ENTREVISTA EXCLUSIVA || Veneri defende oposição a Greca e Ney Leprevost em Curitiba

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Deputado estadual que foi candidato a prefeito também condena politicagem do governador Beto Richa.

Por Manoel Ramires
Terra Sem Males

O deputado estadual Tadeu Veneri cumpriu uma difícil missão na eleição municipal: ser candidato a prefeito pelo Partido dos Trabalhadores para manter vivo o partido e reiniciar o processo de reconstrução da identidade do PT. Com o slogan de enfrentar “Os donos da cidade”, ficou na sexta colocação do primeiro turno, somando cerca de 40 mil votos. Votação que se fosse somada a Gustavo Fruet (PDT), o colocaria no segundo turno. Passada um pouco mais de uma semana após a eleição, Veneri diz que não apoiará Ney Leprevost ou Rafael Greca. O petista enxerga muitas semelhanças entre as duas candidaturas e, por isso, prega que o PT e a militância deve partir imediatamente para a oposição qualificada e programática como a que ele faz na Assembleia Legislativa contra o governo de Beto Richa (PSDB). Nesta entrevista exclusiva concedida ao Terra Sem Males, Veneri também projeta o futuro da esquerda, do movimento sindical e aborda a tentativa de construção de uma frente ampla de esquerda.

Terra Sem Males | Qual é a sua avaliação do resultado final do primeiro turno em Curitiba.

Tadeu Veneri | O resultado eleitoral é uma fotografia do momento. Nessa foto aparece a crise econômica, a desorganização dos movimentos sociais tanto no plano nacional como estadual, refletindo na eleição de Curitiba. Contudo, entendo que o tema predominante da eleição não foi discutir a cidade, mas as realizações ocorridas na cidade. Isso significa discutir quantas unidades de saúde serão feitas, quantos cmeis, debater se a tarifa do ônibus sobe ou cai, entre outros. Eu acho que esse não era o debate principal. A discussão para mim sempre foi entender como a gente mudaria o perfil da cidade atacando pontos centrais. Ou seja, discutir quem são os donos da cidade e tem o poder de fazer com que Curitiba possa prosperar. E esse tema tem muito pouco apelo do ponto de vista eleitoral, mas é de grande importância do ponto de vista político.

TSM | Mas o senhor acredita que foi eficiente nessa discussão sobre os donos da cidade?

Veneri | Eu entendo que sim. A votação não reflete a compreensão. Eu recebi muitas mensagens de pessoas concordando com a nossa postura, mas que rechaçam o PT. Por isso, eu acho que a mensagem foi compreendida.  O que não houve foi tempo necessário para que isso fosse transformado em voto. Em outro momento, quem sabe, esse debate possa ser feito com mais tranquilidade e quebrando um bloqueio no processo eleitoral no país todo e em Curitiba também. Afinal, o fato de você ter a dois anos a desqualificação do partido por meio da operação Lava Jato,  isso faz com que as pessoas passem a desacreditar na política como um todo.

TSM | O tema “Lava Jato” não foi mais explorado em São Paulo e Rio de Janeiro do que em Curitiba?

Veneri | Eu não acompanhei as campanhas nessas cidades. O que eu tenho claro é que a Lava Jato não foi tema principal em Curitiba porque nós tivemos candidatura própria e com perfil de enfrentamento. Essa é uma característica minha desde quando eu fui vereador. E isso tira a impetuosidade para que os outros candidatos fizessem acusação, até porque tem candidatos ligados ao governador Beto Richa, ao PSC e a outros partidos que de alguma forma estão ligados – direta ou indiretamente – às investigações que ocorrem. Portanto, a Lava Jato tem um peso nesta eleição muito mais ligado ao imaginário das pessoas do que outra coisa. Tanto é que ninguém ligado a operação tem a perspectiva de sair candidato. Se sair, talvez pudéssemos fazer uma avaliação sobre o que a população pensa das pessoas que promovem a Lava Jato.

TSM | Com relação a sua campanha, o que poderia ter sido feito diferente?

Veneri | A gente identifica que ocorreu um recuo das pessoas em fazer um debate aberto. Isso se modificou ao longo da campanha com as pessoas se manifestando. Tanto é que a nossa candidatura foi a que mais teve contribuições voluntárias do que todas outras juntas. E também, em consequência desse voluntariado, se identificada bloqueio brutal de recursos financeiros se comparada às outras campanhas. Teve candidatura que o voto custou R$ 15. O nosso custou R$ 3,92. Além disso, a gente percebe que houve migração de votos nossos para o candidato Gustavo Fruet com o objetivo de garantir que o Greca não ganhasse a eleição no primeiro turno. Enfim, o fato de se ter pouco recurso financeiro limitou demais nossa campanha. Também tivemos uma chapa de vereadores reduzida. Foi a menor em toda a história do PT em Curitiba desde 1982. Nós lançamos um terço das candidaturas possíveis, sendo que desses, muitos foram candidatos de forma heroica. Ou seja, sem estrutura ou experiência.

