Uma prosa com Kelli Mafort: a luta das mulheres sem terras

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Por Eduarda Aparecida Domingues*

As mulheres sem terras são sem sombra de dúvida protagonistas essenciais na luta pela reforma agrária popular, pela sustentabilidade e pela soberania alimentar. São importantes agentes de transformação social, conforme muito bem retrata Zé Pinto em sua canção: “Pra mudar a sociedade/ Do jeito que a gente quer/ Participando sem medo/ De ser mulher”. 

Neste ano, em meio a uma conjuntura tão adversa, dado o governo retrógrado, a pandemia mundial do Covid-19 e todas suas implicações, as mulheres sem terra construíram sua jornada de lutas, tendo como pauta a luta pela vacina como um direito de todos; a necessidade de manutenção do auxílio emergencial com um valor digno, capaz de suprir as necessidades basilares das famílias vulnerabilizadas e a emergente necessidade de mobilizar a população contra o Bolsonaro. Assim, no mês de março, mês de luta pelos direitos das mulheres contra as desigualdades e retrocessos, as mulheres sem terra levantaram a bandeira: “Mulheres pela vida semeando resistência, contra a fome e as violências”.

Por isso, para entender um pouco mais da realidade dessas mulheres trabalhadoras e construtoras de lutas, foi convidado a companheira Kelli Mafort para explicar um pouquinho dessa realidade.

De acordo com Kelli: “A vida das mulheres trabalhadoras é uma batalha diária, pois enfrentam constantes sobreposições de opressões de gênero, raciais, étnicas e de diversidade sexual, vinculadas à dominação de classe. Falar das mulheres sem terra, é explicitar essas diferentes dimensões, e ao mesmo tempo, trazer presente a potencialidade organizativa e a ousadia rebelde, presente nas lutas.

Podemos dizer que as mulheres sem terra tem três expressões fundamentais que sintetizam sua atuação:

– Organização: a organização de base nos territórios possibilitou que as mulheres conquistassem paridade de gênero nas instâncias do MST e nos cursos de formação, enfrentando a violência doméstica, o machismo preconceitos e o racismo.  Criamos o setor de Gênero do MST em 2000, mas antes disso já estávamos construindo um longo processo organizativo presente desde as primeiras ocupações de terra. Forjamos a agroecologia como modo de vida e assim pudemos contribuir na construção da Reforma Agrária Popular, que é o programa do MST para a sociedade. Em 2014 contribuímos para a organização do Coletivo LGBT Sem Terra e com isso fomos percebendo o quanto somos diversas, incorporando as mulheres trans aos nossos coletivos. Temos como desafio o trabalho com os homens, pois entendemos que o tema de gênero diz respeito à emancipação humana, e sob o protagonismo das mulheres, precisamos arrebentar todas as correntes e envolver todos, todas e todes sujeitos sociais da luta.

– Formação Política: dimensão fundamental para as mulheres sem terra, que através de cursos, espaços de troca e formação, foram se apropriando de conhecimentos amplos e diversos. Rechaçamos a divisão sexual do trabalho que nos joga para a esfera dos cuidados e da reprodução social. Cada vez mais nos aprofundamos coletivamente para dominar a economia, a filosofia, a história, a ciência e a artes. Forjamos na nossa trajetória os cursos de Feminismo e Marxismo, bem como diversos cursos e oficinas e várias frentes teóricas. Também nos esforçamos para coletivamente impulsionar a escolarização das mulheres, seja nos espaços de educação de jovens e adultos, através do Sim eu Posso, até níveis de graduação e pós graduação para nos tornarmos, médicas, advogadas, veterinárias, educadoras etc.

– Lutas: pensar em mulheres sem terra é pensar em lutas! Esse sinônimo foi conquistado enfrentando muitos desafios. A partir dos 8 de março, não somente afirmamos que “sem mulher a luta vai pela metade”, como também forjamos o caráter das lutas de enfrentamento ao capital, a partir da luta com a Aracruz Celulose em 2006.

Além disso, fomos nos organizando numa perspectiva continental e mundial, e construímos a perspectiva do Feminismo Camponês e Popular – com Identidade e Revolucionário. Suas bases estão estruturadas a partir de uma análise da realidade do campo em nível mundial, que identifica elementos comuns em toda parte onde atuamos como Via Campesina/CLOC: a apropriação e especulação financeira sobre os bens naturais pelas empresas transnacionais, a padronização das commodities agrícolas e minerais como modelo hegemônico no campo e o forte aparato do Estado, como um braço do capital”.

Conhecer a realidade das mulheres sem terra é indispensável para desconstruir pré-conceitos e estigmas tão latentes na sociedade brasileira. Quem vê as mulheres mobilizadas em ocupações, atos e protestos, com suas bandeiras e suas chitas, muitas vezes nem se questionam de suas pautas e reivindicações e sem entender, apenas reproduzem a discriminação tão arraigada no subconsciente popular.

Parafraseando Bertolt Brecht, “Que tempos são estes, em que temos que defender o óbvio?” Infelizmente, dada a conjuntura, a cada dia temos que defender o óbvio e lutar por direitos historicamente conquistados e que graças a esse desgoverno foram extintos.

As mulheres sem terra são um símbolo de luta e resistência, estas que nos inspiram  a lutar cotidianamente por um país melhor.

 1 Acesse a matéria coompleta no site: <https://mst.org.br/2021/03/26/balanco-da-jornada-de-lutas-das-mulheres-sem-terra-em-2021/ > Acessado em 28/09/2021.

2 Kelli Cristine de Oliveira Mafort – Pedagoga, mestre e doutora em Ciências Sociais pela Unesp Araraquara. Coordenação Nacional do MST, assentada da reforma agrária. 

* Eduarda Aparecida Domingues é advogada formada pela Universidade Federal do Paraná e pós graduanda em Direito Penal na Faculdade Metropolitana, assentada, militante do MST e colunista do Terra Sem Males. Instagram: @dudinea_maria

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