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Arte: Dominic Thackray

“Na música há agentes que propagam, com raiva, alternativas e colocam o dedo na ferida. Sempre foi assim. Desde o blues até o rap. Na política, o ódio é um agente medieval; uma raiva retrógada que parece um remix ditatorial. Isso ecoa, mas é um canto sem tom. Sem feeling” – do meu amigo Diabolô.

Conheci Enzo no trabalho, quando era recepcionista num hotel. Ele trabalhava de mensageiro e o apelidei de Diabolô. Era rápido como um tiro, mas não tão rápido quanto uma bala de fuzil, por isso levou o título de um chumbinho de espingarda de pressão.

Nós já mudamos de emprego, mas volta e meia surge alguns encontros pra colocar a conversa em dia. E ontem não foi diferente. Conversa vai conversa vem, o papo normalmente é sobre música e política.

– Lembrei de você semana passada (disse meu nobre amigo Enzo Lino, mais conhecido como Diabolô).

– Aé, por quê?

– Lembra que você colocava Dead Kennedys no radinho da recepção do hotel? Quando não tinha ninguém por perto?

– Claro! Bons tempos…

– Então: li semana passada num site de música que há 35 anos Jello Biafra, vocalista do DK, se candidatava a prefeito de San Francisco. O cara ficou entre os quatro candidatos mais votados, entre os dez que disputaram.

– (Rs) Pois é, tô ligado nessa história. Imagina o cara cantando “California Über Alles” no comício?

– (Rs) Cara… isso era uma coisa que eu queria ter visto.

– Eu também.

– Que pira né. Você já imaginou um prefeito hardcore?

– Nunca! Mas gostaria de ver…

– Eu também! Mas diz aí Diabolô, o quê você faria se fosse prefeito?

– Ah, sei lá cara. Só sei que se fosse o Jello Biafra, faria a mesma coisa que ele fez…

“Veja como são as coisas, nos livramos de ter um Mick Jagger político e agradecemos por termos os Stones. Também agradecemos por não ter a Gimenez como primeira dama” – Diabolô.

– Rock e política! Fico imaginando como seria se um cara tipo o Mick Jagger fosse prefeito de algum lugar!

– Olha brother. Se fosse o Jagger, acho que não seria uma boa ideia. Tá certo que ele está de aniversário, porra… 72 anos! Mas olha só… (e meu amigo detalha sua análise):

“Contando os inúmeros casos extraconjugais do vocalista dos Stones, acho que ele seria um político propício ao PMDB. Sabe aquela coisa, um passo na situação outro na oposição. Uma figura política, digamos assim, que não passaria confiança. Até porque ele tem a benção da realeza britânica, o que tenderia ao conservadorismo” – Diabolô.

– (Rs) Boa! Mas e se fosse alguém mais pop. Digamos! Deixe-me ver… o Dave Grohl?

– Olha… o Grohl seria tipo um Foo Fighters, superestimado pelo fato do cara ter tocado no Nirvana. Por outro lado, assim como faz na sua atual banda, onde chama diversas outras bandas mais legais que a sua pra turnês; faria uma composição administrativa nessa linha. Isso indica humildade e saber reconhecer o trabalho dos outros. Acredito que faria uma administração com grande conhecimento técnico, misturado ao conhecimento prático. Pode até ser que dê certo… pelo carisma!

– (Rs) Ótimo cara! Está inspirado hoje ein?

“O Caetano de cueca com a Carla Peres e o Xande é só mais um político querendo se aparecer” – Diabolô.

Estava eufórico com a inspiração do meu amigo. Em todas as aspas que ele me pedia. A cada intromissão em nosso diálogo. Estava contagiante ao ouvir suas palavras sobre essa famigerada mistura. Até porque eu nunca tinha parado pra fazer tanta alusão entre candidatos artistas e candidatos políticos. É estranho, o que faz de alguém um líder em cima de um palco ou de um palanque? Uns são fabricados outros nascem com o tão clamado “dom”.

O que eu penso é que há certa ligação entre esses dois mundos.

– Mais ein Diabolô, você falou de uns nomes gringos aí. E se fosse artista brasileiro, quem encabeçava sua lista?

– Vixi mano… aí a treta é feia… até porque não há regra pra isso né bicho. Quem um dia iria imaginar que o Exterminador do Futuro fosse governador da Califórnia ou o Tiririca deputado federal?

– É verdade.

– Mas acho que o Bezerra da Silva seria um bom nome caso vivo. Lembre-se, ele foi a voz do morro durante muitos anos.

– Faz todo sentido. Até porque tem artista que conhece muito mais a realidade do brasileiro que os próprios políticos.

– Claro… você chegou a ver o que o rapper Kaskão disse esses dias?

– Não…

– O cara falou que pra melhorar o Brasil só o Marcola, do PCC, pra presidente.

– Sério? Quando ele falou isso?

– Ele não só fala como canta!

– (Rs) Não conheço esse rapper.

