Você me havia prometido um final de semana sob o sol de julho

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Foto: Pedro Carrano.

Você me havia prometido um final de semana sob o sol de julho, com o sal leve no ar de Antonina, misturado com aquela luz pesada e fria do final da manhã.

Você também me prometeu que iríamos cozinhar os peixes comprados no mercado. Bagres com tons amarelos vendidos por aquela moça indígena que trabalhava ao lado daquele senhor mudo, velho caiçara da região.

À tarde, de acordo com a sua narrativa, poderia ser gasta vagabundeando no trapiche, ou até mesmo emprestando do tal do André – que você cita tanto – os caiaques que ele aluga para os turistas.

E a gente iria se perder na baía e repousar os barcos naquelas pedras no meio do mar, de onde é possível ver o porto do outro lado. E o mundo dando aquela falsa impressão de não ter limite algum.

Você me prometeu tudo isso quando me visitou. Era um sábado também de sol e o pedaço de céu que a gente via, no buraco entre o telhado e a janela, motivou a promessa. Eu imaginei que o céu de Antonina pudesse ser azul daquele jeito e a gente supôs que pudesse em pouco tempo conferir esta hipótese.

Naquele sábado também a gente achou que faltasse pouco, mas eu entendo a sua promessa de que no próximo final de semana já estaríamos esparramados pelas ladeiras do litoral, pelas esquinas onde a gente tomaria cerveja sem qualquer noção de limite, embalados pelo órgão emitindo sucessos sertanejos, naquela madrugada arrastada como um bailado.

Eu estava quase dando adeus àquela situação, e embarcar na baía coincidia com uma nova fase. Um homem na estrada recomeça sua vida, experimentando as velhas novas coisas.

Tudo isso você me prometeu e eu fiz o exercício: caí na armadilha de novamente não domar minha expectativa. E me permitir sonhar.

Tudo isso você me prometeu. Mas acontece que eu continuo aqui esperando a convocatória do júri, que nunca acontece, enviando cartas que não sei se chegam e recebendo outras aqui na cela com o carimbo prévio da censura.

Algum juiz desconhecido decidiu adiar uma vez mais o júri. Já são três anos e eu ainda sequer fui condenado. Por isso teimo em ficar pensando naquele sol de Antonina no feriado que você me prometeu.

Por Pedro Carrano
Crônicas de Sexta
Terra Sem Males

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