própria vida dele, mas não era cabível pensar que se pudesse comparar ao argonauta mais um frete contratado para carregar os móveis por dois quilômetros num bairro de Curitiba chamado Fazendinha. Ulisses agora se voltava às viagens curtas, a descoberta das belezas da região metropolitana.

A filha também animava-se com o novo, com a lagartixa camuflada na sala ainda vazia, estranha ao frio todo de Curitiba.

– A próxima ilha visitada não teria Circe e nem porcos, mas um jabuti para a gente aprender a andar mais devagar.

O gigante jabuti também era útil com sua couraça enorme. A couraça ajudava Ulisses a não contar que no fundo ele, migrante, estava longe ainda de derrotar o aluguel e o monstro do condomínio, os desacertos e as cinco separações, o crime e o castigo, os traumas, as delícias e o sangue vividos em Troia. Dos seus inúmeros calcanhares de Aquiles: Ulisses em silêncio.

A viagem estava decidida. Os preparativos, no início, a imobiliária, e os argonautas avisados previamente do esvaziamento do prédio. Cabeça navegante, sozinho, ele e a filha, no barco do frete caberiam ainda os seus vários tigres, casas de madeira e bonecas made in China.

– Para onde vamos, pai?

Para longe desse eterno mesmo lugar, vamos seguir nessa viagem interminável.

Conto de Pedro Carrano
Crônicas de Sexta
Terra Sem Males

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