UM DIA DE FÚRIA COM MEU AMIGO LARROY

Compartilhe esta notícia.

Esse mundo moderno é cheio de armadilhas. E meio amigo Larroy acabou caindo em uma delas. Por isso estava mais estressado do que o habitual. Ainda mais depois de trabalhar anos numa multinacional e ser demitido sem explicação.

Após o desligamento, ele me ligou. Explicou a situação e disse que foi pra casa naquele dia num inédito estado de nervos.

Já eu, como colega de Larroy, fiquei muito preocupado. Então resolvi preparar uma diversão pra amenizar seu sofrimento. E após desligarmos os telefones, pensei bem e resolvi resgatar algumas travessuras que fazia quando adolescente.

Meu objetivo era preparar um dia diferente pro meu nobre amigo.

“Ora Larroy, você me liga enchendo o saco, choramingando e tudo mais… e agora está regulando o carro? Vamos lá… você vai se divertir”, expliquei ao pedir o carro emprestado.

Eu realmente estava com a missão de proporcionar um dia inusitado na vida de Larroy. Afinal, ele dedicou tanto tempo em prol do desenvolvimento tecnológico de nossas terras produtoras de alimento que realmente esqueceu o que era uma diversão inconsequente.

“Tá bom tá bom… passa aqui e pega a chave, mas vê se não demora!”, disse meio contrariado Larroy.

Fui lá e peguei seu carro. Precisava fazer umas visitas a outros nobres amigos para esquematizar tudo.

Quando voltei à casa de Larroy era só embarcar e sair por aí.

“Bom Larroy, hoje você está a bordo, não diga nada, apenas se prepare pra descarregar seu sofrimento, vamos fazer barulho!”, e arranquei rumo à liberdade.

Uma pessoa demitida muitas vezes está aberta a novas experiências. Aproveitei-me desta situação pra fazer uma boa ação. Afinal, nos dias de hoje como viveríamos sem algumas fugas da realidade, não?

Larroy me explicou que essa crise mundial afetara toda a cadeia produtiva da empresa em que trabalhava, que as coisas não estavam bem. Por isso começaram os cortes dos trabalhadores.

Porém eu sabia que o buraco era mais embaixo. Após eu questionar meu amigo, ele revelou que perdeu seu emprego depois da chegada de outro trabalhador indicado pela cúpula da empresa.

“Se prepare meu nobre amigo, as coisas serão divertidas a partir de agora”  e acelerei seu carro em direção ao campo de lavouras e belos sítios.

Peguei um cd, inicialmente do Circles Jerks, e botei no volume máximo. Era a trilha do momento pra Larroy. Em meio à raiva nada melhor que aguçá-la. “Desliga isso pelo amor de deus!”, gritava Larroy. “Cala a boca e escuta… isso é ópera parceiro… ópera pra introduzirmos o holocausto”, gargalhei com o desespero de Larroy.

Na estrada de chão o carro do meu amigo voava. Longas retas e pista livre. O som estava rasgando nossos ouvidos, meu amigo olhava pra mim e pra estrada, esbugalhava os olhos. Vendo a cena, pergunto: “Hoje é o dia certo pra morrer?”. Larroy disse: “Nãoooooooo!”.

Empolgado com o som, acelerei pra 160 km/h.

Larroy, nervoso, já estava a fumar meus cigarros. “Grande Larroy, fuma aí parceiro!”, ele não respondia, apenas aflorava seus tiques nervosos. Muito engraçado olhar pra ele e ver que quando piscava, mexia também o canto da boca.

Avistei o sítio que queria, parei o carro num ponto estratégico. Dei mais um gole de cerveja. “Você está bebendo demais”, disse Larroy pra mim. “E você de menos!”, retruquei. Fui ao porta malas, o abri e peguei dois estilingues. Passei um pra Larroy. “Vem comigo”… e saí embrenhando um pequeno bosque que tinha nos arredores do sítio.

– O que estamos fazendo aqui? De quem é esse sítio?

– Calma Larroy, vem comigo parceiro.

– Você está completamente descontrolado seu retardado.

– Larroy… vamos lá cara… deixa de ser chato.

Meu amigo calou-se. “Melhor assim”, pensei comigo.

Eu queria o silêncio. Queria fazer isso novamente e dessa vez além de ser uma simples atividade regional, estaria proporcionando algo inédito pro nobre Larroy.

Paramos em frente ao chiqueiro do sítio. Nos deparamos com um monte de cachaços e aqueles sacos gigantes. Entreguei a Larroy umas bolitas… “vamos começar a diversão”, disse.

A segunda trilha sonora!

Peguei meu estilingue, carreguei e disparei à primeira. Tiro certeiro, bem nas bolas do cachaço. Ele soltou aquele grito… “mentaliza Larroy, veja no saco do cachaço as bolas do seu patrão… manda ver meu chapa”.

Larroy nunca havia atirado de estilingue, sempre esteve ligado ao computador e não ao regionalismo, vamos assim dizer. Preparou a primeira, me olhava contrariado, ajeitou seus óculos e mandou ver. Me surpreendi, realmente Larroy tinha talento pra coisa. Tiro certeiro e o cachaço soltou mais um berro.

