Uma picape, dois motoristas e quatorze sonhadores

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Marcelo, Zizo, Maristela, Sônia, Glória, Lelo, Bel, Salete, Luiz, Gorete, Carlos, Zeca, Inária e Cesar. Acredito não ter esquecido ninguém. Ao todo, somava-se quatorze. Obviamente não estou a descrever membro de um time de futebol amador misto com direito à reservas. Eram jovens de origem intelectual e econômica diversificada: agricultores, professores, estudantes, comerciantes e funcionários públicos, os quais se reuniam para se formar enquanto cidadãos e cidadãs e ao mesmo tempo transmitir algo novo para os demais. Um grupo de jovens sonhadores que imaginavam poder construir um mundo novo, em que homens e mulheres pudessem conviver no mesmo espaço e com a mesma dignidade. Era uma equipe Missionaria da Paróquia Nossa Senhora da Imaculada Conceição em Angelina/SC.

Como foi minha integração nesta equipe?

Ainda impactados com a animação promovida pelas missões populares e com grupos de jovens em todas as comunidades, Glória uma dos Membro da equipe estava se preparando para viver a experiência do projeto “Igrejas Irmãs”, a qual permaneceria por um ano no interior da Bahia. Neste processo é organizado um encontro de lideranças juvenis na comunidade de Barra Clara. Como na época ainda nenhum veículo motorizado e de bicicleta não valia a pena devido aos morros, então o jeito foi andar os onze quilômetros a pé. De repente, no meio do morro alguém para e me dá uma carona para o restante do trajeto. Este alguém era o Padre Italiano Paulo de Coppi do O Pontifício Instituto das Missões Exteriores – PIME que estava indo para animar a reunião.

Neste encontro animado por Paulo de Coppi, percebemos que seria necessário criar uma equipe que animasse os jovens das comunidades rurais da paróquia, a qual envolvia dois municípios: Angelina e Rancho Queimado. Assim, decidimos, além de criar a equipe, batiza-la de “Equipe Missão Jovem”, que aos sábados à tarde tinha a tarefa de visitar as comunidades num primeiro momento com os jovens e depois eram cursos de pais e padrinhos, organização da comunidade nas diversas áreas pastorais, além da organização dos agricultores como um todo.

Como material de apoio, estudo e reflexão tínhamos três subsídios: 1. Assinatura do Jornal Missão Jovem, produzido pela equipe do PIME; 2. Assinaturas do Jornal Mundo Jovem produzido pela PUC de Porto Alegre; e, 3. Coleção de material produzido pela Diocese de Passo Fundo/Pastoral da Juventude Rural “Jovem da Roça Também tem Valor”.

Frei Ceciliano Meurer, Pároco de Angelina, um franciscano gente boa que por sua obesidade não andava em carro de passeio, tinha uma picape para fazer as visitas pastorais, da qual negociamos que este seria o meio de transporte para a equipe. Conseguimos dois motoristas já habilitados (Zizo e Carlos), que tinham a tarefa de levar a equipe nos sábados para as comunidades.

A equipe era bem estruturada e com tarefas bem definidas de acordo com as características individuais de cada um. Bel e Glória, eram responsáveis pela mística e reflexão; Goretinha, Inária e Sônia pela animação, Zeca e Maristela com a organização, Zizo, Carlos e Marcelo com a estrutura. E assim íamos construindo as reflexões e os debates nas comunidades da Paróquia.

A cada trimestre era dedicado um final de semana para a formação da equipe e algumas vezes acompanhados pelo Frei Nereu Rampinelli, que entre uma reflexão e outra descansava as pálpebras, enquanto fazíamos o debate.

Alguns eventos marcaram aquela época tanto no município, como na paróquia. O Festival de Música da Juventude Franciscana – JUFRA (Grupo de Jovens da Sede do Município) que reunia os talentos do Município, lotava o salão paroquial e cada comunidade tinha seus cantores que apresentavam suas músicas interpretadas ou inéditas.

O Grupo de Teatro que apresentava a Paixão de Cristo todos os anos nas comunidades e em algumas delas mobilizava de forma ecumênica com integrantes de diversas comunidades.

Da vigília da quinta-feira santa com recepção de jovens de outras paróquias da região que caminhavam até o Santuário, firmando-se até os dias de hoje numa das noites mais movimentadas da sede do Município.

Da Romaria Ecumênica dos Agricultores e Agricultoras reunindo pela primeira vez o Arcebispo Arquidiocesano e o Pastor Luterano na mesma celebração.

Claro que nem tudo eram flores. Quando um grupo de jovens que se formava pastoralmente e politicamente mexia com todo mundo gerando muitos conflitos. Na vida das comunidades os mais conservadores não queriam mudanças, pois perderiam poder e espaço e da mesma forma nas instituições políticas e sociais do Município havia muita reserva, pois na medida em que avançávamos em nossa organização, também começávamos a questionar e a empreender novas ideias e projetos. Não era possível permitir que um grupo de jovens questionasse o jeito e a fórmula adotada até aquele momento nas estruturas municipais. Era necessário cortar o problema pela raiz. Mas aí já tarde, pois os meninos e meninas que começaram nos grupos de jovens das comunidades tinham se organizado, se formado e adquirido seu próprio protagonismo.

Com o passar do tempo, cada um foi caminhando por outros espaços. Padre Paulo de Coppi está em São Paulo formando novos Missionários. O Jornal Mundo Jovem fechou. Os Freis Ceciliano e Nereu já faleceram. O Carlos, o Lelo, a Maristela e o Marcelo, não sei por onde andam. Luiz continua agricultor e militando na comunidade. Zizo continua tocando os negócios da família e também militando na comunidade. Goretinha, Salete e Glória já se aposentaram e continuam militando. Inária acredito que também já se aposentou. Cesar virou servidor público e continua desenvolvendo seus projetos de arquitetura. Sônia virou Professora e continua militando na comunidade. Bel virou Servidora da Justiça e continua militando no movimento de adoção. E eu? Eu depois de andar o mundo continuo fazendo consultoria sobre Planejamento e Desenvolvimento Sustentável e militando onde sou chamado. Enfim, quase todos ainda militando cada um seu espaço que as lutas lhes oportunizaram ou que conseguiram resistir e superar as várias portas que lhes fecharam por medo do novo.

Ainda hoje, caminhando pelas comunidades deste país, encontramos jovens em todos os lugares e espaços tentando furar a bolha e construir algo novo. no entanto, são impedidos pelos “adultos” que se enclausuram nas direções seja em qual espaço for, não permitindo o protagonismo juvenil, mantendo as velhas práticas, velhos métodos, com medo de ser dirigido por alguém que aprendeu com ele próprio e que agora precisa ensinar.

José Claudenor Vermohlen (Zeca), consultor.

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