– Eu também não conhecia, mas acabei lendo a notícia. Ele ainda diz que sobraria vaga pra vereador, prefeito, etc e tal, se o tribunal pra político fosse o do PCC. Ia rolar cabeça sem parar com tanto ladrão que mente pro povo.

– É verdade. Que doido isso, não?

– E o cara, além de músico, ex interno da Febem e ex detento, hoje é formado em Direito. Então ele conhece as várias facetas do nosso sistema de leis. Da nossa “justiça”.

– E como conhece…

“Quem melhor dominar um determinado número de pessoas, se descoberto e ajudado por uma forte estrutura, irá influenciá-los diretamente” – Diabolô.

Eu fico muito intrigado com esta questão. Nos últimos dias, já que meu amigo falou do Marcola, soltaram a notícia que o governo do estado de São Paulo negociou, em 2006, com o PCC, o término dos ataques urbanos que o comando fazia. Seria isso um exemplo da organização criminosa que exerce influência sobre o estado de direito? Caso confirmada a negociação, o que isso se caracteriza? Premonições vindas do rap nacional, que sempre cantaram que o crime está inserido na política, não faltam; Facção Central que o diga!

Mas o que não é novidade é a política e a música caminhar lado a lado. Quando Public Enemy, com sua música “Fight the Power”, levou inúmeros negros às ruas de Nova Iorque pra manifestar seus direitos, a revolução foi cantada. Isso tudo captado pelas lentes do Spike Lee. Também tem o exemplo da banda alemã Atari Teenage Riot, que através de um caminhão de som saiu pelas ruas de Berlin destilando seu ciberanarquismo que extrapolou o mundo virtual e ganhou requintes de violência depois da repressão policial.

Essas ações artístico/políticas são uma espécie de esperança infiltrada no sistema. Não sei se o Papa Francisco vai escutar o CD do Racionais MC´s, que o prefeito Haddad (São Paulo) entregou nas mãos do pontífice. O fato é que um político levou a voz da periferia ao símbolo máximo de uma instituição que a cada dia se redobra pra recuperar sua popularidade.

– Olha… de fato mesmo nessa nossa pira é que o comício seria mais interessante.

– Verdade. Seria bem melhor!

– Já pensou: os candidatos mentiriam musicalmente. Seria mais honesto mentir através da música, afinal, na arte cabe tudo, não é?

– Mas é aí que está a questão né Diabolô. Na arte a mentira cabe, na política… também…

– (Rs) Infelizmente na política surgem artistas especializados em mentir. Já na arte há mentiras sinceras e verdadeiras… (Rs).

– Você acha mesmo?

– Claro… vou explicar um pouco melhor (e lá vai Diabolô pra mais uma divagada):

“Quando palavras são ditas ou cantadas através da arte, elas soam como agentes expansivos; responsáveis por reações das mais diversas. Os artistas, que emitem tudo isso, podem adaptar para a política toda essa mensagem.

 Já na política, isso também existe. Mas com uma estrutura um pouco diferente: nela, as palavras soam como agentes cleptomaníacos, responsáveis por “adquirir” você. Após este estágio, já existe toda uma estrutura para “guiar” nós receptores.

 Ou seja: sobram agentes cleptomaníacos na política e carece de missionários expansivos na arte. Uma crise de um lado e um colapso do outro. E o pior já chegou… as coisas já se ramificaram. Na política há um show com falas que soam fora do tom, mas que expandem uma estrutura de agentes alternativos; normalmente e pra tristeza da evolução ligados ao ódio” – Diabolô.

– Bom, meu amigo. Mas nem tudo está perdido.

– Um quase nem tudo (Rs).

– Enquanto você falava, acabei procurando um link sobre um prefeito de uma cidade na Finlândia.

– Ah… tinha que ser na Finlândia!

– É…tinha que ser. Mas se liga só… deixa eu ver certo o nome da cidade… hmm… porra… não consigo pronunciar… tente ler isso: Reykjavik.

– O que é isso?

– É o nome da maior cidade da Finlândia.

– Mas qual a ligação disso com o que nós falávamos?

– É que o prefeito é anarquista. Tem até tatuagem do CRASS.

– Do CRASS?

– Sim. Viu… nem tudo está perdido. Um prefeito fã do CRASS, a banda anarcopunk mais famosa do mundo.

– Que coisa doida, né?

– Bom… resumindo. O cara foi um punk na juventude, tinha uma banda chamada Nefrennsli, que quer dizer “Corrimento Nasal”! (Rs). Seu partido se chama Best Party (O Melhor Partido). Tudo foi criado por artistas e punks para tirar sarro da classe política. Eles prometiam, se eleitos, “dar toalhas de graça em piscinas públicas, uma câmara municipal livre de drogas e não cumprir as promessas que faziam. E foram eleitos”. Cara… acabei de mandar o link da matéria pelo seu what´s, beleza?

– Beleza. Quando chegar em casa vou ler. Deixe-me ver se chegou o link. Ah… aqui está… chegou…

– É, nem tudo está perdido…

– É, nem tudo…

 

Por Regis Luís Cardoso
LP – Crônicas musicais 
Terra Sem Males

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