Uma prosa sobre a Jornada Nacional de Lutas das Mulheres Sem Terra

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Por Eduarda Aparecida Domingues*

“Por terra, trabalho e direito de existir! Mulheres em luta, não vão sucumbir”. Esse foi o tema da Jornada Nacional de Lutas das Mulheres Sem Terras de 2022, que em diversas regiões do país, saíram às ruas contra as multinacionais do agronegócio e em defesa da vida das mulheres.

“Eu não vou sucumbir, eu não vou sucumbir”. Certamente, se você ouviu, assistiu ou presenciou as reivindicações das mulheres sem terra, você se arrepiou com essa música. Primeiro porque essa letra traz a força das mulheres que lutam pela sua libertação e se recusam a sucumbir nesta sociedade machista e patriarcal. E em segundo, em razão da passagem de Elza Soares no dia 20 de janeiro deste ano, que tanto representou com sua voz e trajetória.

Para entendermos melhor as pautas das mulheres sem terras neste mês, convidamos a companheira Claudete Pereira de Souza, Dirigente Estadual do MST/SP. De acordo com Claudete: “Este ano as mulheres Sem Terra de todo o Brasil saíram às ruas em denúncia ao modelo de fome e de destruição do capital. Estamos de volta ao mapa da fome da ONU, enfrentando uma crise econômica, o aumento do desemprego e da precarização do trabalho, das violências e ainda no contexto da pandemia. E sabemos que as mulheres são mais atingidas por esse fatores e estão mais expostas à opressões e precarizações, em especial as mulheres não brancas. Os sujeitos LGBT também se somam à luta das mulheres no nosso 8 de março.

Este ano, com o lema: “Por Terra, Trabalho, Direito de Existir! Mulheres em luta não vão sucumbir!” Denunciamos a PL do veneno e as empresas e políticos envolvidos com esta PL que está levando ainda mais veneno à mesa das famílias brasileiras.

No estado de São Paulo, fizemos também a denúncia em relação aos despejos. Alertando para o crime que é despejar famílias nesse momento sem nenhum tipo de responsabilização pelo poder público em prol dessas famílias”.

De acordo com o material produzido pela Rede de Combate à Violência Doméstica do MST/SP,são mais de 23.500 famílias despejadas e 123.153 ameaçadas de despejo1.

A dirigente também conta que foram organizadas ações solidárias, em diversos Estados, plantando árvores, escrevendo cartas, distribuindo alimentos agroecológicos e organizando mutirões de doação de sangue.

Ao perguntarmos sobre as limitações impostas pela pandemia para as mobilizações das mulheres sem terras, Claudete relata que: “O MST preza pela vida. Por isso temos o máximo de cuidado com nossa base, principalmente em relação aos riscos impostos pela pandemia. Assim, optamos por atividades com menos mulheres, evitando aglomerações, com uso de máscara e seguindo os demais protocolos sanitários recomendados.

As ações descentralizadas foram pensadas para envolver o máximo de companheiras possíveis em nossas atividades, de forma segura. Isso faz com que a gente perca o caráter massivo que tanto nos alimenta, mas estamos conscientes da necessidade do cuidado pela vida”.

A Jornada Nacional de Luta das Mulheres Sem Terras de 2022 é de suma importância, observado o contexto sócio-econômico do Brasil neste período pandêmico.

Com o poder de compra reduzido do salário mínimo, em face do alto índice de inflação atual, a fome e a insegurança alimentar voltam a ser realidade no Brasil.

Segundo dados divulgados em 2021 pelo Inquérito Nacional Sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia do Covid-19, desenvolvido pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional – Rede Penssan, 55,2% das famílias brasileiras vivem um cenário de insegurança alimentar, o que totaliza em 116,8 milhões de brasileiros sem acesso pleno e permanente à comida2.

Exercendo sua solidariedade, o MST doou mais de 6 mil toneladas de alimentos e 1.150.000 marmitas para pessoas e famílias inteiras em situação de fome e insegurança alimentar em todas as grandes regiões do país desde o início da pandemia3.

As mulheres sem terras são agentes fundamentais na produção de alimentos nas áreas de acampamentos e assentamentos. E neste mês de março, mostraram sua força e organização, denunciando injustiças e buscando a concretização de seus direitos.

1 Você pode assistir o vídeo no endereço: https://www.instagram.com/tv/CbA0BavgO80/?utm_medium=share_sheet

2 Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2022/02/como-o-brasil-chegou-ao-atual-cenario-de-fome.shtml . Acesso em março de 2022.

Disponível em: https://www.brasildefato.com.br/2022/02/01/inflacao-e-desemprego-devem-agravar-fome-no-brasil-em-2022-diz-economista#:~:text=A%20partir%20de%20uma%20amostra,e%2019%20milh%C3%B5es%20passavam%20fome. Acesso em março de 2022.

3 Disponível em: https://mst.org.br/2022/01/14/mst-ultrapassa-6-mil-toneladas-de-alimentos-doados-durante-a-pandemia/ . Acesso em março de 2022.

* Eduarda Aparecida Domingues é advogada formada pela Universidade Federal do Paraná e pós graduanda em Direito Penal na Faculdade Metropolitana, assentada, militante do MST e colunista do Terra Sem Males. Instagram: @eduardaadvocacia

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