TSM | A desunião das esquerdas não é também um diagnóstico do fracasso eleitoral? E é possível iniciar uma frente de esquerda?

Veneri | Eu não sei se isso é possível porque existem muitas especificidades em cada mandato. Se você analisar, faltaram 300 votos para o PT fazer seu segundo vereador. Ao PSOL em torno de dois mil votos. Ou seja, se a gente tivesse mais cinco candidatos, a gente poderia eleger dois ou até três vereadores. Acredito, portanto, que a união principal não deve ocorrer do ponto de vista eleitoral, mas de programa e de ação. Nesta eleição eu percebi um nível de colaboração entre os candidatos do PT, PSOL, PCdoB, PDT e até PMDB muito grande.  Houve uma compreensão de que o adversário é outro. Nós não temos que disputar votos entre nós, mas com os candidatos da direita mais conservadora que estão no campo da Maria Victória, do Ney Leprevost e do Rafael Greca. É com eles que temos que buscar o voto porque existe uma parcela desse eleitorado que nós não dialogamos, mas queremos representar. É o caso de setores mais explorados da população.

TSM | No segundo turno, o senhor e o PT pretendem apoiar Ney ou Greca?

Veneri | O PT ainda não se reuniu para tomar uma posição. Eu, particularmente, vou fazer oposição. Por uma razão simples: ambos construíram suas candidaturas falando mal de políticas públicas que foram adotadas por governos petistas. Ambos se construíram buscando uma fatia do eleitorado que é avessa ao que nós pensamos. Na política não cabe hipocrisia. Eu não me sinto confortável em fazer aliança com qualquer um dos dois.

TSM | E que tipo de oposição o senhor vai construir em Curitiba?

Veneri | Eu fui oposição durante oito anos aos ex-prefeitos Greca e Cássio Taniguchi. Sou oposição ao Richa e em algumas questões pontuais ao Roberto Requião. Eu entendo que a oposição não pode ser burra. Eu não me oponho à pessoa, mas ao projeto e ao programa que a gente acredita que não sejam boas para a cidade. Se um dos dois falar que vai reabrir quinhentas vagas em berçários, de forma transparente e não terceirizando o serviço, obviamente que não serei contra. Agora, se quem assumir decidir terceirizar creches e berçários para atender a demanda e, consequentemente, esvazia o papel do estado, eu sou contra. A oposição deve se constituir pelos princípios que nortearam a candidatura. Eu quero debater IPTU progressivo, sobre especulação imobiliária, zonas habitacionais de interesse social, gastos absurdos no lixo, sonegação fiscal de impostos. É nesse sentido que vou atuar.

TSM | Por fim, como o senhor avalia o calote do governador nos salários dos servidores estaduais e o cenário nacional com relação a PEC 241? Como fazer o enfrentamento?

Veneri | Beto Richa pratica a velha política udenista e moralista. Na primeira oportunidade, ele desmancha todo discurso político e vai em direção oposta ao seu discurso para obter vantagem. O que ele fez era previsível. Ele aguardou que o seu candidato fosse para o segundo turno e já não tinha mais nada a esconder.

Acho que a resistência é uma obrigação. No entanto, o movimento sindical precisa se reciclar. Atualmente, o movimento só consegue visibilidade quando parte para o confronto em momentos extremamente difíceis ou avança em momentos favoráveis. Cito como exemplo a greve dos bancários. Durante doze anos, a categoria fazia greve com aumento real e as pessoas ainda saiam insatisfeitas dizendo que o sindicato e o governo não ajudavam. Houve uma acomodação. Agora, no primeiro ano em que se tem um governo adverso, você sai de uma greve sem aumento real e ainda fazendo grande esforço para não ter dias descontados. Ou seja, são momentos de adversidade. E é nessa conjuntura que o movimento sindical e os partidos de esquerda têm que se reciclar para não ficar apenas no discurso de vitimização.

Os processos estão na Câmara dos Deputados há muito tempo. É uma retomada da pauta de 1994. Muito ficou suspenso na eleição do presidente Lula e está sendo retomado com força.

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