Velhos peixes envelhecem

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Por Pedro Carrano
Mate, café e letras – crônicas latinoamericanas

Eu e minha filha não sabíamos mesmo que os peixes ficavam velhos.

Acabamos descobrindo juntos esse fato estranho da biologia. Pra mim os peixes morriam nalgum lugar do oceano e eram trazidos à beira da praia, entre as ondas e espumas, servidos às gaivotas e urubus.

Ou caíam nas redes dos pescadores, mais tarde na bancada do mercado, ajustados ao gelo, e talvez ali ainda conseguissem respirar mais um tanto e dar um último bocejo. Ou podiam até ter nascido e se criado no prato do jantar. Era o que eu imaginava ainda criança, quando um nome do peso de “cação” me despertava uma série de imagens pra muito além daquelas postas macias de carne cortadas sobre o prato.

Peixonauta é o nome do nosso beta. Ele é um dos poucos espécimes do reino animal que se adaptaria à rotina de ausências, de horas quebradas, viagens e dias fora. É independente, não cobra atenção nenhuma, nem é dado a grandes carências. Tenaz, aguenta a fome com a abnegação de um guerrilheiro. Artista de espaços públicos, quando nos aproximamos do aquário ele está ensaiando os seus rodopios, parado no centro do aquário, tipo um bailarino levado à órbita da lua, usando a sua cauda como vestimenta para alguma dança desconhecida.

Betas são dados à solidão. Fazem uma luta de morte se colocados ao lado de outro da mesma espécie. São vorazes se estão com fome. Condicionado, logo de manhã peixonauta já espreita os movimentos de minha sombra na cozinha.

Ele não morreu no inverno, porque estávamos precavidos depois da experiência frustrada com outro beta, porém agora “peixo” aos poucos estava perdendo força e a capacidade de equilibrar-se na água com as nadadeiras. Parecia um daqueles personagens de desenho animado com uma bigorna amarrada nos pés – ou nas guelras. Uma situação estranha, que demoramos a perceber. Ele simplesmente não se sustentava mais. Passou a cavar com a longa cauda uma espécie de buraco no fundo do aquário e se estendia ali – velho cão aposentado. Imobilizado, respondia às bolitas de ração transgênica com enorme esforço. Tomava um impulso e disparava, foguete lançado do fundo do aquário até a superfície onde as bolotas flutuavam. Ofegante, às vezes ele não vencia o trajeto e voltava despencando, como se a água perdesse a densidade e peixo estivesse condenado ao chão assim como nós. Ele parecia esgotado e sempre voltava à sua toca improvisada.

Essa situação foi literalmente se arrastando. Cheguei a perguntar à filha se não era o caso de retirar a água do aquário aos poucos e encerrar de vez aquele estranho sofrimento. Mas ela não aceitou. E ficou um pouco chateada comigo desde a minha proposta – empatia que, cada um ao seu modo, desenvolveu com esse ser que custa menos de dez reais.

Ao menos na minha cabeça fiquei tranquilo ao lembrar que peixonauta certamente não suportaria minha próxima viagem e os quatro dias fora. Me preparei para a cena de regresso, quando imaginei ele finalmente boiando sem esforço na terceira margem do aquário, de barriga pra cima.

Minha filha mantinha naqueles dias um olharzinho melancólico. Eu me perguntava se tudo aquilo era por causa da situação do beta. Ontem, a mãe dela me ligou, querendo saber se a pequena havia falado algo nesses dias sobre um homem que se suicidara no seu conjunto residencial.

 

– Ela me falou por cima, respondi.

– Mas disse que ela viu?

– Não, disse que uma amiga contou. Achei estranho.

– É que na verdade o vizinho se matou amarrado na janela. O IML demorou para chegar. O porteiro falou que ela e as crianças acabaram vendo do pátio o corpo pendurado.

– Ela não me disse nada disso.

Dias depois, no regresso da viagem, quando acendi a luz, o aquário encoberto pelo musgo e a água toda borrada de verde, preferi tirar as coisas da mochila antes de dar a última mirada em peixonauta.

A casa estava silenciosa e o aquário na mesma sintonia. Mas, pendurado numa das suas árvores de plástico, como costumava fazer, ele balançou o corpo e uma das barbatanas, ansioso pela comida. Parecia saído de uma hibernação. Ainda não era daquela vez. Ainda havia uma fagulha elétrica de vida no seu corpo e nos seus olhos de peixe. Dias depois, concluímos que peixonauta não iria morrer tão cedo. Era um forte. Um samurai de muitas vidas.

Ela também ficou feliz e me abraçou ao chegar a casa e ver ainda o beta em alguns frágeis ensaios com a sua cauda gigantesca e colorida. Nos abraçamos. Chegamos a planejar que podíamos colocar a coleção de conchas dentro do aquário quando ele ficasse vazio, mas o fato é que seguimos naturalmente cuidando e deixando as paredes de vidro limpas e bem transparentes.

E também não comentamos mais, nem por cima, o caso daquele homem da janela de vidro.

 

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