“Esse patrão de merda vai ver só o que é bom”, disse Larroy. Depois colocou mais uma “bala na agulha” e mandou ver.

Eu também mandei ver.

“Vamos lá! Vamos lá!”, gritava meu nobre amigo. Os cachaços gritavam enquanto disparávamos.

Os olhos de Larroy brilhavam, ele não parava mais, parecia uma metralhadora. Cada grito do cachaço era como se meu amigo enfiasse uma faca no seu ex-patrão, realmente minha missão estava sendo bem sucedida.

Uma movimentação estranha. Escutei latidos de cachorro. “Vamos Larroy, temos que ir!”… “Espera… só mais uma!”… “Vamos!”… puxei meu amigo, pois alguém se aproximava.

Voltamos pro bosque correndo o que podíamos. Tropeçávamos em troncos, galhos, espinhos, mas nada podia nos parar. Chegamos ao carro, no porta malas joguei nossos estilingues.

Agora nossa trilha é Dead Kennedys, são eles que nos levarão ao próximo destino.

“Nossa… estou cansado… me dá uma cerveja”, disse Larroy. Mostrei a ele a bolsa térmica no banco traseiro. Ele pegou, abriu, deu um grande gole e acendeu um cigarro. “Esse não é o Larroy que conheço”, pensei com meus botões.

“Anda mais rápido!”, pediu Larroy. Por um momento fiquei em estado de choque, mas já que tocava “Drug me” e Jello Biafra berrava mais que um cachaço, tive que pisar fundo.

Numa encruzilhada reduzi, dei uns três zerinhos, levantei poeira, Larroy gritava e erguia sua lata de cerveja como se fosse um troféu. Parei o carro. “Ei… vamos lá… o que foi?”… “Calma aí cara, o segundo ato da nossa peregrinação vai começar”.

Do porta malas tirei duas doze cano serrado.

– Meu deus! Eu nunca tinha visto um negócio desse.

– Calma Larroy, agora sim que o bicho vai pegar.

– O que vamos fazer?

– Vai vendo…

Preparei as armas, entreguei uma pra Larroy. “Chega aqui”, disse pra ele. Caminhei até o meio da estrada, deitei no chão em posição de soldado no front, o alvo na mira. “Deita”, disse pra Larroy. Ele sem contrariar foi pro chão.

“Bummmmmm”… fiz o primeiro disparo contra uma plantação que nos cercava. Abriu um clarão! “Agora é sua vez, manda ver Larroy!”.

“Bummmmm”… outro clarão… a gargalhada de Larroy era empolgante… eu disparei outro e ele também… abriu mais ainda a lavoura. “Imagine que essa propriedade é do seu patrão Larroy!”.

“Carrega mais, carrega mais”, os olhos de Larroy brilhavam igual uma criancinha ganhando presente de natal. “Calma… vamos pra outro ponto estratégico” e só viramos o lado, ainda no meio da estrada. “Agora você vai ver o que é bom”, disse Larroy e mandou mais chumbo. O tiro do meu amigo levava toda a revolta da injustiça, estava com toda raiva acumulada e precisava liberar.

Armei mais vezes pra ele. Atiramos umas quatro vezes cada um, até que acabaram os cartuchos.

– Por que você não trouxe mais?

– Se liga Larroy, está bom… vamos nessa. Já abrimos um clarão. Temos que pisar fundo agora.

– Vamos lá!

– Vamos lá! – a sugestão foi aceita. Hey ho… vamos lá. E ao som do Ramones voltamos, depois do nosso ataque relâmpago regional, para nossas casas.

Parei em frente a minha casa, havia guardado nossas armas numa bolsa, então saí, com meus cd’s; me despedi de Larroy e subi as escadas. Meu amigo estava com os olhos brilhando, um momento eufórico. Nunca havia visto uma pessoa se divertir tanto fazendo algo tão sem noção.

No caminho de volta, quando escutávamos Ramones, o silêncio de nossas conversas, a velocidade, a paisagem, tudo isso se juntou e deixou que nossa mente trabalhasse enquanto tomávamos cerveja e fumávamos.

Olhava Larroy e via seu sorriso. Ele mexia seus óculos e arrumava sua camiseta, como se fosse resolver o problema de estarmos sujos de terra e machucados da corrida no bosque. Realmente aquele momento foi legal.

Larroy é bem sucedido, não precisa de favores, muito menos de pessoas como eu ao seu lado. Sempre foi a responsabilidade em pessoa, com grana e o mundo aos seus pés. E hoje ele me surpreendeu!

Não pelo fato de ter feito algo sem noção ou por ter aceitado me deixar dirigir seu carro, botar a trilha sonora, beber e fumar no seu recinto.

A grande surpresa disso tudo foi na hora que entrava no prédio onde moro, Larroy me chamou e disse:

– Ei amigo! Obrigado.

 

Por Regis Luís Cardoso
LP – Crônicas musicais
Terra Sem Males

 

anuncio-tsm-posts

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *